Ludimila Moreira - especial para o Estado de Minas

A chegada ao Brasil de “A mulher nua” (1950), de Armonía Somers, pseudônimo de Armonía Liropeya Etchepare Locino (1914-1994), em tradução primorosa de Mariana Sanchez lançada pela Relicário Edições, integra um movimento recente do mercado editorial que vem resgatando a vanguarda experimental de autoria feminina, a exemplo de Marosa di Giorgio e Aurora Venturini. A estreia da pedagoga uruguaia causou enorme rebuliço nos círculos intelectuais de Montevidéu ao fundir erotismo, violência e filosofia e constitui-se como um dos capítulos mais originais da literatura latino-americana do século 20. 

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O impacto foi tamanho que a recepção misógina do campo cultural uruguaio cogitou que a obra ocultasse um autor homem ou um coletivo anônimo. Somers, contudo, consolidou sua ficção experimental em títulos como “De miedo en miedo” (1965), “Un retrato para Dickens” (1969) e “Sólo los elefantes encuentran mandrágora” (1986), além de várias coletâneas de contos, o que levou o crítico Ángel Rama a incluí-la na antologia “Cien años de raros”, ao lado de nomes como Lautréamont, Quiroga, di Giorgio e Felisberto Hernández.

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Em “A mulher nua”, a jornada transgressora de Rebeca Linke subverte as narrativas sobre o envelhecimento feminino. Seus trinta anos não evocam a inexorabilidade do casamento ou a decadência burguesa, mas presentifica a compra de uma fazenda sem nome e endereço postal, motivada por um “amor insano por trens”. Nesse mundo arcaico, o perscrutar do inconsciente evoca o cinema de Maya Deren ou Narcisa Hirsch e assistimos, em transe hipnótico, as listras paralelas de luz filtradas pelas persianas da fazenda. A imagem projeta no corpo da protagonista, as marcas, em metáfora, da opressão cotidiana, listras pretas e brancas da linearidade e vigilância que a enclausuraram outrora. A adaga oculta no livro de cabeceira emerge como instrumento mitológico, rasgando tecidos e cartilagens sem dor em uma separação mística entre carne viva e o controle cerebral. 

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Ao penetrar nua na floresta primordial, despida de vestes e de passado, Rebeca encarna uma dramática rejeição ao império da razão e da docilidade. Sua cabeça rebrota “como uma papoula em estado de semente”, inaugurando uma nova era de consciência amoral e ecológica. Essa presença mítica da mulher nua provoca um expurgo metafísico no vilarejo, desarmados de sua culpa católica e pudor de fachada, os homens perdem a razão diante dos acontecimentos absurdos. Incapazes de sustentar uma liberdade sem amarras, os moradores, convertem o transe em violência reativa. O estupro marital e a brutalidade rústica surgem, assim, como tentativas covardes de conter o caos e reestabelecer o domínio tirânico da cabeça sobre o corpo rebelado. 

O erotismo em Somers, para pensar com Bataille, aglutina desejo e repulsa na transgressão. No plano-sequência em que a protagonista beija a chaga purulenta de um cavalo e disputa o sangue com uma mosca, se manifesta uma abjeção sagrada, onde o nojo não impede o olhar, selando um conúbio agônico entre vida e morte. Esse enlace erótico estende-se ao camponês Juan, deflagrando o estado perpétuo da vida na morte diante do desejo pela continuidade e simbiose do ser amante. 

A narrativa culmina na queda do Deus repressor pela ruína do sagrado. A igreja vira escombros em chamas, o clérigo despido em público testemunha um parto bestial no altar. Esse desfecho não cede ao ateísmo racionalista, servindo antes para a libertação de forças da natureza em um arranjo filosófico de feição esotérica. Ao flutuar no rio como uma Ofélia pagã, sem respostas ao mundo da moral, o corpo de Rebeca Linke sela o triunfo da carne sobre a cabeça, consagrando a escrita de Somers como uma linguagem do pensamento e do desejo feminino.

