DONO DO BANCO MASTER

Vorcaro diz ter bancado ‘todos os voos’ de Nikolas Ferreira

Em mensagens de abril de 2024, dono do Banco Master afirma ter pago viagens do deputado, sem detalhar quantidade ou período

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O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, afirmou ter bancado “todos os voos” utilizados pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) em mensagens trocados com o empresário Flávio Carneiro, em abril de 2024. “Esse Nikolas eu banquei todos os voos dele”, escreveu Vorcaro. Na sequência, ameaçou expor o parlamentar: “Vouch (sic) mandar soltsr isso”. As conversas foram reveladas nesta quinta-feira (3/9) pelo portal ICL Notícias.

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As mensagens não esclarecem quantos voos teriam sido pagos pelo banqueiro nem a qual período a afirmação se refere. O conteúdo surge em meio às apurações da Polícia Federal sobre as relações de Vorcaro com Carneiro, que é investigado sob suspeita de ser sócio oculto do banqueiro.

 

No segundo turno das eleições de 2022, Nikolas Ferreira utilizou um jato de Vorcaro durante cerca de dez dias para participar de ações de campanha em apoio ao então presidente Jair Bolsonaro (PL). A agenda passou por nove estados e pelo Distrito Federal. O deputado viajou acompanhado do pastor Guilherme Batista, da Igreja Lagoinha, liderada pelo pastor André Valadão.

O uso da aeronave foi revelado em março pela jornalista Malu Gaspar, de O Globo. Na ocasião, Nikolas afirmou que não sabia quem era o proprietário do avião quando aceitou o convite para participar das atividades de campanha e que somente depois soube que a aeronave pertencia a Vorcaro.

Procurado pelo ICL Notícias, o advogado Thiago Faria, que atua na representação de Nikolas, classificou os questionamentos sobre o caso como “nada a ver”. Segundo ele, “estão tentando ressuscitar esse assunto de Nikolas com jatinho e isso tá ridículo”.

Faria também negou que o deputado tenha apagado publicações relacionadas ao episódio. No entanto, uma postagem de Nikolas com um discurso realizado na Câmara dos Deputados em 27 de abril de 2024 não está mais disponível entre as publicações do parlamentar.

Cobranças de Vorcaro a Nikolas

As mensagens também mostram que Nikolas era cobrado por Vorcaro em razão da relação entre os dois. Em abril de 2024, o banqueiro e Flávio Carneiro discutiram as publicações do deputado sobre a participação de integrantes do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ministros do STF, STJ e TSE no 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado em Londres.

Na época, o evento era apresentado como uma iniciativa organizada pela empresária Karim Miskulin, presidente do Grupo Voto, e financiada pelo empresário Alberto Leite, do grupo FS Security. Posteriormente, veio a público que o Banco Master também havia financiado o encontro.

Nikolas passou a questionar nas redes sociais o custeio da viagem de ministros a Londres. Ao tomar conhecimento das publicações, Vorcaro tratou do assunto simultaneamente com o pastor André Valadão, com Ana Mattos, funcionária do Master responsável pelo monitoramento de mídia e redes sociais, e com Carneiro.

Em uma das conversas, Carneiro alertou Vorcaro sobre as possíveis consequências das publicações de Nikolas. “Babaquice isso. Se não parar isso vai virar pauta de discussão no congresso mesmo. Eles estão usando isso para atacar os caras sem medir as consequências”, escreveu.

Os dois também discutiram uma nota pública que seria divulgada pela CEO do Grupo Voto. O texto destacaria que o fórum era organizado por uma empresa privada, sem mencionar que o Master havia financiado o evento.

“Acho que isso mata o tema do ponto de vista de transparência e de demanda”, escreveu Carneiro. Segundo ele, veículos de imprensa já cobriam os eventos do grupo e não havia exigência para que os organizadores adotassem medidas ostensivas de transparência. “Aquilo lá é uma confraria. Isso existe em todo lugar”, afirmou.

