O grito de Egana Djabbárova contra o patriarcado e a xenofobia
Escritora russa estará em BH para lançar o livro 'As mãos das mulheres da minha família não eram destinadas à escrita'
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“A parte mais importante do corpo feminino eram, obviamente, as mãos: preparavam a comida, embalavam as crianças, lavavam e passavam as camisas dos homens, costuravam roupas, varriam, lavavam o chão, tiravam o pó — as mãos das mulheres tinham de estar sempre ocupadas, só às mãos dos homens era permitido o desprezo pelas tarefas. Enquanto as mãos dos homens repousavam preguiçosamente sobre a mesa posta, as das mulheres serviam os pratos, arrumavam a mesa, abriam a massa (...), faziam as bainhas dos vestidos de noiva. Cada mulher da nossa família sabia que suas mãos não eram destinadas à escrita.”
Entrevista: Egana Djabbárova: 'Ser mulher significa enfrentar o assalto do corpo'
Esse é um trecho de “As mãos das mulheres da minha família não eram destinadas à escrita”, obra vencedora em 2025, como “Livro do Ano”, do Hamburger Literaturpreis – tradicional premiação literária do Ministério da Cultura e Mídia de Hamburgo, na Alemanha. É um impressionante libelo, um grito ou muitos gritos, sobre resistência à opressão feminina, ao patriarcado e à xenofobia.
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A autora é Egana Djabbárova, nascida em 1992, em Ecaterimburgo, na Rússia, em família de origem azerbaijana. Poeta, ensaísta, romancista e pesquisadora em literatura, doutora em ciências filológicas, ela está no Brasil para uma série de eventos envolvendo a divulgação do livro pela editora Ars et Vita, com tradução de Maria Vragova para a primeira edição em português.
“Quero que meus livros sejam lugares de refúgio para as mulheres, lugares onde elas possam se sentir seguras. Nesse sentido, torna-se muito importante representar a experiência das mulheres, inclusive a constante pressão e as dificuldades com que elas se relacionam”, disse Egana em entrevista ao Pensar.
Em Belo Horizonte, o lançamento será na Quixote Livraria, em parceria com a Livraria Jenipapo, na próxima segunda-feira (27). Haverá ainda mesa-redonda, também com a participação de Egana, na Academia Mineira de Letras, na quarta-feira (25). O romance é desde já um forte candidato a melhor livro de autora estrangeira lançado no Brasil em 2026.
Na obra, Egana constrói uma contundente analogia com o corpo feminino como elemento de libertação. Cada um dos 11 capítulos tem o nome de uma parte do corpo (sobrancelhas, olhos, cabelos, boca, ombros, mãos, língua, costas, pernas, garganta e barriga). É uma narrativa em texto fluido, não linear, mas sem rodeios, que conta a sua história e a das mulheres de sua família entre a Rússia, o seu país natal, e o Azerbaijão, da sua família.
A Egana escritora e a Egana protagonista da obra são desterradas de ambas, porque os russos não aceitam a sua origem azerbaijana e estes não aceitam seus vínculos ao país de Vladimir Putin, que ela teve de abandonar por ser opor à guerra da Ucrânia e por causa da opressão à população LGBTQIAPN+. Vive em Hamburgo, na Alemanha, mas ali também é uma exilada. Mora num campo de refugiados e sofre as consequências disso.
DUPLA VIOLÊNCIA
“As mãos das mulheres da minha família não eram destinadas à escrita”é uma obra com título longo que coaduna com a extensão da opressão às mulheres ao longo dos milênios. Egana expõe esse drama histórico, social e familiar de forma explícita e ao mesmo tempo poética para falar de diásporas da terra e do corpo, deslocamento, pertencimento e violência – inclusive doméstica – da servidão das mulheres ao patriarcado. Mas sem cair no apelo fácil do ativismo feminista ou do preconceito religioso ao confrontar culturas próximas e divergentes.
