AMÉRICA LATINA ONTEM E HOJE

Igor Miranda: 'O ser latino-americano atravessa a nossa marca'

Diretor da Pinard, que reeditou Carlos Fuentes e Miguel Ángel Asturias, diz: "Ninguém se coloca como ‘uma editora latino-americana’ como nós"

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“Entre a plenitude da comédia e a iminência da tragédia, Sergio Ramírez escreveu o grande romance da América Central, o romance que faltava para alcançar a intimidade de suas gentes, para viajar até a própria fronteira entre suas tradições persistentes e suas possibilidades de renovação.” Assim o mexicano Carlos Fuentes (1928-2012) apresenta “Castigo divino”, romance do escritor nicaraguense, “uma grande comédia romanesca acerca das maneiras como os latino-americanos nos disfarçamos, nos enganamos e, às vezes, até nos divertimos, lançando véus sobre o ‘coração das trevas’ conradiano”. O texto “O direito à ficção” está no posfácio de mais uma edição deslumbrante da Pinard, especializada na literatura do nosso continente. “O ser latino-americano atravessa a nossa marca, a nossa razão de existência”, afirma o diretor executivo da editora, Igor Miranda, ao Estado de Minas.

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Após anos no mercado de tecnologia, Miranda, 36 anos, decidiu se dedicar integralmente à atividade literária. A mudança de trajetória começou em 2019, quando ele e o sócio, Paulo Lannes, identificaram uma lacuna no mercado editorial brasileiro: diversos clássicos latino-americanos estavam esgotados no país. Sem experiência prévia no setor, a dupla apostou no financiamento coletivo para viabilizar o primeiro lançamento da editora, “Dona Bárbara”, do venezuelano Rómulo Gallegos. Desde então, foram mais de 15 campanhas, responsáveis por resgatar autores considerados fundamentais, entre eles a chilena Gabriela Mistral e o guatemalteco Miguel Ángel Asturias, ambos vencedores do Nobel. Em 2025, com os dois sócios totalmente dedicados ao negócio, a Pinard deu um novo salto e chegará a 50 títulos em catálogo até o fim do ano. Abriu coleções como a Contemporânea, que publicou um romance que vem ganhando leitores no país: “O ano em que falamos com o mar”, do chileno Andrés Montero.

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Nascido em Santiago em 1990, Montero esteve em junho no Brasil para lançar o seu romance. “Foi uma alegria muito grande. A editora Pinard trabalha muito bem e estou feliz por ter publicado aí. Tive a oportunidade de apresentar o livro no Rio de Janeiro e em São Paulo, e a resposta das pessoas foi muito gratificante, com belas resenhas, clubes de leitura que leem a obra, e assim por diante”, afirma o chileno em entrevista a Igor Silveira, para o Pensar. “Para o próximo ano, está previsto o lançamento de duas novas traduções dos meus livros pela Pinard: ‘La muerte viene estilando’ e ‘Taguada’. Espero poder ir apresentá-los novamente”, conta.

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“O que Andrés nos mostra em seu livro é algo que os atentos à vida já perceberam: somos uma colcha de retalhos de experiências humanas”, escreve Miranda, no prefácio do livro por ele escolhido para apresentar a editora aos que não têm familiaridade com a produção latino-americana. 

Leia, a seguir, a entrevista de Igor Miranda ao Pensar.

Qual o diferencial da Pinard para outras editoras que publicam a literatura latino-americana?

Apesar de existirem editoras excelentes que publicam literatura latino-americana, nenhuma se define como tal, colocando-se como “uma editora latino-americana” de forma tão contundente como nós. O ser latino-americano atravessa a nossa marca, a nossa razão de existência.

Dos livros que buscaram para a editora entre os inéditos ou que estavam fora de catálogo, quais os mais desafiadores de editar?