Na sequência, Carneiro demonstrou preocupação com a possibilidade de Nikolas solicitar informações à Corregedoria do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) sobre a participação de ministros no evento.

Vorcaro pede ajuda a Valadão para falar com Nikolas

Vorcaro também recorreu ao pastor André Valadão, líder da Igreja Batista da Lagoinha, da qual Nikolas é membro. Em 27 de abril de 2024, o banqueiro pediu que o religioso conversasse com o deputado sobre as publicações. “De novo pedir sua ajuda com Nikolas. Estão usando a fala dele pra me atacar, por conta de patrocínio num evento em Londres”, escreveu. Vorcaro acrescentou que Nikolas poderia não saber que integrantes da direita haviam participado do encontro, citando o senador Ciro Nogueira (PP-PI), uma das lideranças da oposição e tratado por Vorcaro em mensagens como "um grande amigo”.

“Oi Dani. Claro amanhã falo com ele”, respondeu Valadão.

Dois dias depois, em 29 de abril, Nikolas voltou a abordar o assunto no X. Ele compartilhou uma reportagem da coluna de Malu Gaspar, de O Globo, sobre o patrocínio do Master ao evento. Na publicação, a jornalista apontava que o banco havia patrocinado o encontro, mas não havia divulgado o apoio. Também citava que o Master mantinha uma ação no STF relatada pelo ministro Gilmar Mendes, que participou do fórum em Londres. Ao compartilhar a reportagem, Nikolas escreveu apenas: “interessante”.

Vorcaro voltou a reclamar da publicação com Valadão. “Loucura isso. Aliás, narrativa ruim pra ele mesmo”, escreveu. O banqueiro afirmou que apoiava “diversos eventos e debates” e que, naquele caso, o patrocínio estava relacionado à palestra do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair.

Para Vorcaro, a publicação de Nikolas acabava por prejudicá-lo. “Discurso acaba ficando ruim, ele incentivou e propagar [sic] um ataque a mim, como fez agora”, escreveu. Valadão então relatou que havia procurado Nikolas para conversar. Em áudio enviado ao banqueiro, disse ter falado com o deputado sobre “todo apreço” e “todo apoio” que existia entre eles e que algumas informações poderiam chegar ao parlamentar de maneira equivocada. “Ele vai me chamar aqui”, afirmou o pastor.

Vorcaro, então, pediu para entender a posição de Nikolas. “Pra eu entender qual que é a visão dele, né? Que agora assim, antes eram coisas que ele não sabia, ele tava sem previsão, mas nessa ele pegou um negócio com meu nome direto”, disse, em áudio. Em seguida, enviou uma mensagem de texto: “Só preciso saber se estamos do mesmo lado ou agora estamos um contra o outro”.

Horas depois, Valadão voltou a falar com Vorcaro após conversar com o deputado. “Resumindo. Ele nem sabia sobre o banco e vc ‘palavras dele né’ e daí pediu perdão demais e vai contornar tudo”, relatou. Segundo o pastor, Nikolas também havia manifestado “gratidão” a Vorcaro.

Equipe de Vorcaro monitorava publicações de Nikolas

Enquanto conversava com Valadão, Vorcaro também recebia informações de sua equipe de monitoramento de redes sociais. Em uma das mensagens, uma funcionária do banco informou que uma publicação de Nikolas havia alcançado grande repercussão e estava gerando problemas.

Em 4 de maio de 2024, Vorcaro voltou a perguntar a Carneiro sobre a situação com o deputado. O empresário respondeu que Nikolas havia retirado a publicação. “Nikolas tirou aquele post. Ele realmente não tr (sic) conectou no tema e não é ele mesmo que posta nada”, escreveu Carneiro.

Vorcaro perguntou se o empresário havia conversado diretamente com o deputado. Carneiro confirmou: “Falei, tirou e ficou na categoria amigo”.

