Já imaginou um juiz virar unanimidade de uma torcida? Indicado por um jogador de futebol. E ainda ser campeão de vendas e de leitura? Mas claro que não é um juiz de futebol, seria exigir muito dos torcedores esse consenso. É um juiz de tribunal do outro lado do planeta, mas que chega por aqui pelas páginas de uma das obras-primas da literatura russa e mundial.
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O seu nome é Ivan Ilitch. Caiu nas graças da torcida do Galo e talvez de outros times depois de indicado pelo meio-campista Gustavo Scarpa no “Canal do Scarpinha”, no YouTube.
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Caso raríssimo e dignificante no mundo do futebol, Scarpa sugere para a galera os bons livros que lê. Sugere com resenha, é bom que se diga, não é apenas um pitaco ao vento. Como meio-campista, torna-se, a pé da letra, o cérebro do time.
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Ao indicar “A morte de Ivan Ilitch”, a novela, ou romance curto, escrita em 1886 pelo romancista russo Lev Tolstói (1828-1910), o atleta provocou uma corrida pela obra, que chegou ao topo das mais vendidas da Amazon.
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Coisa de campeão. E mais do que isso, levou torcedores a criar um clube do livro, “Galeitura”, que já começa exatamente com “A morte de Ivan Ilitch”.
A sugestão de Scarpa é bem oportuna não apenas pela qualidade da obra, mas pelas poucas páginas, em torno de 100, dependendo da edição, que serve como porta de entrada para quem não tem hábito de leitura, nunca leu Tolstói e quer se iniciar nas obras do grande escritor russo.
Afinal, o autor é o responsável por duas, literalmente, grandes obras da literatura mundial – “Anna Kariênina” (cerca de mil páginas) e “Guerra e paz” (cerca de 1,5 mil páginas). Não são empreitadas recomendadas para quem pretende começar a ler Tolstói.
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Daí mais um detalhe importante da relevância da indicação de Scarpa.
A narrativa da “A morte de Ivan Ilitch” é curta, leitura de “uma sentada”, e desperta muita curiosidade sobre a vida de um juiz à beira da morte que reflete o que fez ou não fez ao longa da sua vida.
Ivan Ilitch sempre foi temente das convenções da sociedade russa, “muito estimado por todos”, como diz o narrador logo no início, viveu no conforto e nos conformes de seus pares. Respeitado e bem-sucedido. Mas, de repente, tudo muda, ele sofre um acidente, fica doente e passa a ver a morte no horizonte.
Isolado da sociedade, presencia outro lado de sua vida, em que a hipocrisia e a indiferença, inclusive da família, transformam seus dias finais em estorvo para todos ao redor. E até de cobiça, pois ainda nem morreu e os homens do seu meio já estão de olho no seu cargo.
REFLEXÃO
Tolstói leva o leitor a uma profunda reflexão, em instigante trama psicológica, sobre o correr da vida. Um grande tormento de Ivan Ilitch é se dar conta de que, ao final da sua existência, viveu de maneira errada, refém de futilidades e conveniências, sem autenticidade e afeto, que culminaram num grande vazio. "E se toda a minha vida, minha vida consciente, tiver sido realmente a coisa errada?”, questiona.
O consolo vem, então, de onde menos Ivan espera. Mas será que já não é muito tarde?
Em tempo: Scarpa já indicou outros clássicos da literatura. “Crime e castigo”, de Dostoiévski (sobre arrogância, soberba e culpa), “O sol é para todos”, de Harper Lee (sobre racismo nos EUA) e “Carta de um Diabo ao seu aprendiz”, de C.S. Lewis, autor do célebre “As crônicas de Nárnia” (sobre tentações irresistíveis e fraquezas humanas).
Vida longa ao “Canal do Scarpinha” e ao clube “Galeitura”.
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Em tempo 2: A melhor tradução “A morte de Ivan Ilitch” para o português é da editora 34, de Boris Schnaiderman, tirada do original russo, inclusive com a grafia correta do escritor, que é Lev Tolstói, e não Liev e muito menos León ou Leão, como ocorreu em décadas passadas.
