Marília Campos: "Minas está falida há muito tempo"
Depois de quatro mandatos como prefeita de Contagem, Marília Campos agora é pré-candidata ao Senado e quer priorizar o debate sobre a dívida do estado
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Pré-candidata ao Senado, a ex-prefeita de Contagem Marília Campos (PT) foi a convidada do EM Minas, programa do Estado de Minas em parceria com a TV Alterosa e o Portal Uai, desta semana. Na entrevista, ela avaliou a conjuntura política às vésperas da eleição, com o PT lançando o deputado federal Patrus Ananias como candidato ao governo.
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Sobre os planos para o Senado, Marília reforçou que pretende priorizar o debate sobre a dívida de Minas Gerais com a União e promover medidas adicionais ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), mesmo que para isso precise contrariar orientações do próprio partido. Também prometeu, se eleita, um mandato de diálogo e proximidade à população mineira de todas as regiões, afastado da polarização e focado em resolver os problemas reais do estado.
Com alto índice de aprovação na terceira maior cidade de Minas Gerais, por que não aceitar ser candidata ao governo do Estado?
Eu fiz um debate com a minha cidade sobre essa possibilidade de poder cuidar, além de Contagem, de outras cidades de Minas Gerais. E quando fiz esse debate, meu nome despontava muito para o Senado. O Senado é um lugar onde posso ajudar muito as cidades de Minas, porque, sendo governadora, você tem que se dedicar muito à gestão.
No Senado, você se dedica muito à articulação política, e acredito que é isso que as cidades mais precisam. Como porta-voz, com a experiência que tenho de ter sido prefeita de uma cidade grande e agora conhecendo a realidade das cidades pequenas, posso me dedicar a ser porta-voz dos municípios de Minas Gerais junto ao governo federal e ao governo do estado. Então, me sinto mais legitimada e com maior motivação para ser pré-candidata ao Senado.
A senhora acha que a candidatura de Patrus Ananias tem chances reais nesta eleição ou vai servir como palanque para o presidente Lula em Minas Gerais?
Temos um quadro muito indefinido em Minas. . Para avaliar o potencial é preciso ter esse quadro mais definido. O Patrus é uma pessoa com credibilidade e representatividade, porque já foi ministro, prefeito e é deputado federal. É um nome importante da esquerda, com discurso mais amplo. Quando a eleição começar, vamos testar, e acredito que ele tem pique para crescer muito no processo eleitoral. É um nome forte para disputar com credibilidade e fazer bonito no processo eleitoral.
Quais seriam as principais diferenças entre ser gestora pública de uma cidade como Contagem e estar no Senado representando Minas Gerais?
No Executivo, além de fazer articulação política, você executa e gasta um tempo enorme na gestão, porque não existe execução se você não se dedicar à gestão. Os prefeitos sabem muito bem disso. No Legislativo, você cuida do orçamento, aprova projetos de lei, articula políticas e é porta-voz. No meu caso, se eu for eleita, serei porta-voz dos municípios no Senado Federal. Essa é minha principal bandeira: representar as cidades no Senado para que a gente possa discutir políticas que gerem desenvolvimento nos municípios em Minas.
Nesse período de pré-candidatura, quase 100 dias, quantos quilômetros já foram rodados? Como está esse trabalho na pré-campanha?
Eu renunciei ao mandato de prefeita para ser pré-candidata ao Senado. Eu já conheço bem a realidade das cidades grandes e médias e tinha uma necessidade enorme de estar perto da realidade das cidades pequenas. Percorri todas as regiões do estado e me deparei com a realidade das cidades pequenas e médias. Foram mais ou menos 200 cidades que tive contato e 200 mil quilômetros rodados. Vou continuar, depois que meu nome for referendado na convenção, indo às cidades para aprofundar esse debate.
A candidatura da ex-deputada Áurea Carolina, do PSOL, pode competir com a sua em termos dos votos da esquerda?
Não acho que compete. Temos dois votos para o Senado. Se alguém da esquerda escolher a Áurea, o outro voto poderá ser meu, e vice-versa. Há uma preferência, e caberá a nós fazermos essa discussão com o eleitorado, seja o mais à esquerda, seja o mais conservador.
A senhora tem defendido uma campanha baseada no diálogo, contra a polarização. Como pretende conquistar o voto do eleitor que não é simpatizante da esquerda?
