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Fernanda Trías: 'A crise climática não é mais uma ameaça abstrata'

Depois do surpreendente "Gosma rosa", escritora uruguaia volta a atordoar os leitores com um romance que une crise climática, maternidade, violência e solidão em uma formação montanhosa que expressa seus sentimentos na narrativa

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“Eu me esvazio e a montanha me preenche”, afirma a narradora de “A montanha das fúrias”, de Fernanda Trías. Isolada numa encosta, a mulher solitária tem como tarefa cuidar da propriedade e fazer relatórios para uma figura misteriosa, o Zelador. “Amarrada pelo cordão do ódio” com a mãe, ela compartilha lembranças traumáticas até que corpos começam a aparecer em seu jardim.  “A montanha é violenta. De uma paisagem tão violenta, só podem sair homens violentos. A paisagem os cria”, garante a narradora do segundo romance publicado no Brasil da escritora uruguaia, uma das vozes mais originais da literatura contemporânea latino-americana.

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A ideia de ambientar o romance em uma montanha veio durante a pandemia, lembra a escritora. Nascida em Montevidéu em 1975, ela vive em Bogotá, onde leciona no programa de mestrado em Escrita Criativa do Instituto Caro y Cuervo. Em 2020, de seu apartamento na capital colombiana, ela avistava os cerros orientais, cadeia de montanhas com 52 quilômetros de extensão a leste de Bogotá. “Casa de dezenas de espécies endêmicas da flora e da fauna, a floresta nublada está ameaçada por pressões antrópicas, como extração ilegal de madeira, pecuária e urbanização, bem como pelas mudanças climáticas. Este livro também é por eles (os cerros)”, conta a autora, em nota na edição brasileira, publicada pela editora Instante e tradução de Marina Waquil.

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Mas Trías vai muito além de eleger as formações montanhosas como cenário. Assim com fizeram com idêntica maestria, nos últimos anos, autoras como a espanhola Irene Solá (“Canto eu e a montanha dança”) e a colombiana María Ospina Pizano (“Só um pouco aqui”), Trías surpreende ao narrar ações, lembranças e emoções de um elemento não humano, no caso dela, uma elevação natural de terra. “Diante da imagem de sua mãe moribunda, a montanha fechou os olhos e, nas duas eternidades que levou para abri-los, esqueceu que a havia encontrado. Sentiu-se órfã de novo e chorou. As pedras estremeceram; novos seixos caíram e esmagaram alguma vida insignificante”, escreve. 

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“Este romance foi difícil porque havia uma voz humana e uma voz não humana, e eu precisava encontrar uma forma para ambas sem que a montanha se tornasse uma alegoria muito transparente. Assim como eu trabalhava com uma voz não humana, a da montanha, a linguagem era a protagonista e eu precisava levá-la ao limite”, conta Fernanda Trías, em entrevista ao Estado de Minas.

Esta “voz não humana” é uma das principais diferenças de “A montanha das fúrias” para o maior sucesso de Trías, traduzido em mais de dez idiomas e lançado no Brasil em 2022 pela editora Moinhos. Entre a realidade e a distopia, “Gosma rosa” se passa em uma cidade portuária onde, após um incidente ambiental, algas tomam conta do oceano e um vento venenoso, anunciado por nuvens vermelhas, adoece – e mata – boa parte dos habitantes. Agora a narrativa se muda para as montanhas para acompanhar uma mulher solitária, que vive anotando pensamentos, recolhendo cadáveres e remoendo traumas provocados pela mãe. O ambiente imaginado por Trías é, portanto, novamente pano de fundo para um mergulho na condição feminina diante de situações extremas. “Desta vez eu estava interessada em pensar na maternidade não como um destino ou ideal, mas como uma zona ambígua, onde amor, dívida, raiva e abandono se misturam”, afirma a escritora. 

Outra semelhança entre os romances publicados no Brasil é que ambos nascem da preocupação de Trías com as consequências do aquecimento global. “A crise climática não é mais uma ameaça abstrata ou algo que pertence ao futuro. A literatura pode levar esse fato para uma escala humana e passar pelo corpo, pela emoção”, acredita a autora, que mora em Bogotá desde 2015.