Em uma estilística vertiginosa, Somers afasta a comunhão entre humano e natureza do idílio romântico e da exegese religiosa institucional. A protagonista, ao transgredir as leis pela introjeção de si, da floresta e do inconsciente, estabelece vínculos formais com a estatuária de Maria Martins. A correspondência da matéria erótica e do pensamento entre as artistas dá-se sobretudo em obras como “O oitavo véu” e “O impossível”. Somers e Martins invocam a incisão à anatomia como gesto de rebelião e libertação da pulsão selvagem do feminino, convertendo o corpo em paradigma de ascese e, rostos em cavidades buco-genitais, membros em tentáculos vegetais que transfiguram o organismo cindido em pura matéria libidinal e telúrica. Cera de abelha, gordura, argila e bronze líquido, em Martins, e signo linguístico, em Somers repovoam o mundo das artes com uma epifania concreta de corpos e libidos femininos.

Entrevista

Mariana Sanchez (tradutora)

“A linguagem aqui é tensionada ao limite”

O que foi mais desafiador na tradução de “A mulher nua”?

O mais difícil foi dar conta, em português, da atmosfera onírica e hipnótica do texto, mas sobretudo das imagens fantásticas propostas pela autora. Em certa passagem, ao mencionar as listras pretas e brancas da luz do luar filtrada pela persiana sobre o corpo da mulher nua, Armonía recorre ao termo “rayado”, que em espanhol rioplatense também tem uma conotação de desvario, de loucura, como que sugerindo o estado mental da protagonista antes da sua autodecapitação. A saída foi compensar essa insinuação no texto com “luz lunática” em vez de “luz do luar”, trazendo a ideia do desatino tão importante neste romance. Também há muitas analogias estranhíssimas que não era possível domesticar para o leitor, como quando ela compara o desejo dos homens a “um rosário de rãs espetadas por um arame”. 

Por que o livro foi considerado um escândalo à época da publicação?

Pela linguagem desconcertante, a exaltação ao Eros e a excentricidade daquele texto assinado com o nome de uma mulher desconhecida do círculo literário uruguaio à época. Quando foi publicado na revista Clima, em 1950, especulou-se inclusive que poderia se tratar de um autor (homem) sob pseudônimo, como se a prosa “feminina”, equivocadamente ainda associada ao realismo e a um certo lirismo confessional, não estivesse autorizada a voos tão delirantes.

Por que considera “A mulher nua” uma jornada de descoberta? O que mais a impressiona no livro?

A narrativa está construída como uma espécie de jornada de uma mulher que, no dia em que faz 30 anos, resolve cortar a própria cabeça e partir para uma aventura de autodescoberta da sua liberdade sexual. Ao recolocar a cabeça no lugar, e agora também nua, ela parece literalmente se despir da razão e de certas convenções sociais, e é essa a jornada que vamos acompanhar ao longo do romance. O que mais impressiona, para mim, é a maneira como a autora arquiteta e entrelaça cenas surrealistas com reflexões filosóficas e existenciais sobre o desejo, a violência e a moralidade, sem abrir mão do sarcasmo e da crítica afiada a instituições como a igreja e o casamento burguês.

Como Armonía utilizou a linguagem de forma inovadora? Poderia dar exemplos?

A linguagem aqui é tensionada ao limite, gerando tanto o efeito de estranheza como de humor insólito. Há uma passagem especialmente saborosa que narra a aparição noturna da mulher nua ao pároco do vilarejo, com seu corpo brilhante que “se iluminava sozinho como uma madrepérola na escuridão submarina”. Armonía descreve o desconcerto do pobre religioso com imagens muito concretas e grotescas: a cabeça do homem que sai flutuando pelo quarto, se multiplica “como círculos na água” e ele precisa capturar aquelas “cabecinhas infernais” com uma rede de caçar borboletas. Uma doideira, realmente.

Como a literatura de Armonía ressoa em escritoras latinas contemporâneas, como Samanta Schweblin e Monica Ojeda?

Acho que Armonía Somers – assim como Silvina Ocampo, para citar outra rioplatense contemporânea a ela – abriu caminhos fundamentais para que o insólito e o fantástico pudessem irromper na literatura dessa nova geração de mulheres que lemos hoje, como que as encorajando a escrever suas histórias brutais e autênticas sem concessões.  

“A mulher nua” 

• De Armonía Somers

• Tradução de Mariana Sanchez

• Relicário Edições

• 128 páginas

• R$ 69,90

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