No começo da editora, tivemos “Homens de milho”, de Miguel Ángel Asturias, uma obra de uma beleza assustadora, mas que se provou um baita desafio de edição/tradução, seja pela estrutura não linear, pela linguagem fragmentada e pelo aprofundamento necessário na cosmovisão maia. Dos mais recentes, “Paradiso”, de José Lezama Lima, por toda a sua inovação estética, suas longas digressões e seu eruditismo, tido, com todo o mérito, como um dos livros mais complexos da nossa literatura. Das obras futuras, “Três tristes tigres”, de Guillermo Cabrera Infante, e “Changó el gran putas”, de Manuel Zapata Olivella. Neste último, tivemos que formar um time de profissionais com conhecimentos não apenas na obra do autor, mas também em religiões afro-colombianas.

Um dos lançamentos mais impressionantes, entre os recentes, é “Castigo divino”, do nicaraguense Sergio Ramírez. Como chegaram a esse livro e o que considera mais marcante? 

Uma das partes mais incríveis de se ter uma editora é a busca por novos títulos. É um trabalho infindável. Eu e o Paulo estamos sempre pesquisando. Sergio Ramírez é um nome muito importante das letras hispânicas, vencedor do Cervantes, mas pouco havia sido publicado no Brasil. É um autor da Nicarágua, país que ainda não havíamos publicado, e tem todo um histórico político importante, tendo participado da Revolução Sandinista. Avaliamos algumas obras do autor, como “Margarita está linda la mar”, mas decidimos seguir com “Castigo divino”. É um livro muito instigante. A forma como Ramírez constrói a narrativa com esse mosaico de documentos, que nos permite adentrar o processo criminal, é muito curiosa. Apesar de suas 500 páginas, é um livro para se devorar.

Por que define a prosa latino-americana como “possuidora de alto poder de contestação, dentro de uma realidade que insiste em isolá-la e esvaziá-la”?

Quando começamos a editora, já vivíamos tempos de questionamento do valor da cultura, não só no Brasil, mas em toda a América Latina. Cortes de verba, críticas aos programas de fomento, censura e uma sociedade cada vez mais moralizante. Por isso, é tão bonito ver Bad Bunny conquistando o mundo, o Brasil levando o Oscar de melhor filme estrangeiro, entre tantas outras vitórias. A cultura resiste nos tempos mais perversos. É a isso que o texto ao fim dos nossos livros se refere.

Há algum país ou autor da América Latina que você considere especialmente sub-representado no mercado brasileiro hoje?

Eu acho que, de alguma forma, todos os países latino-americanos o são. Argentina, México e Colômbia, por terem uma produção tão ampla, ainda tardam muito a chegar aqui, quando chegam. Já os países da América Central e do Caribe são pouquíssimos representados. É preciso um grande esforço para nomear autores da Guatemala ou de El Salvador que já foram publicados no país. O fato de o Brasil não se ver como um país latino-americano e olhar para os mercados europeus e estadunidenses com mais afinco é parte do problema.

Quais são os desafios comerciais para publicar literatura latino-americana de qualidade no Brasil?

O desafio real é introduzir um autor que não tem o respaldo de uma crítica global. É preciso convencer os leitores da importância daquele autor, daquela narrativa. E isso vale para autores clássicos e contemporâneos. Acredito, no entanto, que o momento tem sido positivo para as editoras que trabalham com latino-americanos. A onda de xenofobia, principalmente estadunidense, cria um efeito reverso de orgulho e de interesse orgânico nos livros do continente.

Já no caso da disputa com grandes grupos editoriais, temos dois fatores comerciais: o espaço nas estantes de livrarias e na mídia e o respaldo dos números dos mercados dos Estados Unidos e da Europa, que impactam no interesse do público; e o lado mais crítico, quando uma editora independente supera essa barreira, consegue fazer um autor fora dos eixos ter sucesso, só para vê-lo migrar para um grande grupo editorial em seu próximo livro. É difícil competir com empresas com nome e estrutura. Ainda não passamos por isso, mas já vi diversos parceiros nessa posição. Por isso, estamos buscando contratos mais longos do que os clássicos cinco anos e também fechar acordos com prioridade de compra futura.

