SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na sala da diretoria na Poli-USP, a professora Anna Reali, de 63 anos, fala de cacau, banana e dados do SUS para explicar o que considera um dos principais problemas da engenharia no país. Para ela, o Brasil ainda atua como fornecedor de matéria-prima -física e digital- e forma profissionais sem um projeto claro de desenvolvimento.
"Imagina, a gente exporta cacau e o melhor chocolate do mundo não está aqui. Por quê? No Vale do Ribeira, historicamente só vendíamos banana e só agora querem industrializar lá", diz. "Eu quero desenvolver minha IA [inteligência artificial] aqui também. Não quero só comprar IA das grandes. Quero no meu data center ser capaz de cuidar dos meus dados".
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Segunda mulher a dirigir a Escola Politécnica da USP em 132 anos, Reali diz que a engenharia precisa deixar de servir a esse modelo e sustentar um projeto com valor agregado, da industrialização de recursos naturais ao domínio de dados e da inteligência artificial. "Nós temos os dados do SUS, o mundo inteiro fica de olho. Vamos ceder assim? Por que não processar? É outra matéria-prima, superpreciosa".
Para ela, o objetivo da escola deve ser formar profissionais capazes de se reinventar continuamente, e não apenas responder às demandas imediatas do mercado.
Formada em escola pública no interior de São Paulo, atribui ao pai, advogado que se definia como "engenheiro frustrado", a origem da trajetória. No fim dos anos 1980, foi para a Alemanha, onde teve contato com os primeiros trabalhos em inteligência artificial e visão computacional. Depois, passou pela Universidade Carnegie Mellon, na Pensilvânia (EUA), referência mundial na área.
De volta ao Brasil, liderou iniciativas pioneiras. Em 1998, levou alunos ao mundial de futebol de robôs, em Paris. O time brasileiro, batizado de forma informal de "Time Guaraná", ficou em segundo lugar. Também participou da criação da OBR (Olimpíada Brasileira de Robótica), hoje uma das principais portas de entrada de estudantes na área.
Porém, diferentemente de quando Reali ingressou na engenharia, os cursos perderam o prestígio e enfrentam evasão. Para manter estudantes na área, a nova diretora defende projetos nacionais capazes de mobilizar a profissão. "O ITA [Instituto Tecnológico de Aeronáutica] foi criado com a Embraer. A Poli construiu hidrelétricas. Quais são os grandes projetos hoje?"
Sem esse horizonte, diz, parte dos formandos migra para o mercado financeiro, atraída por salários mais altos e trajetórias mais rápidas. "Eles são valorizados pela capacidade de resolver problemas e liderar equipes. O chão de fábrica não está pagando o que um engenheiro merece".
Reali tenta atualizar a imagem da profissão. Para ela, o engenheiro não é mais um técnico que executa tarefas isoladas, mas um resolvedor de problemas, capaz de propor soluções pragmáticas e criativas.
Dentro da instituição, também ocorre mudanças para motivar os novos estudantes e deixar os cursos mais "palatáveis" para uma nova geração com perfil diferente. Em vez de cálculo e física isolados, a Poli criou disciplinas integradas de um ano. O aluno aprende o conceito matemático e, em seguida, já vê a aplicação e os exemplos vinculados a sua engenharia específica (civil, mecânica etc.).
Também foram introduzidas disciplinas de engenharia já no início do curso, com desenvolvimento de projetos, na tentativa de aproximar o aluno da profissão, evitando que fiquem "presos" apenas à teoria nos primeiros anos.
A agenda da gestão inclui também ações voltadas à diversidade. Hoje, mulheres representam cerca de 20% dos alunos da Poli e pouco mais de 15% do corpo docente.
A diretora identifica que o desinteresse feminino pela engenharia não nasce na universidade, mas em uma transição cultural durante a adolescência. "A OBR tem participação de meninas no ensino fundamental de quase 50%, mas isso cai drasticamente no ensino médio", diz. "As meninas deixam de achar atraente fazer parte de um grupo que goste de matemática, de física, de robótica".
Ao longo da carreira, a diretora diz ter enfrentado preconceito explícito. "Falavam sem o menor pudor: 'Mulher jovem não dá. Vai querer casar, vai querer ter filho?'." Mesmo hoje, na liderança de uma das principais escolas de engenharia do Brasil, ela afirma que o estranhamento persiste. "Se você fala engenheira, não tem uma vez que não haja surpresa. Às vezes, eu não quero me expor, então digo que sou professora".
Hoje, a instituição conta com a iniciativa Poliminerva, de apoio a alunas. Reali diz que o apoio da família também é importante. "Nunca foi falado para mim que isso [engenharia] não é profissão de mulher?. Muito pelo contrário. Meu pai incentivava, achava bonito eu participar de competições de matemática".
Especialista na área, Reali defende que a IA deve ser incorporada ao ensino de forma ética e transparente, e não proibida. Para ela, o foco da formação precisa migrar da execução para a capacidade de formular boas perguntas e analisar criticamente as respostas das máquinas.
Na sala da direção, Reali transmite o que pretende para a Poli durante sua gestão. Ao assumir o cargo, ela mudou a configuração do escritório para torná-lo mais agradável, incluindo elementos como flores. Para ela, é fundamental que o ambiente onde alunos e professores circulam seja um lugar em que se sintam bem.
A professora critica a estética tradicional da Poli, que descreve como "deprimente". Em sua gestão, propôs uma nova identidade visual para os prédios, com uso de branco e laranja para trazer mais leveza ao campus. Ela acredita que o ambiente físico precisa ser transformado para que a "Poli seja amada" e para que as pessoas sintam prazer no que fazem ali.
Para a diretora, o sucesso da gestão não será medido apenas por métricas técnicas, mas também pelo sentimento de pertencimento dos alunos. Ela define uma "Poli bem-sucedida" como aquela que integra atividades sociais e culturais com a sociedade e que cuida da saúde emocional dos estudantes.
"Eu ficaria contente se os alunos fossem bem formados, felizes e amassem o que fazem e o instituto".
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Raio X - Anna Helena Reali Costa, 63
Segunda mulher a assumir a direção da Escola Politécnica da USP, é graduada em engenharia elétrica pelo Centro Universitário FEI (Fundação Educacional Inaciana Padre Sabóia de Medeiros), em São Bernardo do Campo (SP), onde também fez o mestrado. Realizou o doutorado na Poli, com passagem pelo Instituto de Tecnologia de Karlsruhe (KIT), na Alemanha, e pela Universidade Carnegie Mellon (CMU), nos Estados Unidos. Foi empossada ao cargo no último 5 de março.