A protagonista da obra sofre dupla violência, um corpo feminino, de todas as mulheres oprimidas, e um corpo doente, uma distonia muscular generalizada e progressiva que a impede de levar uma vida normal. Egana, então, vai fazendo um paralelo sobre essa tragédia com partes do corpo. A escrita é uma forma libertária de expressão, mas é proibida nesse mundo conturbado narrado por Egana. O exemplo desse drama está no trecho de abertura desta resenha sobre a relevância das mãos.
E ainda na fala da protagonista. “Minhas mãos sabiam lavar e cozinhar, mas o que mais gostavam era de escrever; sempre gostaram disso, e por isso, ainda na infância, eu tinha cadernos onde escrevia contos, inventava personagens e até tentava desenhá-los. A escrita me dava interlocutores: aqueles com quem eu podia conversar a qualquer momento; ela não dependia de ninguém além de mim, estava sempre comigo, como um amuleto invisível. Se alguém me magoava ou me entristecia, eu esperava a noite para abrir o caderno e escrever uma história em que, inevitavelmente, algo de ruim acontecia ao personagem mau, e algo de bom — ao bom. Só mais tarde compreendi que nem sempre é assim: coisas ruins acontecem também aos bons, a vida joga pessoas diferentes em sua sopa e lança ali temperos, sem perguntar quem gosta de quê”.
O silêncio é outra imposição. “A boca não era destinada à fala: todas as mulheres que eu via ao meu redor jamais diziam o que realmente queriam dizer; ninguém se metia nas conversas dos homens, porque isso não era permitido às mulheres. A boca servia para provar e engolir a comida preparada, para embalar as crianças e para enunciar regras. A comida era o principal acontecimento no mundo das mulheres que eu conhecia (…) As bocas deviam permanecer fechadas, embora todas as mulheres da minha família tivessem bocas capazes de falar.”
“DOCES ENVENENADOS”
Dentro de casa, a vida é difícil para as mulheres com um pai de dupla personalidade, ora afetivo quando sóbrio, ora muito agressivo quando embriagado. É outra passagem tocante do livro. “Na manhã seguinte a uma briga, a um acesso de ciúme e fúria, quando meu pai espancava minha mãe, ele sempre aparecia com uma sacola cheia de compras e a entregava para nós. Meu pai comprava aquilo de que minha irmã e eu mais gostávamos: chocolates, abacaxis, doces e chicletes. Era como se tentasse comprar o nosso silêncio, trocar os hematomas da minha mãe por bombons. O mais terrível era que não podíamos recusar: ele sabia do que gostávamos, sabia que o chocolate podia comprar o coração de duas meninas pequenas. Eram doces envenenados, impregnados de uma lei familiar simples e evidente — às mãos masculinas era permitido bater, as mãos masculinas controlavam toda a casa, mantinham-na sob domínio. Ele trocava cada milímetro e centímetro do corpo materno espancado por doces: quanto mais forte a espancava na véspera, mais doces havia, e mais insuportável era a tentação para mim e para a minha irmã. Educava-nos para o silêncio, para a obediência; ninguém ousava deter suas mãos quando ele abria mais uma garrafa de vodca para se servir um copo.”
Não há como terminar a leitura do livro de Egana sem profunda reflexão sobre como tipos diversos de opressão tão explícitos ganham invisibilidade e silêncio no dia a dia, seja em culturas mais rígidas como a do mundo de Egana, seja nas ditas liberais, onde as aparências são enganosas.
“AS MÃOS DAS MULHERES DA MINHA FAMÍLIA NÃO ERAM DESTINADAS À ESCRITA”
De Egana Djabbárova
Tradução: Maria Vragova
Editora Ars et Vita
87 páginas
R$ 69,90
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Lançamento em BH: Dia 27/5, às 18h30, na Quixote Livraria (Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi, em BH), com a presença de Egana Djabbárova e de Maria Vragova