4 MESTRES E 200 CARTAS

Nas cartas, a amizade de Julio Cortázar e Carlos Fuentes

Escritores trocaram correspondências durante quase trinta anos, entre 1955 e 1982, com referência a obras literárias e ditaduras militares

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O conto “As babas do diabo”, de Julio Cortázar, que também impressionaria o peruano Mario Vargas Llosa – inclusive por causa da adaptação para o cinema feita por Michelangelo Antonioni – também foi exaltado pelo mexicano Carlos Fuentes em correspondência ao escritor argentino, com quem manteve longa amizade e correspondência entre 1955 e 1982. Cortázar, o mais velho do “Boom latino-americano”, morreria dois anos depois, em 1984.

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“O descobridor com a sua câmera, aquilo que ele pode fotografar daquele casal pego de surpresa, o terror deles, o terror ainda maior do fotógrafo, que sabe que “aquilo” que capturou de verdade nunca será revelado. Que história misteriosa, magistral, inquietante! Já fez morada nos meus sonhos, reincidindo e se abrindo como um leque de possibilidades!”, escreveu Fuentes a Cortázar em 1962 sobre “As babas do diabo”.

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Fuentes, entretanto, celebrou na carta não apenas o conto, mas todo o livro de conto “As armas secretas”, uma das melhoras obras de Cortázar. É uma coletânea publicada originalmente em 1959, que reúne o melhor estilo do escritor na literatura fantástica já na maturidade. Além da história que inspirou o filme “Blow-Up”, o livro contém o conto “O perseguidor”,, inspirado no lendário saxofonista norte-americano Charlie Parker, que morrera quatro anos antes.

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Já em carta enviada para Fuentes seis anos depois, em 1966, Cortázar ressaltou o talento literário do escritor mexicano ao se referir ao livro “Zona sagrada”. “A medida em que cada alusão, cada framento de torch song e cada alusão literária coagulam, por sua vez, em minha memória, vastas experiências de vida, e no fundo isso que é a literatura, pelo menos a que nós fazemos; um grande romance deve nos psicanalisar, devolver todos os peixes cegos à superfície”, descreveu o autor argentino ao amigo.
Cortázar ainda faz um ironia ao citar o general Ongania, que acabara de dar golpe de Estado em seu país e jogado a Argentina numa ditadura assassina: “Se o general Ongania [que dera um golpe de Estado na Argentina um mês antes] soubesse ler, tomaria como ofensa moral”.

De Carlos Fuentes para Julio Cortázar

México, 2 de outubro de 1962

“(…) Julio, As armas secretas é o melhor livro de contos que já foi escrito e publicado na América Latina. Não me canso de lê-lo e relê-lo, descobrindo todas as vezes novos segredos, sentidos que se perdem para quem não dá ao dever prazeroso de ler uma segunda e terceira vez, aparentes fugacidades que na verdade são eternidades ocultas, mistérios imperceptíveis por estarem à luz do dia e no centro das atenções. Conhecia e admirava Os bons serviços e O perseguidor – esse apogeu narrativo no nosso idioma. Agora já não chamo os contos pelos títulos, mas por outras referencias pessoais: o descobridor com a sua câmera, aquilo que ele pode fotografar daquele casal pego de surpresa, o terror deles, o terror ainda maior do fotógrafo, que sabe que “aquilo” que capturou de verdade nunca será revelado. Que história misteriosa, magistral, inquietante! Já fez morada nos meus sonhos, reincidindo e se abrindo como um leque de possibilidades! E uma lambreta que vai rumo a um pavilhão, nos arredores de Paris, para transformar todas as histórias de fait-divers em amor secreto... Queria te encontrar, conversar longamente contigo sobre esse livro maravilhoso. Fiquei tão absorto que ainda não fisguei Os prêmios, que enfim pude comprar na livraria El Ateneo.
Espero que os meus dois últimos livros tenham chegado até ti. E tomara que o projeto com Buñuel [cineasta espanhol Luis Buñuel] dê certo.
Recordo sempre os momentos que passei contigo e tua mulher em Paris. Falamos muito de ti com Octavio [Paz, escritor mexicano] quando ele esteve aqui de passagem para a Índia.
Para ti e tua mulher, um forte abraço de Carlos Fuentes.”

De Julio Cortázar para Carlos Fuentes

Saignon, 30 de julho de 1966

“(…) Outra vez, Carlos, fico deslumbrado com a tua escrita, o teu maravilhoso dom de associar os infinitos elementos de uma vida bem vivida e colocar em cada página uma atmosfera que a resume. Creio que te divertiste até em forçar esse dom: a descrição do apartamento do rapaz, por exemplo. Vão te censurar por isso, sem dúvida; eu não, na medida em que cada alusão, cada framento de torch song e cada alusão literária coagulam, por sua vez, em minha memória, vastas experiências de vida, e no fundo isso que é a literatura, pelo menos a que nós fazemos; um grande romance deve nos psicanalisar, devolver todos os peixes cegos à superfície. Zona sagrada é para mim uma exasperante e maravilhosa cerimônia, em que apenas os críticos dissecados serão espectadores; eu dancei com as tuas erínias [divindidades da mitologia romana] e assisti a todos os filmes de Claudia naquele admirável capítulo em que seu fiho os projeta em seu apartamento.
(…) Se o general Ongania [general Juan Carlos Ongania, que dera um golpe de Estado na Argentina um mês antes] soubesse ler, tomaria como ofensa moral. E o que me dizer de minha terra, a censura, a polícia? Logo falaremos também sobre isso, agora obrigado mais uma vez, com um abraço muito forte.
Julio”

“As armas secretas”

Livro com cinco contos essenciais escrito em 1959, “As armas secretas” é exemplo do realismo mágico. Destaque para “As babas do diabo”, que inspirou levemente o ousado filme “Blow-Up – Depois daquele beijo”, de Michelangelo Antonioni (1966). É a história de um fotógrafo que, num dia sem grandes pretensões, flagra uma cena suspeita entre uma mulher e um adolescente. Destaque também para o conto “O perseguidor”, inspirado no jazzista norte-americano Charlie Parker. E ainda “Os bons serviços”, sobre a sina de uma empregada doméstica, “Cartas de mamãe”, sobre um casal assombrado pelo passado, e o que dá título ao livro, ambientado em Paris, com foco num amor misterioso no pós-guerra.

“A cadeira da águia”

Romance político e irônico que narrado num México futurista, de 2003, que sofre privação de comunicações. É entremeado por fitas e cartas e reflete os problemas da América Latina, com intrincada rede de poder, corrupção, sedução entre políticos que almejam o cargo presidencial, conhecido como “a cadeira da águia”. A exemplo dos outros quatro escritores do “Boom latino-americano” (García Márquez, Julio Cortázar e Mario Vargas Llosa), Carlos Fuentes é mestre em levar a dura realidade para a ficção e daí para o universo fantástico.

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