4 MESTRES E 200 CARTAS

'As cartas do Boom': correspondência de quarteto fantástico da literatura

Cartas entre argentino Julio Cortázar, mexicano Carlos Fuentes, colombiano Gabriel García Márquez e peruano Mario Vargas Llosa são deleite literário

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Mais do que um deguste, é um deleite literário e histórico o livro “As cartas do Boom” (“Las cartas del Boom”), que chegou aos leitores pela editora Record com correspondências entre quatro gigantes: o argentino Julio Cortázar (1914-1984), o mexicano Carlos Fuentes (1928-2012), o colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014) e o peruano Mario Vargas Llosa (1936-2025). As cartas tratam do processo criativo de obras diversas que seriam consagradas de imediato ou nas décadas seguintes (“O jogo da amarelinha”, “A morte de Artemio Cruz”, “Cem anos de solidão”, “A cidade e os cachorros”....), da troca de críticas e elogios entre o quarteto de escritores sobre os seus romances e da preocupação constante com o avanço de regimes autoritários no continente. E também de viagens, rotina sobre a escrita e novidades pessoais e cotidianas compõem a rede de correspondências organizadas por Carlos Aguirre, Gerald Martin (biógrafo de García Márquez), Javier Munguía e Augusto Wong Campos, com tradução de Mariana Carpinejar.

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São datadas numa época em que o uso do telefone para longas conversas intercontinentais era raridade, o que expõe a relevância dessa forma então tradicional de comunicação que jamais será retomada.

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Diferentemente das mensagens deletáveis – deletérias – e “líquidas” do mundo atual, como poderia dizer o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), as cartas daquela época – as que não se perderam, obviamente – são documentos permanentes e, nesse caso, dão o tom do livro sobre o chamado “Boom latino-americano.”
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Foi um movimento de breve duração, apenas duas décadas, que deu uma identidade à America Latina e revelou a força da literatura do continente para o mundo, seja pelo caráter fantástico, o realismo mágico, seja pela densidade estética e histórica da realidade nua e crua das terríveis mazelas da América Latina. Muitos foram os escritores talentosos anteriores e contemporâneos do “Boom” (Jorge Luis Borges, Bioy Casares, Octavio Paz...), mas Cortázar, Fuentes, García Marquez e Llosa formaram uma “unidade”. As cartas e as obras revelam essa relevância.

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“O Boom, um fenômeno cultural de repercussão mundial, foi simultaneamente uma conjuntura e uma cristalização, a culminação de meio século de evolução literária neste continente periférico e desconhecido, a América Latina, e, ao mesmo tempo, na relação entre esses quatro escritores, uma situação única e fascinante”, descrevem os editores no prefácio do livro.
“Um movimento e um momento na história do romance latino-americano durante os anos 60 do século passado, um fenômeno tão espetacular e tão poderoso, que, à luz de sua irradiação, a literatura latino-americana, em sua totalidade se mostrou nova e interessante, não só aos olhos dos latino-americanos, como também aos dos leitores de todo o planeta”, avaliam também.
 

“NUNCA PARARMOS”

“A realidade latino-americana está se encarregando de nunca pararmos de escrever romances fantásticos inspirados na vida cotidiana”, escreveu García Márquez a Carlos Fuentes, em 15 de julho de 1969, em uma das 207 correspondências entre os quatro romancistas, que abrangem com frequência o período 1955-1976 – ápice em 1967 com o lançamento de “Cem anos de solidão” –, enquanto durou o “Boom”, e se expandem esporadicamente até 2012.
O auge e o deslumbramento entre eles foram curtos, ruíram de forma definitiva na metade da década de 1970 por causas variadas, desde as pessoais, que culminaram, por exemplo – com o soco de Vargas Llosa em um olho de García Márquez há 50 anos (leia na página 7), em 12 de fevereiro de 1976, cuja razão exata nunca foi revelada por eles – até as políticas, como o desvirtuamento da Revolução Cubana, a perseguição do regime de Fidel Castro aos adversários e o desencantamento com os rumos da esquerda no continente. García Márquez permaneceu simpático ao regime castrista até o fim de sua vida, enquanto os outros três criticaram, cada um à sua maneira, a mudança de rumo.
Mas essas rupturas se diluíram diante da atemporalidade do talento desse quarteto fantástico, como mostram as suas conversações sobre projetos literários, rumos da política do continente e, principalmente, o compartilhamento de dúvidas, entusiasmos e divergências, documentos de época e confissões intelectuais. “Em um sentido estrito, o ‘Boom’ não durou mais de dez ou doze anos, embora a sua esteira tenha se prolongado até os dias de hoje”, declarou Vargas Llosa em 2012, ao receber o Prêmo Carlos Fuentes.
Por falar em prêmio, dentro do quarteto, Vargas Llosa e García Márquez receberam o Nobel de Literatura, em 1982 e 2010, respeticvamente. Outros quatro autores do continente também receberam o Nobel: a chilena Gabriela Mistral (1945), o guatemalteco Miguel Ángel Asturias (1967), o chileno Pablo Neruda (1971) e o mexicano Octavio Paz (1990).
Os organizadores e editores de “As cartas do Boom” lamentam no prefácio, entretanto, as lacunas causadas pelas correspondências não localizadas. “Não foram encontradas cartas de Vargas Llosa para García Márquez nem de García Márquez para Cortázar. E apenas uma de Llosa para Cortázar que sobreviveu no arquivo do primeiro. “Nutrimos a esperança de que alguns desses vazios possam ser preenchidos no futuro, assim tornando realidade o prognóstico que García Márquez fez para Fuentes sobre outra carta extraviada: 'Logo será encontrada pelos arqueólogos, quando estiverem organizando as nossas obras completas (7 de dezembro de 1966).'”
Além da troca de correspondências, “As cartas do Boom” traz 11 ensaios e entrevistas com os quatro escritores e sete documentos que acusam a ruptura e o fim do “Boom”, como duas cartas de intelectuais latino-americanos e europeus enviadas a Fidel Castro para protestar contra os rumos do regime cubano e se solidarizar com adversários perseguidos e presos.

“AS CARTAS DO BOOM JULIO CORTÁZAR CARLOS FUENTES GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ MARIO VARGAS LLOSA”

Organizadores: Carlos Aguirre, Gerald Martin, Javier Munguia e Augusto Wong Campos
Tradução: Mariana Carpinejar
Record
585 páginas
R$ 139

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