“É um homem de dois metros de altura, com cara de bebê, muito gentil, um pouco ingênuo. Sua mulher é um bichinho inteligente e simpático: traduziu todas as obras de Sartre [Jean-Paul Sartre, escritor e filósofo francês] foram publicadas pelas Losada”. Dessa forma, o escritor peruano Mario Vargas Llosa retratou o argentino Julio Cortázar e sua mulher, Aurora Bernárdez, a quem conhecera meses antes em Paris, em carta ao editor e crítico literário Abelardo Oquendo em 17 de janeiro de 1959. Quando Llosa se mudou para a capital francesa no mesmo ano, eles se tornaram amigos próximos.
Apenas uma carta de Llosa para Cortázar foi encontrada, na qual diz que o “entristece” a decisão do autor de “O jogo da amarelinha” de deixar de escrever para a revista Libre por questões políticas por temer que seja obstáculo a sua reconciliação com Cuba. Era maio de maio de 1972, quando o “Boom latino americano”” já caminhava para o fim tendo como um dos motivos divergências sobre os rumos da Revolução Cubana e a perseguição aos adversários, do qual Llosa era crítico severo. “Pobre Julio, acabará fazendo coisas infelizes, ladeira abaixo”, escreveu Llosa.
A película ítalo-britânica, de 1966, estrela por David Hemmings, Vanessa Redgrave e Jane Birkin [em nu frontal então inédito no cinema britânico}, venceu o Grand Prix do Festival de Cannes, se tornou cult e um clássico do cinema. Blow-Up é um thriller psicólogico sobre um fotógrafo de moda londrino que descobre, por acaso, um assassinato num parque.
“As cartas do Boom” inclui também um texto de Vargas Llosa comentando a adaptação feita por Antonioni. Foi a primeira vez que um escritor do “Boom” usou o termo realismo mágico. Em artigo assinado em maio de 1967 na revista Caretas, de Lima, Llosa escreveu: “Blow-Up é ao mesmo tempo, um filme profundamente ‘cortazariano’ pela sua atmosfera, pelo realismo mágico que permeia as cenas, ambientadas em um mundo, à primeira vista, transparente, conhecido, que de repente, sem aviso, transforma-se em inferno, delírio, pesado, realidade misteriosa, inquietante e absurda.”
De Julio Cortázar para Mario Vargas Llosa
Saignon, 3 de julho de 1967
“(...) Embora eu não concorde muito com a tua teoria sobre a minha influência sobre Antonioni, gostei muito da tua crítica de Blow-Up pela abundância de linhas de fuga e aberturas apontando para todas as direções. Vi o filme em Amsterdã, tornei a vê-lo em Paris, e me deixou bem frio nas duas vezes. Objetivamente, te digo que o vi como se fosse qualquer outro filme, sem que a menção a meu nome nos créditos me colocasse em uma diferente perspectiva.(…) Apreciei o talento cinematográfico de A. [Antonioni], o seu admirável manuseio da câmera, e a sequência de ampliações da fotografia me pareceu o melhor filme. Vou te dizer que só me reconheci por um brevíssimo instante, que me comoveu muito: quando o fotógrafo retorna ao parque e descobre que o cadáver desapareceu, a câmera foca no céu e nos galhos de uma árvore sacudidos pelo vento. Aí, nessa tomada que dura apenas dois segundos, senti que havia alguma coisa minha. O resto, talvez por sorte, é integralmente Antonioni.”
De Mario Vargas Llosa para Julio Cortázar
Barcelona, 5 de maio de 1972
“Meu querido JulioAgradeço que tenha tido a delicadeza de me comunicar pessoamente os motivos pelos quais te retiraste da Libre, e principalmente que o tenhas feito em uma carta tão franca e afetuosa. Com a mesma sinceridade e idêntico carinho, permita-me dizer que a tua decisão me entristece, porque os leitores da revista estão perdendo um colaborador da mais alta categoria, e também porque receio que a tua saída não contribua para combater esse maniqueísmo e esses mal-entendidos que, como disseste de forma tão precisa na tua carta, caracterizam o nosso subdesenvolvimento, mas para fomentá-los ainda mais. Acredito que a equivocação dos cubanos à Libre, que tu e eu tentamos resolver em Havana em janeiro do ano passado e para a qual a revista, pelo seu tempo de vida, nunca deu motivo para existir, terá com a sua saída um respaldo tão importante quanto, perdoa-me, injusto. Mas, enfim, acredito que tenhas tomado essa decisão pensando com toda a calma sobre o que deverias fazer e, como tudo o que vem de ti, ainda que me deixe abalado, eu a respeito. Claro que quero conversar a fundo contigo sobre isso e outras coisas, como clareza e amizade, quando vieres a Barcelona. Um abraço de Mario”
“A cidade e os cachorros”
Em seu primeiro romance, lançado em 1963, Mario Vargas Llosa, prêmio Nobel de Literatura de 2010, leva para dentro de um escola militar a realidade de um continente dominado por ditaduras que afloravam na segunda metade do século 20. Os jovens cadetes (“cachorros”) são submetidos a abusos diversos, como violência, corrupção e assassinato, num foco de resistência. É uma obra, marco do “Boom latino-americano”, com tema contundente, que Vargas Llosa, grande crítico dos regimes autoritários de direita e de esquerda, só voltaria a retomar com força em “A festa do Bode” (2000), sobre a ditadura do general Rafael Trujillo na República Dominicana.
“O jogo da amarelinha”
Uma das obras-primas da literatura latino-americana e pioneira do “Boom latino-americano”, “O jogo da amarelinha”, de 1963, não é um livro de leitura fácil, porque tem caráter experimental, pode ser lido de formas diferentes, saltando e voltando páginas, repleto de discussões intelectuais. Tem leitura linear até a página 56 e não linear entre os 155 capítulos. O fim da meada é o boêmio Horário Oliveira, intelectual em busca de um sentido para a vida e seu retorno a Buenos Aires.