Ainda sem oficializar uma aliança para a disputa ao governo de Minas, o vice-governador Mateus Simões (PSD) e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) iniciaram, nesta quinta-feira, uma sequência de agendas conjuntas pelo interior do estado. Realizado fora da capital pela primeira vez, o encontro da dupla extrapola o mero cumprimento de compromissos administrativos e ganha contornos típicos de pré-campanha, com anúncios de investimentos, discursos alinhados e acenos recíprocos às suas bases eleitorais.

A primeira parada foi em Juiz de Fora, onde anunciaram o repasse de R$ 14 milhões para revitalização do Distrito Industrial II, sem a presença da prefeita da cidade, Margarida Salomão (PT), que não foi convidada para o ato. Amanhã, eles ainda têm mais uma agenda conjunta em São João del-Rei, no Campo das Vertentes.

Planejado para concentrar indústrias, empresas de logística e centros de distribuição, o distrito industrial de Juiz de Fora receberá obras de drenagem, pavimentação e iluminação. "A cidade tem uma posição logística privilegiada na ligação com o Rio de Janeiro e com Belo Horizonte. Temos que garantir que as indústrias possam se instalar”, afirmou o vice-governador em conversa com a imprensa no local.

A presença de Simões no evento ocorreu a convite de Nikolas, que atribui a si a interlocução com lideranças locais e o encaminhamento das demandas ao Executivo, apesar de os recursos aplicados serem estaduais.

Ao dividir o palco com Simões, o parlamentar reforçou publicamente sua identificação com o governo Zema e, em contraste, teceu críticas à administração federal. Sem citar nominalmente Simões, Nikolas classificou o Executivo estadual como um “aliado”. “A gente tem que ficar em cima. Graças a Deus, o governo do estado é um pouco mais tranquilo, não precisa ficar tão em cima, porque é um governo aliado. Quando se trata do governo federal, aí já é completamente mais difícil, inclusive chegar na ponta”, declarou.

Simões, por sua vez, aproveitou o anúncio para atribuir à Prefeitura de Juiz de Fora a responsabilidade pela precarização do distrito industrial que, segundo ele, foi repassado ao município há “muitos anos atrás”. “Infelizmente, isso (cuidar da infraestrutura) não foi feito. O estado, então, reassume essa parte para entregar o dinheiro e, efetivamente, permitir que as empresas possam se instalar”, declarou. 

Procurada pela reportagem, a prefeitura contestou a versão apresentada pelo vice-governador. Em nota, afirmou que a área é vinculada à antiga Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemig), atual Codemge, e que o município assumiu intervenções estruturais que não estavam sob sua responsabilidade. “Em razão da ausência de investimentos estaduais, o município, na primeira gestão da prefeita Margarida Salomão, assumiu uma série de demandas estruturais, que vêm sendo enfrentadas com recursos próprios desde 2021, totalizando aproximadamente R$ 10 milhões”, destacou.

A administração municipal também afirmou não ter sido informada previamente sobre o anúncio e que tomou conhecimento do investimento por meio da imprensa. A nota classifica como “positivo e satisfatório” os aportes no município, mas lamenta que o investimento anunciado ocorra “apenas no último ano do segundo mandato do governo Zema, sem histórico de aportes mais expressivos ou mais frequentes”.

Tom de pré-campanha

No mesmo dia, Simões e Nikolas seguiram para Ponte Nova, também na Zona da Mata, onde anunciaram o repasse de R$ 40 milhões para a construção do Anel Viário do município. A obra, já em execução, vai interligar as rodovias MG-329 e MG-120. Ao comentar o projeto, o vice-governador destacou a atuação do deputado na articulação do investimento. “Esse pedido que o Nikolas trouxe atende a um anseio regional de décadas, vai fazer muita diferença para a região”, disse o vice-governador.

À reportagem do Estado de Minas, Simões reafirmou ter assumido o compromisso pessoal de “tratar com prioridade” as demandas apresentadas pelo parlamentar. “E é isso que a gente tem feito, essa oportunidade desses anúncios é uma resposta adequada do governo do Estado em relação a demandas que foram captadas, percebidas por um deputado da relevância do deputado Nikolas Ferreira”, disse, acrescentando que essa postura é também uma forma de responder a “quem votou nele”.

Simões, que deve assumir o comando do Executivo estadual no fim de março, quando o governador Romeu Zema (Novo) deixa o cargo para se dedicar à corrida presidencial, trabalha para consolidar o apoio do PL à sua pré-candidatura ao Palácio Tiradentes.

Questionado sobre o significado político da agenda conjunta, o sucessor de Zema disse apenas que ela “transmite trabalho conjunto”. “Política é assim. Tem gente que não tem condição de trabalhar comigo, que não tem o padrão moral de comportamento que eu espero num político. Esses não vão encontrar portas abertas dentro do governo. Não é o caso do deputado Nikolas, vai sempre encontrar portas abertas”, declarou.

A passagem por Juiz de Fora também serviu como vitrine para lideranças locais, como a vereadora Roberta Lopes (PL), coordenadora da Direita Minas no município e cotada como possível candidata a deputada estadual, que esteve no palanque. A agenda conjunta terá continuidade nesta sexta-feira (19/2) em São João del-Rei, no Campo das Vertentes, onde serão anunciados outros recursos para um anel viário de ligação entre a BR-265 e a MG-383.

Como parte dos acenos na construção de uma aliança com o partido bolsonarista, Simões mantém reservada ao PL uma das vagas ao Senado Federal, compromisso firmado há cerca de quatro meses com o ex-presidente Bolsonaro, antes da prisão por tentativa de golpe de Estado. “Acho que eles tem o tempo deles de construção. Não tem absolutamente nada fechado, porque isso depende do caminhar da carruagem. Flávio, por exemplo, não era pré-candidato à presidência naquele momento, mas da minha parte eu mantenho a vaga absolutamente reservada para o PL, como foi o compromisso que ele me pediu”, disse.

A decisão final, no entanto, ainda não foi tomada pelo partido. O presidente estadual da legenda, Domingos Sávio, afirmou que a definição dependerá do próprio Nikolas e do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), escolhido pelo ex-presidente como seu sucessor. Contam a favor do PL nas negociações sua bancada de 87 deputados federais, que garante um dos maiores tempos de televisão no próximo ano, e o deputado federal Nikolas Ferreira, que foi o mais votado do país em 2022 e deve concorrer à reeleição.

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Apesar dos avanços, a costura não é consensual dentro do PL. Uma ala do partido resiste à aliança com o PSD, citando desgastes entre o governo de Romeu Zema (Novo), de quem Simões é vice, e representantes das forças de segurança, base importante do bolsonarismo. Em novembro do ano passado, Nikolas e Simões estiveram juntos na inauguração de um stand de tiros do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), viabilizado com emenda parlamentar de R$ 1 milhão. O episódio foi seguido por relatos de que o convite não partiu do deputado, como mostrou o EM, evidenciando as tensões internas que permeiam o arranjo.

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