A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou a 5ª da Operação Compliance Zero coloca o senador Ciro Nogueira como o “destinatário central” de vantagens indevidas investigadas pela Polícia Federal em um suposto esquema envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
O documento, assinado em 6 de maio de 2026, reúne suspeitas relacionadas à atuação parlamentar do senador, pagamentos mensais, aquisição societária considerada fora dos padrões de mercado, além do custeio de viagens, hospedagens e despesas pessoais.
Emenda elaborada por assessoria do Banco Master
Um dos principais pontos da investigação envolve a Emenda nº 11 à PEC 65/2023, apresentada por Ciro Nogueira em agosto de 2024. A proposta previa elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Segundo a Polícia Federal, o texto teria sido elaborado integralmente pela assessoria do Banco Master e posteriormente apresentado pelo senador no Congresso Nacional. A investigação sustenta que a medida beneficiaria diretamente os negócios de Daniel Vorcaro.
Mensagens interceptadas pela PF apontam que, após a apresentação da proposta, Vorcaro afirmou que a emenda “saiu exatamente como mandei”. Interlocutores ligados ao banco também teriam afirmado que a mudança poderia “sextuplicar” os negócios da instituição financeira.
"A representação descreve, de modo específico, que o senador apresentou a Emenda nº 11 à PEC nº 65/2023 com conteúdo produzido no âmbito do Banco Master, encaminhado por preposto de VORCARO, impresso e entregue em envelope endereçado a “Ciro” em seu endereço residencial, tendo o texto parlamentar reproduzido, “de forma integral”, a versão previamente preparada pela assessoria do banco", diz a decisão.
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Circulação de outros projetos
A decisão ainda cita indícios de que outros projetos de interesse privado transitavam entre a residência do senador e o gabinete parlamentar após revisão de pessoas ligadas a Vorcaro.
Entre os textos mencionados estão o PL 5.174/2023, que institui o Programa de Aceleração da Transição Energética (PATEN), e o PL 412/2022, que institui o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE) e promove alterações em diversos diplomas legais. Segundo a investigação, as minutas circulavam previamente entre operadores do Banco Master antes de seguirem para análise no núcleo político ligado ao senador.
"Em novembro de 2023, DANIEL VORCARO ordenou a retirada, da residência do senador, de envelopes que conteriam minutas de projetos de lei de interesse do particular, posteriormente levados a 'escritório' indicado por ele para revisão e, em seguida, entregues, já processados, a servidor vinculado ao parlamentar", detalha o texto.
"DANIEL VORCARO teve o cuidado de orientar a pessoa responsável por promover a devolução dos documentos, 'para que o motorista não consiga vincular o transporte do documento ao parlamentar', bem como para que 'o envelope utilizado não faça referência ao Banco MASTER'", complementa.
Compra de empresa por valor abaixo do mercado
Outro eixo da investigação envolve a empresa CNLF Empreendimentos Imobiliários Ltda., apontada pela PF como o principal veículo patrimonial ligado ao núcleo de Ciro Nogueira.
De acordo com a decisão, a CNLF adquiriu 30% da Green Investimentos S.A. por R$ 1 milhão, apesar de a participação societária ser estimada em aproximadamente R$ 13 milhões.
Para o ministro André Mendonça, a operação financeira é um dos elementos que reforçam a suspeita de vantagens econômicas indevidas. Na decisão, ele afirma que não considera “ordinário” que relações pessoais ou políticas justifiquem transações com diferença tão expressiva entre valor pago e valor de mercado.
"Em juízo de cognição sumária, os elementos descritos na representação são suficientes para indicar, em tese, o estabelecimento de um arranjo funcional e instrumentalmente orientado para obtenção de benefícios mútuos, extrapolando relações de mera amizade, entre o Senador CIRO NOGUEIRA e DANIEL VORCARO", destaca o texto.
Repasses mensais de até R$ 500 mil
A Polícia Federal também identificou pagamentos recorrentes ligados à chamada “parceria BRGD/CNLF”, estrutura que, segundo os investigadores, movimentava recursos entre empresas ligadas à família Vorcaro e ao núcleo patrimonial do senador.
Segundo a decisão, os repasses começaram em R$ 300 mil mensais, mas há relatos de que os valores teriam sido ampliados para R$ 500 mil.
Em diálogos interceptados pela investigação, Felipe Vorcaro questiona Daniel Vorcaro sobre a continuidade dos pagamentos. “Vai continuar os 500k ou pode ser os 300k?”, escreveu o operador financeiro em uma das mensagens anexadas ao processo.
Viagens, hotéis e despesas pessoais
A decisão do STF também menciona benefícios indiretos atribuídos ao senador, incluindo viagens internacionais, hospedagens e despesas pessoais custeadas por pessoas ligadas ao banqueiro.
Segundo André Mendonça, a investigação identificou gastos em hotéis como o Park Hyatt New York, despesas em restaurantes de alto padrão e uso de aeronaves privadas.
O documento ainda faz referência à disponibilização de cartão voltado ao pagamento de despesas pessoais do parlamentar e à cessão gratuita, por tempo indeterminado, de um imóvel de alto padrão pertencente a Daniel Vorcaro.
Em um dos trechos citados na decisão judicial, Léo Serrano questiona Vorcaro sobre a continuidade do pagamento de contas relacionadas ao senador. “Só uma pergunta rápida... eh pros meninos continuarem pagando conta dos restaurantes do Ciro/Flávia até sábado?”, escreveu Serrano.
Na sequência, Daniel Vorcaro responde: “Sim. Depois leva meu cartão para St. Barths”, conforme consta na decisão judicial.
Medidas impostas pelo STF
André Mendonça optou por não decretar a prisão cautelar de Ciro Nogueira neste momento. O ministro determinou, porém, que o senador está proibido de manter contato com outros investigados e testemunhas da Operação Compliance Zero, seja de forma presencial, telefônica ou por meios telemáticos.
Além disso, o STF determinou a suspensão das atividades da CNLF Empreendimentos Imobiliários Ltda., apontada pela investigação como peça central da movimentação patrimonial ligada ao parlamentar.
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Na decisão, Mendonça afirmou que as medidas cautelares foram adotadas para evitar risco à instrução criminal, diante da capacidade de influência política e da possibilidade de alinhamento de versões entre os investigados.