Nikolas pede ajuda a Vorcaro um ano depois

Meses depois, em 30 de março de 2025, Nikolas voltou a procurar Vorcaro. Em um áudio enviado ao banqueiro, pediu ajuda para Thiago Rodrigues de Faria, advogado e ex-assessor do deputado. Segundo Nikolas, seria necessária a intervenção de Vorcaro para liberar “um ativo de minério”.

No áudio, Nikolas chama Vorcaro de “Dani” e afirma que gostaria de ter mais proximidade com o banqueiro.

“Ei Dani, tudo bom? Como você está? Como estão as coisas aí? Desculpa te incomodar num domingo aí, é jogo rápido, também não quero tomar muito seu tempo. É o seguinte, meu amigo, meu advogado, enfim, irmão meu aqui, comentou comigo e falou daqui do seu nome. Eu falei: ‘Não conheço o Dani, enfim, não tenho a proximidade assim, até mesmo a que eu queria ter, enfim, de conversar e trocar ideia, mas eu o conheço.’

Ele falou: ‘Cara, tô com um ativo minerário lá, inclusive já passou pela ficha técnica, o pessoal técnico dele, enfim, tá pendente lá, tem algumas pessoas que sabem disso lá na empresa.’ E eu falei: ‘Não, ué, eu posso dar um toque nele’. Então assim, não sei nem do que se trata, mas enfim é como é uma pessoa, enfim, que eu confio totalmente, tô passando aí pra você, pra se for do teu interesse, passar o contato dele aqui pra vocês tocarem isso, beleza? No mais, qualquer coisa tô aqui à disposição”, disse no áudio.

No mesmo áudio, o deputado retomou o episódio envolvendo o fórum em Londres e voltou a se desculpar com o banqueiro. Nikolas afirmou que havia conversado com Valadão sobre o caso e que, se soubesse que o Master estava envolvido no evento, teria procurado Vorcaro antes de fazer a publicação.

“Eu não fazia ideia que era este o banco do Dani etc. e tudo, senão, obviamente, eu não teria postado, já teria conversado anteriormente”, disse. Nikolas reconheceu, porém, que a publicação já havia sido feita. “A palavra dita não tem como voltar”, afirmou. Depois, disse esperar que o episódio estivesse esclarecido e sugeriu um novo encontro com Vorcaro.

Assessor de Nikolas 

Reportagem do Estado de Minas, em setembro de 2025, revelou que Thiago Rodrigues de Faria, ex-assessor jurídico do deputado federal e advogado de Nikolas, foi um dos intermediários, por meio de um contrato de confiabilidade, de uma negociação envolvendo uma lavra de minério e uma das empresas investigadas pela Operação Rejeito, a Gmais Ambiental, que, segundo a Polícia Federal (PF), seria de fachada.

A Gmais, de acordo com a investigação, teria como verdadeiros donos e gestores o delegado da Polícia Federal Rodrigo Teixeira e o lobista Gilberto Carvalho, ligado ao PL mineiro, que foram presos na Operação Rejeito. Conforme as investigações, o advogado de Nikolas, lotado no gabinete do parlamentar em Brasília, assinou em janeiro do ano passado, por meio de sua empresa (Thiago Rodrigues Sociedade Individual de Advocacia), um contrato de intermediação de compra e venda de um lavra minerária em sociedade com a Gmais, empresa que teria sido criada para ocultar os verdadeiros donos, segundo a PF.

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Esse contrato também teve como sócia a mineração Topázio Imperial, que detém os direitos minerários de uma lavra onde está localizada uma das barragens de maior risco do estado. O grupo, ainda de acordo com as investigações, estava interessado em vender a lavra da Topázio para exploração minerária. Mas, antes, precisava desembaraçar a empresa, detentora dos direitos minerários de uma lavra em Ouro Preto, no Distrito de Rodrigo Silva, cuja exploração foi suspensa em função de uma ação movida pelo Ministério Público Federal (MPF).

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