Calor e viagens longas exigem atenção redobrada de quem tem dor crônica
Altas temperaturas favorecem a desidratação, muitas vezes de forma silenciosa, o que aumenta a sensibilidade dos nervos e das estruturas musculoesqueléticas
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Com a chegada de janeiro e o aumento das viagens de férias, um grupo de pessoas precisa redobrar a atenção: quem convive com dor crônica. As longas horas de deslocamento, somadas ao calor do verão, formam uma combinação que pode favorecer crises dolorosas e comprometer o bem-estar durante o período de descanso.
Segundo a médica anestesiologista e especialista em dor, Ana Flávia Vieira, existe uma relação direta entre o verão e a piora dos sintomas. “As altas temperaturas favorecem a desidratação, muitas vezes de forma silenciosa, e isso aumenta a sensibilidade dos nervos e das estruturas musculoesqueléticas”, explica.
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De acordo com ela, mesmo perdas leves de líquido podem ter impacto em pacientes que já convivem com dor persistente.“O calor também provoca vasodilatação e alterações na circulação, o que pode agravar quadros de dor inflamatória, neuropática e até cefaleias”, acrescenta.
Outro ponto de atenção são as mudanças típicas dessa época do ano. “Férias, viagens, noites mal dormidas e aumento de atividades físicas fora do habitual funcionam como gatilhos importantes para crises de dor crônica”, completa.
Viagens longas: por que o corpo sofre mais
As viagens prolongadas, comuns neste período, são um desafio para quem tem dor crônica. “Ficar muito tempo sentado reduz a circulação, aumenta a rigidez muscular e sobrecarrega articulações”, alerta Ana Flávia.
Segundo ela, o impacto vai além da coluna. “A tensão contínua atinge principalmente lombar, pescoço e ombros, mas pode repercutir também em quadril, joelhos e até gerar dores generalizadas”, afirma.
Além do fator postural, o estresse do deslocamento, as alterações no padrão de sono e mudanças na alimentação interferem diretamente nos mecanismos do sistema nervoso responsáveis por modular a dor, tornando o organismo mais suscetível a crises, mesmo em regiões do corpo que costumam estar controladas.
A experiência de quem convive com dor
Essa realidade é bem conhecida por Thiago Oliveira, de 45 anos, que convive há anos com dor crônica na lombar e episódios recorrentes de dor no joelho. Em uma viagem para a Bahia, ele sentiu na prática os efeitos do deslocamento prolongado. “Conviver com dor crônica é aprender a negociar com o próprio corpo todos os dias. A lombar está quase sempre presente, variando conforme a postura, o tempo sentado e o estresse”, relata.
Antes de viajar, Thiago optou pelo planejamento. Organizou o trajeto com pausas programadas, teve cuidado com a bagagem para não forçar a coluna e, com orientação médica, fez uso de medicação preventiva. “Isso me deu mais segurança para enfrentar o percurso”, conta. Ainda assim, o desconforto apareceu durante o caminho.
“Quando ficava muito tempo na mesma posição, a lombar travava e o joelho doía mais ao levantar. Parar, caminhar um pouco, alongar e manter a hidratação ajudaram, mas o cansaço no final da viagem pesou.”
Planejamento e cuidados durante o deslocamento
Para Ana Flávia Vieira Leite, o preparo antes da viagem é fundamental para reduzir riscos. “A pessoa com dor crônica não deve suspender medicamentos por conta própria e, sempre que possível, precisa conversar com o médico antes de viajar para ajustar condutas preventivas."
Durante o trajeto, medidas simples fazem diferença.“Manter uma postura adequada, usar apoio lombar ou cervical, fazer pausas regulares para se movimentar e garantir uma boa hidratação são cuidados essenciais”, destaca a especialista. Pequenas mudanças de posição, alongamentos suaves e evitar carregar peso excessivo também ajudam a reduzir a sobrecarga sobre músculos e articulações.
Quando a dor foge do controle
Após a chegada ao destino, é importante observar sinais de alerta. “Quando a dor se torna mais intensa, frequente ou diferente do padrão habitual, ou quando passa a não responder às medidas que costumam funcionar, é hora de procurar avaliação médica”, alerta Ana Flávia. Sintomas como formigamento, perda de força, alterações de sensibilidade ou impacto importante no sono e nas atividades diárias não devem ser ignorados. “Mudanças no padrão da dor indicam que algo precisa ser reavaliado para evitar agravamento do quadro."
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Para quem convive com dor crônica, viajar exige mais planejamento, mas não precisa ser sinônimo de desistência. "Respeitar os limites do corpo e entender que algum desconforto pode acontecer faz parte do processo”, diz Thiago.