O preço ainda é um impeditivo para que os livros circulem mais no país? 

É sempre complexo falar de preço do livro porque é algo que relaciona inúmeros fatores: o poder de compra do nosso país, baixo como sabemos, a competitividade da nossa cadeia — um produtor único de papel, máquinas importadas, tudo que encarece muito a produção de livros — e, por fim, o fomento à leitura. De todos os pontos, o mais imediato é o estímulo do governo à formação de leitores, por meio das compras para bibliotecas públicas e escolares e do suporte para professores no uso desses materiais em sala de aula. Não apenas porque as compras governamentais geram bons recursos para as editoras, ajudando a manter uma estrutura sem a necessidade de aumento de preços dos produtos, mas porque, ao formar leitores, garantimos as vendas futuras de livros. Cada geração que não percebe o poder transformador da leitura em sua formação é um público a menos para todo o mercado do livro no futuro. Menos pessoas lendo, menores tiragens, maior o preço final para o consumidor. No entanto, ano após ano, o que vemos são compras governamentais cada vez menores, na contramão dos melhores exemplos mundiais. Portanto, como se vê, há inimigos maiores que o preço, apesar de ele fazer parte da conjuntura.

Edições como a de “Castigo divino”, com 560 páginas e capa dura, custam R$ 139,90. Como avalia os preços cobrados pela Pinard?

Sobre a Pinard, dada a qualidade dos materiais que utilizamos, das ilustrações personalizadas e tudo mais, não acho que os nossos livros sejam caros; tampouco são baratos. No entanto, quando comparo com o que é pedido por editoras maiores, vejo que nossos livros oferecem mais qualidade por menos.

Dos autores mais conhecidos, qual tem particular orgulho de ter reeditado no Brasil? E dos que ainda não haviam sido publicados aqui?

Dos reeditados, eu tenho um especial orgulho por Carlos Fuentes. Ele foi uma figura muito importante para o boom latino-americano, mas, entre os demais (García Márquez, Vargas Llosa e Cortázar), acabou sendo o menos lido aqui no Brasil. Quando li “A morte de Artemio Cruz”, fiquei tão impressionado; foi um dos livros que me fizeram fundar a Pinard. Eu não conseguia entender como um livro e um autor dessa qualidade estavam fora de catálogo. Dos que ainda não haviam sido publicados, gosto muito de “Quão caro foi o açúcar?”, da surinamesa Cynthia McLeod. Foi o primeiro livro do Suriname publicado no Brasil na história. Foi algo tão importante que houve eventos das embaixadas tanto em Brasília quanto em Paramaribo para festejar a publicação. Foi muito bonito.

Como tem sido o diálogo com os escritores contemporâneos? Pretendem trazer outros autores ao nosso país?

É um desafio diferente, exige mais de nós, mas permite trocas muito importantes. Por exemplo, quando recebemos Andrés Montero no Brasil, pude receber indicações de autores diretamente dele, assim como acessar um pouco das histórias de vida que o formaram como escritor. Na semana passada, fomos a Buenos Aires para a Feria de Editores (FED) e encontramos o autor de “Libertadores da América”, Alejandro Droznes. Ele nos levou ao Parque Lezama para dar uma aula de história e nos conectar com partes do seu livro. Muito especial.

Não só pretendemos trazer mais, como já temos pelo menos 12 contratos fechados com autores contemporâneos. Muita coisa boa virá!

Quais serão os lançamentos da Pinard até o fim do ano?

Entre os clássicos, lançaremos “Três tristes tigres”, do cubano Guillermo Cabrera Infante, um livro experimental sobre a vida boêmia em uma Havana pré-revolucionária; “Mamita Yunai”, do costa-riquenho Carlos Luis Fallas, que retrata a exploração brutal dos trabalhadores das plantações de banana das empresas estadunidenses; “Redoble por Rancas”, do peruano Manuel Scorza, que narra a luta de uma comunidade camponesa peruana contra a exploração e a expropriação de suas terras por uma grande empresa mineradora; e, por fim, talvez o mais famoso da lista, “Aura”, do mexicano Carlos Fuentes, sobre um jovem historiador que aceita organizar as memórias de um general em uma casa sombria, acompanhado da viúva e da sobrinha dele.

