Os bastidores da 'crise' do PL mineiro
A divulgação das anotações do pré-candidato ao Planalto Flávio Bolsonaro (PL) escancarou divergências que já vinham sendo relatadas reservadamente
compartilhe
SIGA
A crise interna do Partido Liberal em Minas não é mais apenas ruído de bastidor. A divulgação das anotações do pré-candidato ao Planalto Flávio Bolsonaro (PL), pela Folha de S Paulo, escancarou divergências que já vinham sendo relatadas reservadamente por deputados da sigla no estado.
Leia Mais
O foco do impasse é a construção do palanque mineiro em 2026. Parte da legenda resiste à aproximação com o vice-governador Mateus Simões, do Partido Social Democrático. A avaliação interna é que Simões carrega duas indefinições consideradas politicamente delicadas.
O Estado de Minas apurou que a primeira é a lealdade ao governador Romeu Zema (Novo), que mantém discurso e agenda nacionais e se movimenta como presidenciável. A segunda é o alinhamento partidário: o PSD já tem nomes no radar presidencial, como Ratinho Júnior, Eduardo Leite e o presidente da legenda, Gilberto Kassab. Para um setor do PL, é arriscado montar um palanque estadual ancorado em alguém que pode estar vinculado a um projeto nacional concorrente.
“Nikolas não decide”
O EM ouviu dois deputados do PL mineiro que afirmaram, sob reserva, que Nikolas Ferreira não tem poder para fechar acordos eleitorais sozinho. Segundo eles, a decisão sobre governo e Senado depende exclusivamente do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A fala de Nikolas após visitar Bolsonaro na Papuda, quando afirmou ter recebido liberdade para construir o cenário mineiro, foi recebida com ceticismo por parte da bancada.“Bolsonaro pode ter autorizado a dialogar, mas quem bate o martelo é ele”, resumiu um dos parlamentares.
Nos bastidores, há ainda uma leitura política sobre o momento. Deputados avaliam que a pressão para que Nikolas tenha protagonismo na montagem da chapa também está relacionada ao peso eleitoral que ele exerce. Como um dos maiores puxadores de votos do estado, ele influencia diretamente a formação das nominatas. O incômodo com a cobertura de chapas proporcionais e o risco de pulverização de votos estaria no pano de fundo dessa movimentação.
Para este grupo, o melhor nome para governo mineiro é o do senador Cleitinho (Republicanos), que sinalizou hoje que deve concorrer ao cargo.
Documento reforça desconfiança sobre Simões
As anotações atribuídas a Flávio adicionaram combustível ao racha. No trecho referente a Minas, há a observação de que o nome de Mateus Simões “puxa” o pré-candidato “para baixo”. A avaliação circulou rapidamente entre lideranças do partido no estado e foi interpretada como um sinal de que a resistência à aliança não está restrita à ala mineira.
Em outro ponto, aparece a anotação “conversa com Nikolas”, indicando que o deputado federal é considerado peça central na definição do cenário mineiro. Flávio e Nikolas têm encontro previsto para hoje. A reunião é tratada internamente como decisiva para medir o tamanho do protagonismo do parlamentar mineiro na engenharia eleitoral do estado.
Senado: múltiplos nomes e disputa velada
No campo do Senado, o cenário é igualmente fragmentado. As anotações citam Carlos Viana, Marcelo Aro, Eros Biondini e Domingos Sávio, sendo que Viana e Sávio aparecem destacados. Paralelamente, o deputado estadual Cristiano Caporezzo reivindica a condição de pré-candidato e tem reiterado que apenas Bolsonaro pode validar ou retirar seu nome. O nome dele não aparece nas anotações.
Em entrevista exclusiva feita ontem, terça-feira (24/2), Caporezzo foi direto ao contestar a leitura de que Nikolas teria autonomia ampliada. Disse não reconhecer qualquer autoridade interna que não seja a do ex-presidente e questionou publicamente a delegação de poder anunciada pelo colega.
Nos bastidores, interlocutores veem na disputa pelo Senado uma guerra silenciosa por espaço na chapa majoritária, com reflexos diretos sobre o desenho do palanque presidencial.
Aproximação estratégica ou risco político
A ala que defende diálogo com Simões argumenta que a aproximação tem racionalidade prática. Nikolas precisa ampliar sua presença territorial, fortalecer pontes com prefeitos e consolidar base institucional. A parceria com o vice-governador, que tem agenda ativa no interior, facilita esse trânsito.
Para aliados do deputado, a estratégia é clara: sair da centralidade das redes sociais e ocupar o território político real.
Já os críticos alertam para o risco de incoerência. Sustentam que Minas, por ser o segundo maior colégio eleitoral do país, precisa oferecer um palanque coeso e inequívoco a Flávio. Um arranjo que mantenha pontes simultâneas com Zema e com o PSD poderia embaralhar o discurso nacional da direita.
Zema como variável central
O presidente estadual do PL, Domingos Sávio, já sinalizou que a construção da aliança mineira está condicionada ao cenário presidencial. Ele evitou pressionar Zema, mas admitiu que uma eventual desistência do governador da corrida ao Planalto simplificaria a equação.
Enquanto Zema mantém ambição nacional, Simões permanece numa posição ambígua. E o PL mineiro, dividido entre pragmatismo regional e alinhamento ideológico, aguarda um gesto claro de Brasília.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
A reunião entre Flávio e Nikolas ocorre sob esse pano de fundo. Mais do que um encontro político, ela é vista como um teste de força interno. Minas, neste momento, é a peça mais sensível do tabuleiro bolsonarista para 2026.