Apontado pela Polícia Federal como o principal operador de um esquema clandestino de monitoramento e intimidação de adversários do banqueiro Daniel Vorcaro, o mineiro Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido pelo apelido de “Sicário”, acumula uma extensa ficha criminal.

Apesar de ter ganhado projeção nas investigações recentes por sua proximidade com o dono do Banco Master, Mourão já era conhecido das autoridades em Minas Gerais muito antes de se tornar o homem de confiança do empresário.

Registros judiciais consultados pelo Estado de Minas no Tribunal de Justiça de Minas Gerais mostram que ele responde desde 2021 a um processo na 5ª Vara Criminal de Belo Horizonte por participação em organização criminosa. A denúncia foi apresentada pelo Ministério Público de Minas Gerais e inclui acusações de crimes contra a economia popular e lavagem de dinheiro.

De acordo com o Ministério Público, Mourão teria atuado na gestão de um esquema de pirâmide financeira que movimentou cerca de R$ 28 milhões. O processo, ainda em tramitação, está em fase de manifestação da defesa dos envolvidos. Além dele, outros dez nomes são citados no processo.

Os registros criminais atribuídos a Mourão remontam ao início dos anos 2000. Em 2003, ele foi detido na Delegacia de Repressão ao Furto e Roubo de Veículos, no Barro Preto, região Centro-Sul de Belo Horizonte, sob suspeita de receptação de veículos roubados. Posteriormente, entre 2006 e 2009, foi indiciado por uma série de crimes previstos no Código Penal, incluindo furto qualificado, estelionato, associação criminosa e falsificação de documentos, conforme informações da Polícia Civil de Minas Gerais.

Relatos reunidos por investigadores indicam que Mourão também teria atuado em atividades ilegais como roubo de veículos para desmanche, aplicação de golpes pela internet e clonagem de cartões de crédito. Informações de inteligência da Polícia Militar de Minas Gerais apontam ainda que ele teria exercido atividades como agiota antes de se aproximar do círculo empresarial ligado a Vorcaro.

Mesmo com esse histórico, Mourão permaneceu em liberdade. Em 2020, por exemplo, foi alvo de um mandado de prisão temporária expedido pela 3ª Vara Criminal da Comarca de Contagem, na Grande BH, em investigação relacionada a crimes contra a ordem tributária.

Frequentador de bairros nobres de Belo Horizonte, Mourão costumava ostentar carros de luxo, incluindo uma Ferrari, apesar de haver poucos registros nas redes sociais sobre suas atividades econômicas.

Nos cadastros da Receita Federal, ele aparece como sócio de duas empresas com a mesma denominação comercial, “King”. Uma delas atua como locadora de veículos e possui endereço vinculado a uma concessionária no Bairro Estoril, na região Oeste de BH. A outra é registrada como empresa do setor imobiliário.

Capanga de Vorcaro

Mourão é acusado de coordenar uma equipe encarregada de obter informações sigilosas, monitorar pessoas consideradas adversárias de Daniel Vorcaro e, em alguns casos, planejar ações de intimidação ou retaliação.

Em troca desses serviços, ele receberia cerca de R$ 1 milhão por mês. A Polícia Federal (PF) também atribui ao grupo invasões a sistemas restritos de órgãos públicos e até de agências internacionais, incluindo o Federal Bureau of Investigation (FBI), para coleta de dados sobre alvos de interesse.

Nas investigações sobre o grupo associado a Vorcaro, ele aparece como líder de uma estrutura chamada “A Turma”. O grupo seria responsável por organizar ações de vigilância e coleta de informações sobre pessoas consideradas obstáculos aos interesses do banqueiro.

Conversas interceptadas pelos investigadores indicam que o núcleo discutia abertamente estratégias de pressão contra adversários. Em um dos diálogos obtidos pela PF, Vorcaro menciona o colunista Lauro Jardim, do jornal 'O Globo', e afirma que gostaria de mandar agredi-lo durante um suposto assalto. Mourão respondeu à mensagem com sinais de aprovação.

Em outros trechos das conversas, o banqueiro pede que o grupo “dê um sacode” em um chef de cozinha ligado a ele e “moa” uma ex-empregada identificada como Monique, que teria feito ameaças ao empresário.

O grupo de mensagens no qual essas discussões ocorriam reunia, além de Vorcaro e Mourão, o pastor Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro, e o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva. Na representação enviada ao Supremo Tribunal Federal para solicitar a prisão dos investigados, a Polícia Federal destacou que a atuação do grupo representava risco não apenas ao sistema financeiro, mas também à integridade física de indivíduos considerados desafetos.

No documento, os investigadores afirmam que a organização recorria de forma reiterada a métodos de coação e ameaça, com respostas consideradas rápidas e premeditadas. A PF descreveu o funcionamento do grupo como semelhante ao de uma milícia privada, estruturada para proteger interesses particulares e neutralizar adversários.

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Horas depois de ser preso na superintendência da PF em Minas Gerais, Mourão tentou tirar a própria vida dentro da cela. Ele foi socorrido por agentes, reanimado por equipes do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e levado a um hospital, onde permanece internado em estado grave, com diagnóstico de morte cerebral.

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