Não sou uma pessoa do extremo, sou de centro-esquerda. E não me apresento ao eleitorado colocando essa posição, porque isso interessa pouco às pessoas de forma geral. O que elas querem saber é o que você já fez. É com essa pergunta que me dirijo e me apresento: já fui prefeita quatro vezes e deputada três vezes e apresento o que já fiz, meu compromisso.
É com o trabalho que já executei que me apresento nas cidades, e é por essa razão que tenho conquistado muita gente – inclusive por isso meu nome está em primeiro lugar em todas as pesquisas já feitas, porque existe um reconhecimento, para além da minha cidade, do trabalho que eu executei.
Caso eleita, são oito anos de mandato. O que a senhora considera prioridade para Minas Gerais no Senado?
A primeira questão é ajudar para que tenhamos medidas adicionais ao Propag, que trata da dívida do estado de Minas com a União. O Propag auxiliou, mas só lidou com a taxa de juros e o prazo de pagamento. Nós temos que diminuir o valor principal da dívida. Vou lutar muito por medidas adicionais para que o estado de Minas esteja presente nas nossas cidades, garantindo desenvolvimento. A segunda prioridade é representar os municípios.
Em todas as minhas andanças, verifiquei que a principal questão é a mobilidade – que significa estrada, o direito de ir e vir, inclusive as estradas rurais que levam as pessoas ao campo. E também precisamos desconcentrar os equipamentos da área da saúde, garantindo mais saúde para o povo de Minas Gerais. Temos que ter mais equipamentos de saúde para atender aos nossos cidadãos.
O que o PT precisa para mudar a imagem construída na época de Fernando Pimentel?
Acho que a vida foi um pouco injusta com o Pimentel. Ele pegou o governo do estado numa época em que pagava regularmente as dívidas de Minas com a União. A campanha vai ser o momento de esclarecer, porque a dívida já tem mais de 40 anos. E, inclusive, no início do governo Zema, era de R$ 113 bilhões e hoje está em R$ 213 bilhões.
O desgaste do Pimentel foi porque ele atrasou repasses aos municípios e parcelou salários de servidores públicos, mas isso porque ele pagava a dívida regularmente. Zema entrou e conseguiu uma moratória judicial, parou de pagar a dívida e ficou em dia com prefeitos e servidores, mas nem por isso o estado está saneado.
Temos na campanha eleitoral uma oportunidade para explicar essa situação. O problema não foi o Pimentel, contaram uma inverdade de que Minas estava saneada, e Minas está falida há muito tempo. A discussão no debate eleitoral agora é sobre quais medidas precisamos tomar para que Minas esteja mais presente nas nossas cidades.
O que um senador eleito por Minas Gerais pode fazer, de fato, para mudar a vida dos mineiros?
A primeira coisa que o senador tem que fazer é ficar próximo, porque quem está distante não conhece a realidade dos municípios, das cidades, da população. A segunda questão é dialogar – não dá para ficar brigando o tempo todo no Senado, sem apostar no diálogo, ficar apontando dedo.
Qual é a proposta concreta para discutir como ajudar as cidades de Minas? Como já disse, a primeira questão é o Senado discutir medidas adicionais para resolver o problema da dívida do estado de Minas Gerais com a União. Essa é a principal ajuda que um senador pode fazer. E para isso ele precisa ter capacidade de diálogo no Senado e com o governo federal.
Como a senhora avalia o cenário atual e a situação do PT em Minas Gerais?
Existe um quadro de indefinição muito grande, inclusive no nosso partido. Já temos o pré-candidato ao governo e a pré-candidata ao Senado, mas ainda não temos o restante da chapa. Vamos ter em breve. E assim está em vários outros partidos. Esse cenário possivelmente só será definido depois do dia 15 de agosto.
Há espaço para diálogo entre governo, oposição e Senado hoje em dia?
Tem que ter, porque quem não dialoga não soluciona problemas. Acho que o eleitorado já está começando a se cansar dessa coisa só do TikTok, da denúncia que vem nas redes sociais. “Ah, esse buraco não está tampado. Ah, essa escola está faltando…” Olha, qual é a proposta para solucionar o problema de Minas? Temos problemas na saúde, na mobilidade, na segurança, e prefeitos reclamando que funções do estado estão sendo transferidas para os municípios. Qual é a solução? Precisamos discutir soluções, e para isso é preciso parar de brigar entre a gente e discutir quais são as propostas para resolver o problema.
O que precisa para que as mulheres ocupem cada vez mais o espaço que merecem na política?
