4 MESTRES E 200 CARTAS

A criação de 'Cem anos de solidão' na cartas entre Fuentes e García Márquez

Correspondência entre os dois escritores expõe elogios, dificuldades financeiras e o nascimento de um clássico

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Gabriel García Márquez e Carlos Fuentes tiveram intensa troca de correspondências sobre temas diversos que foram além do fim do “Boom latino-americano”. A primeira encontrada e preservada é de 30 de outubro de 1965, quando o colombiano diz ao mexicano que estava “celebrando a primeira parte finalizada” daquela que viria a ser a sua principal obra. “Até encontrei o título do romance: Cem anos de solidão. Soa bem?”, informa e pergunta García Márquez a Fuentes.

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O escritor mexicano enviou a última carta ao colombiano em 14 de março de 2012, como se fosse uma despedida, porque morreu dois meses depois, em 15 de maio. O tom foi de adeus: “Agradeço os teus livros inseparáveis. Agradeço os teus livros grandiosos”, disse. García Márquez também morreria logo, em 17 de abril de 2014.
 
En carta reproduzida nesta página, o autor do clássico “A morte de Artemio Cruz” mostra o seu deslumbramento ao começar a ler “Cem anos de solidão”, a obra de máxima do colombiano. “As tuas páginas são três coisas, a totalidade do nosso mundo, um novo espaço sagrado-profano: o nosso lugar. Lenda, mito ou fábula, é uma obra que nos resgata, nos resgata da natureza, da zoologia e da geografia”, escreveu Fuentes
 
A resposta de García Márquez indica as dificuldades que ele enfrentou para concluir e publicar a obra. “Vivemos [ele e a mulher, Mercedes Barcha] oito meses muito difíceis, estamos na ruína e atolados em dívidas, que tenho que pagar até dezembro para começar o outro livro em janeiro.”
 

De Carlos Fuentes para Gabriel García Márquez

Paris, 15 de abril de 1966


Magister magnífico! As tuas primeiras páginas de Cem anos de solidão são magistrais, e quem disser ou insinuar o contrário é um filho da mãe que arcará com os punhais sangrentos de longo alcance do jovem escritor gótico C. Fuentes. Kafka, Faulkner, Borges, Mark Twain: com essas páginas, querido Gabriel, entras no no-man's land dessas grandezas e companhias. (…) Que voo, master, quanta sabedoria, quanto humor!
Disse ontem para Monegal, em uma entrevista para a Mundo Nuevo, que a América Latina, culturalmente, passou da utopia de fundação à epopeia de encarnação, e desta ao mito de re-conhecimento, de re-conquista. As tuas páginas são três coisas, a totalidade do nosso mundo, um novo espaço sagrado-profano: o nosso lugar. Lenda, mito ou fábula, é uma obra que nos resgata, os resgata da natureza, da zoologia e da geografia. Não é outro o sentido da imaginação original, criadora. Me despedi com dificuldade das tuas páginas e as enviei ao rapaz da Sudamericana. (…)
(…) Não deixa de ser um árduo prazer ter tantos amigos por perto e a oportunidade de falar por horas a fio com Cortázar, Vargas Llosa, Monegal, Martínez Moreno, Benedetti etc. (…) Master, se tem algo que eu já sei é que a Europa (dos EUA eu já sabia, e chegamos a comentar) recebe a literatura latino-americana de braços abertos. Temos, pela primeira vez, tudo a dizer e também todo o polo internacional de recepção. E o teu prestígio, a esperança que todos têm em ti, são imensos. Temos o touro lançado pelos chifres, e não é hora para cochilo e distrações; existe um campo de forças sustentado, creio eu, por um senso comunitário e individual muito genuíno entre todas as pessoas que realmente valem a pena.

De Gabriel García Márquez  para Carlos Fuentes

30 de julho de 1966


(…) Me chamou atenção, em especial, a análise que fizesse sobre esse romance [“Cem anos de solidão”] na Mundo Nuevo, pois dá impressão de que havia tudo. Foste infalível. Inclusive citaste, sem saber, uma frase que tenho ao final, qualificando os Buendía de “fundadores usurpadores”, estirpe ao mesmo tempo terna e desalmada, cruzamento de homem e porco, de homens fracos e mulheres fortes, dos quais o primeiro esteve amarrado ao tronco de uma árvore por vinte anos, e dos quais o último foi comido pelas formigas, gente de vida e de morte, extinta pela generosidade e concuspiscência, pela ganância e pelo sacrifício, e que não receberá outra chance sobre a face da terra.
 
(…) E agora vamos às coisas tristes: não aceitei a proposta da Itália. Tratava-se de organizar os serviços latino-americanos para a Inter Press Service. O salário não era ruim, me dariam as passagens de ida e volta para toda a prole e contrato por um ou dois anos, mas me informei bem e, por um lado, não concordo com a orientação política da agência, por outro, o diretor-geral vai acabar parando no hospício. Mas para mim nada disso é grave: grave é que o compromisso me obrigava a trabalhar das dez às dez, e a única coisa que eu quero fazer nos próximos meses é continuar escrevendo. O romance do ditador [“O outono do patriarca”] já está me atropelando e preciso decidir o que fazer, pois não tenho o direito de submeter Mercedes [esposa de García Márquez] à mesma provação que a fiz passar com Cem anos de solidão. Vivemos oito meses muito difíceis, estamos na ruína e atolados em dívidas, que tenho que pagar até dezembro para começar o outro livro em janeiro.
 

“Cem anos de solidão”

 
Uma das obras-primas da literatura latino-americana e mundial que coroou a carreira literária de Gabriel García Márquez (1928-2014) com o Nobel de Literatura em 1982, “Cem anos de solidão” conta a saga de várias gerações da família Buendía na fictícia Macondo (referência ao povoado de Aracataca, no interior da Colômbia, onde Gabo nasceu) fundada por José Arcadio Buendía e Úrsula Iguaran. A beleza do livro está principalmente no realismo mágico embutido na história da Colômbia, em meio ao colonialismo, guerras, amores possíveis e impossíveis, auge e declíno de uma estirpe amaldiçoada.

“A morte de Artemio Cruz”

 
A obra mais conhecida do escritor mexicano Carlos Fuentes (1928-2012) é um exemplo clássico que mescla literatura e política em meio às agruras da América Latina. Mostra as últimas horas de um ex-revolucionário mexicano que se torna empresário poderoso e corrupto, com variação da estrutura narrativa na primeira, segunda e terceira pessoas. No fim da sua vida, Artemio Cruz repassa suas memórias de jovem sonhador a latifundiário inescrupuloso, ascensão e declíno como uma metáfora da Revolução Mexicana.

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