Marcela Dantés: Fernanda Trías une corpo e terra em matéria narrativa única
Autora de "Vento vazio" destaca a coragem da autora uruguaia ao recusar consolação fácil em romance sobre solidão, violência e maternidade
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Marcela Dantés - especial para o Estado de Minas
Penso que os livros podem ser divididos em duas categorias: os que passam como vento e os que criam raízes. "A montanha das fúrias" (Editora Instante), da uruguaia Fernanda Trías, pertence, definitivamente, à segunda espécie: entrar ali é subir uma encosta íngreme, sem saber ao certo se o que nos falta é o ar ou a lucidez. Talvez sejam as duas coisas.
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Uma mulher que nunca é nomeada vive isolada numa casa a meio caminho entre um povoado desgastado e o topo intransponível da montanha. Sua função nesse lugar inóspito é cuidar do alambrado que separa a cidadela da mata fechada e reportar qualquer anomalia ao Zelador — o homem com quem troca umas poucas palavras e muitas obsessões. A paisagem é hostil, assim como foi, desde sempre, a sua experiência no mundo. A dor, a escassez, a violência. E a solidão, sempre ela. Uma solidão sem drama, sem grito. Uma solidão de rotina, de jardim capinado, de dias contados em distâncias. Em cadernos que ela registra, como pode, esse cotidiano. E é justamente nessa escrita, mais do que em qualquer evento, que a narrativa encontra sua tensão, porque uma mulher que escreve sozinha no mundo, está sempre a um passo de contar coisas demais.
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Trías não faz concessões, e não poupa o leitor daquilo que é estranho, desconfortável, indigesto. Do que não parece verdade, mas que, sendo essencialmente latino-americano, o é. Aqui tudo pode, sabemos, e a doçura dança com a aspereza no ritmo do baque das pás que enterram os mortos. Sim, são muitos mortos e não nos é permitido saber quem são. A nossa mulher solitária os enterra, um a um, com cuidado e devoção. A mesma devoção que ela enxerga nas duas senhoras Testemunhas de Jeová que sobem, de tempos em tempos, na tentativa de salvá-la. Mas ela não quer ser salva. Ela quer a montanha, e é recíproco.
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Não é uma narrativa em que há espaço para sentir pena, ainda que a vida ali seja árida e sem sutilezas. A narradora foi criada por uma mãe que amava o plástico, o sofá revestido de náilon, os guardanapos de papel, os muitos homens que visitavam o seu corpo, mais do que amava a filha. E por uma avó que cultivava plantas e segredos dentro de casa. Entre as duas, a menina aprendeu cedo que o amor podia ser substituído por qualquer coisa, e que ela própria era um desses objetos manuseados sem cuidado. “Ao nascer estrangulada pelo cordão que me ligava à minha mãe, meu sangue foi envenenado e perdi a chance de amar o mundo”: é aqui que o vínculo mais primário se torna a primeira violência.
Trías intercala essa voz, que carrega a dor com a cabeça erguida, e que enche os cadernos com coragem (e com o mapa dos mortos enterrados), com uma segunda narração, que nos aproxima ainda mais da montanha. Essa montanha que sabe que tudo o que respira é passageiro. Veja: a montanha não é metáfora, é personagem e testemunha.
Confesso que me detive neste ponto mais do que talvez devesse um leitor neutro. Como autora que também investiga a loucura como disparador e o espaço como agente, fiquei presa exatamente onde Trías mais arrisca: no momento em que a paisagem deixa de emoldurar a história. Aqui é a montanha que enlouquece, com sua névoa que embaça a visão e obriga uma mulher a confiar no tato, no cheiro, no instinto. É isso: li esse “A montanha das fúrias” com uma intimidade que não é distância crítica, mas também não é ingenuidade, e sim o reconhecimento de uma tormenta compartilhada.
E há, ainda e, sobretudo, o corpo. Nenhum corpo segue intocado pela montanha: eles racham, ressecam, aprendem a andar com o frio, com a dor, com o líquido amarelo que escorre de uma ferida inevitável. “A montanha das fúrias” incomoda porque recusa toda consolação fácil: não é romance sobre superação, é romance sobre o que resta quando não há mãe, não há lugar, não há ninguém — só a terra, que aceita tudo, e a escrita, que tenta, sem conseguir, preencher esse vazio.
MARCELA DANTÉS é escritora, autora do romance “Vento vazio” (Companhia das Letras)
“A montanha das fúrias”
• De Fernanda Trías
• Tradução de Marina Waquil
• Instante
• 208 páginas
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