Entre os contemporâneos, lançaremos “Antoine des Gommiers”, do haitiano Lyonel Trouillot, que retrata a vida de dois irmãos em Porto Príncipe, ao mesmo tempo em que um deles, escritor, escreve sobre Antoine, um lendário adivinho do país; e “San José dormido”, do argentino José Ignacio Scasserra, que mostra como um casal de homens gays atravessou a pandemia dentro de um convento no interior da Argentina. Por fim, voltaremos com a nossa coleção de poesia para lançar uma antologia da uruguaia Juana de Ibarbourou.

Se pudesse indicar um único livro da Pinard para um leitor que deseja começar a explorar a literatura latino-americana, qual seria e por quê?

Eu indicaria “O ano em que falamos com o mar”, do chileno Andrés Montero. É um dos nossos lançamentos e com grande sucesso. Um livro muito bonito sobre sentimentos muito humanos: a partida, os caminhos que se separam, o que poderia ter sido da vida caso uma pessoa decidisse ter ficado. Após 50 anos, um irmão volta para a ilha que nasceu para encontrar o seu gêmeo. No momento em que chega, bate a pandemia e ele é forçado a ficar ali e lidar com o seu passado. Uma obra-prima. Além disso, o Andrés consegue trazer algo raro para a sua narrativa: uma voz plural, composta pelas vozes dos habitantes da ilha que ajudam a contar a história dessa separação, colocando-nos ali entre eles.

“Libertadores da América” une história e futebol 

Poucos torneios no mundo têm o luxo de carregar um nome tão emblemático como a tradicional Copa Libertadores da América. Desde os anos 1960, o principal campeonato de futebol do continente homenageia líderes que lutaram pela independência na região, especialmente Simón Bolívar e José de San Martín, maiores símbolos da libertação da América espanhola. Se os nomes são pouco lembrados no Brasil - que tem um monarca português como principal ícone da independência -, é bem diferente nos vizinhos sul-americanos, em que, por onde passaram, Bolívar e San Martín dão nome a ruas, praças, museus, escolas e até clubes e estádios.

Usando o futebol continental como lente, o argentino Alejandro Droznes viajou por 10 cidades - nove na América do Sul e uma na Europa - para ver de perto lugares determinantes nas histórias dos líderes independentistas. No livro “Libertadores da América” (Pinard), o autor estreante mistura crônicas de uma viagem futeboleira mescladas com relatos sobre a história da libertação da América.

Um dos capítulos, por exemplo, se passa em Guayaquil, no Equador. Cidade mais populosa do país, foi palco de confrontos históricos do futebol continental, como a semifinal da Libertadores de 1990, vencida pelo Barcelona de Guayaquil sobre o River Plate nos pênaltis. Além disso, recebeu o único encontro entre Simón Bolívar e San Martín, em 1822, em que os líderes discutiram o rumo das lutas de libertação. Chamada de “Conferência de Guayaquil”, a reunião é homenageada por uma estátua na cidade.

Em uma contemporaneidade de questionamentos sobre os rumos do futebol sul-americano, com amplo domínio econômico e, consequentemente, esportivo dos brasileiros, o livro aponta para a raiz mais diversa e hispano-americana da Copa Libertadores. Apenas um capítulo se passa no Brasil, em que o autor visita São Paulo para acompanhar, no Pacaembu, um 0 a 0 entre Santos e Independiente.

No livro, Droznes mostra o futebol como, simultaneamente, início e fim da história na América do Sul. Nos campos e arquibancadas, o esporte mais popular do continente carrega símbolos de luta, ao mesmo tempo em que expõe as principais contradições da vida na região. (Andrei Megre)

“Libertadores da América”

• De Alejandro Droznes

• Tradução de Luis Reyes Gil

• Pinard

• 256 páginas

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