A gente avançou, mas precisa avançar mais. Minha pré-candidatura vai representar muito a luta das mulheres, a luta por mais direitos. Leis já temos muitas. Precisamos lutar para que elas sejam cumpridas. Por exemplo, a Lei Maria da Penha, que combate a violência.
Muito do que está prescrito na legislação não é cumprido, porque faltam equipamentos públicos nas nossas cidades para garantir proteção às mulheres. O clima de violência política e psicológica faz com que a mulher se iniba e recue, inclusive na participação política, porque a violência que a gente sente em casa ou no trabalho também é sentida no mundo da política. E isso faz com que muitas mulheres recuem.
Precisamos de um ambiente de mais diálogo e mais pacificado para estimular a participação das mulheres. A política ainda é mais difícil para nós porque é mais uma agenda diante das muitas que já temos. Eu, por exemplo, digo com tranquilidade: se eu tivesse filho pequeno, não poderia ser pré-candidata ao Senado.
Como eu faria para cuidar dos meus filhos como cuidei viajando de segunda a sábado. Não temos uma agenda doméstica de fato compartilhada. Precisamos compartilhar mais o cuidado com os filhos e com os pais para permitir que a mulher assuma outras agendas, seja no mercado de trabalho, seja na política.
Olhando para sua trajetória à frente da prefeitura de Contagem, ficou algo por fazer, algum arrependimento?
Na prefeitura de Contagem conseguimos realizar muito, e a cidade hoje certamente está muito melhor. Isso é motivo de realização e orgulho. Não à toa tenho 82% de aprovação e fui eleita quatro mandatos, porque conseguimos transformar a vida da cidade. Mas certamente ainda tem muita coisa para fazer: avançar na educação infantil de zero a 3 anos, na área da saúde, na urbanização de vilas e favelas e na política para a população em situação de rua, que é um problema hoje em Contagem e em praticamente todas as cidades. Os próximos prefeitos ou prefeitas vão ter que assumir compromissos e metas para continuar melhorando a cidade.
O que o mineiro pode esperar caso a senhora seja eleita para o Senado?
Muita proximidade. Eu só consigo fazer as coisas estando próxima, sentindo, fazendo o que de fato promove o bem comum. Para isso, preciso me deslocar e ir aonde o povo está. Vou fazer muito isso e quero ser porta-voz. Que me esperem, porque vou voltar para poder representar com autenticidade o povo de Minas Gerais.
Quem é a Marília Campos fora da política?
Sou uma pessoa que já trabalhou muito: trabalhei em banco, fui do movimento estudantil, fui sindicalista, me casei, tenho três filhos – dois já estão fora, um no Nordeste, outro no Sul do país, e um mora comigo – já tenho uma neta. Sou formada em psicologia e gostaria muito de exercer a profissão, mas não tem jeito. Já fui vereadora, deputada e prefeita por quatro mandatos. Sou uma pessoa muito feliz, casada há mais de 40 anos com meu marido, José Prata, meu porto seguro, com quem gosto muito de conviver.
A senhora considera a família fundamental nesse processo de caminhada política?
Sim. Me dá equilíbrio, me dá segurança, e com afeto me faz uma pessoa mais feliz.
Em quais temas a senhora votaria diferente do próprio partido no Senado, se entendesse que aquele voto beneficiaria Minas Gerais?
Na questão da dívida, vou lutar muito por medidas adicionais ao Propag. Qualquer medida que melhore a situação e garanta a presença do estado de Minas nas nossas cidades, vou apoiar. Essa é uma questão central para mim, vou ser muito leal ao povo de Minas Gerais.
Algum senador ou senadora em quem a senhora se inspire atualmente?
O Rodrigo Pacheco é uma grande referência para mim, pela postura que ele teve de lealdade ao presidente Lula, ao nosso país, à democracia e a Minas Gerais, porque foi ele quem abraçou a questão da dívida do estado.
O eleitor está cansado de promessa. Como pretende medir e prestar contas do seu mandato, caso seja eleita senadora?
Do mesmo jeito que fiz na prefeitura: voltando e falando o que eu faço.
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Dediquei minha vida inteira a servir as pessoas, e o Senado, para mim, é com esse mesmo objetivo. Só sou pré-candidata ao Senado porque sei que posso ajudar Minas Gerais, e é com esse sentido que visito todas as cidades, para conhecer, para me comprometer e depois poder fazer.