“A Colômbia mudou minha relação com a paisagem, com a violência e com o corpo. Encontrei uma intensidade diferente: uma vitalidade enorme, uma coexistência muito complexa entre beleza e ameaça. O Uruguai, por outro lado, tem outra escala, outra relação com o silêncio, com a melancolia, com uma certa forma de confinamento. Acho que minha escrita se alimenta dessa tensão: venho de um país mais baixo, mais horizontal, e escrevi este romance a partir de uma cidade cercada por montanhas”, explica.

“Para alguém que vem do Uruguai, o Brasil sempre tem algo excessivo, vital, incompreensível”, afirma a escritora. Ela citou o nosso país como opção de fuga para a protagonista de “Gosma rosa” e em uma das histórias da recém-lançada coletânea de contos “Miembro fantasma”. “O Brasil aparece em meus textos de tempos em tempos como um horizonte utópico, misterioso e ao mesmo tempo cheio de vida, que suponho ser a imagem que foi implantada em mim desde a infância, menina de um pequeno país vizinho e que, nas viagens de carro até uma fronteira quase invisível, ficava impressionada como, do outro lado de uma única rua, mudava a língua e tantas outras coisas”, revela.

A autora se diz “fascinada” pela natureza da Amazônia. “Mas, para escrever algo que acontece lá, teria que haver uma experiência, uma necessidade real de escrever. Os lugares não são decorados: eles têm memória, conflitos, suas próprias vozes”, pontua.

Leia, a seguir, a entrevista de Fernanda Trías ao Estado de Minas.

Como a aceleração das mudanças climáticas impactou a escrita de “A montanha das fúrias”? 

A crise climática mudou nossa percepção da realidade. Não é mais uma ameaça abstrata ou algo que pertence ao futuro. Mas, como aparece nas notícias, chega até nós como números, projeções, catástrofes, medo. Isso não é bom para a escrita. A literatura pode fazer outra coisa: levar isso para uma escala humana e passar pelo corpo e pela emoção. Não me interessa escrever sobre a crise climática em si, mas sim passar por essa dor junto com o corpo e ver qual forma literária ele pode assumir. Essa exploração começou com a escrita de “Gosma rosa” (publicado no Brasil em 2022 pela Editora Moinhos) e continuou, de forma diferente, com “A montanha das fúrias”.

O que foi mais desafiador ao abordar, a partir da ficção, um tema tão presente nas notícias? Você fez alguma pesquisa ou trabalho de observação na área?

Houve pesquisa, sim, mas também muita observação. Durante a pandemia, morei em frente às colinas orientais de Bogotá e passei muito tempo olhando para a montanha: a névoa, a luz, a vegetação, as mudanças mínimas. Essa observação era tão importante quanto qualquer leitura. Depois fiz muita pesquisa sobre a formação da cadeia montanhosa, sobre o tempo geológico, sobre inteligência vegetal, sobre flora e fauna, e a partir da filosofia pensei no conceito de metamorfose e de “se tornar outro”. Neste romance, a mulher é penetrada pela montanha até ser transformada por ela. 

O cuidado dos corpos, de forma quase maternal, é uma das ações mais significativas realizadas pela protagonista. O que a maternidade representa para ela e como se constrói sua relação com a mãe e a avó? 

Para a protagonista, a maternidade é uma ferida e também uma forma de cuidado deslocado. Ela não pode ou não pode ser mãe no sentido mais convencional, mas cuida de corpos: corpos frágeis, corpos abandonados, corpos que os outros não querem olhar. Seu relacionamento com a mãe é marcado por violência e uma espécie de fome emocional. E a avó, por outro lado, representa outra transmissão, mais ligada à ternura. Eu estava interessada em pensar na maternidade não como um destino ou ideal, mas como uma zona ambígua, onde amor, dívida, raiva e abandono se misturam. 

Por que você disse, em uma entrevista, que este romance é um desdobramento natural de “Gosma rosa”? O que tentou explorar neste livro que não conseguiu abordar no anterior? 

“Gosma rosa” já estava atravessado pela crise ambiental, pelo confinamento, pela doença dos corpos e do mundo. É um romance distópico, que tenta contar a história de como uma catástrofe ambiental pode atravessar vidas individuais, afetos, nosso modo de vida em sociedade e de sobreviver em sociedade ou isoladamente. O reverso deste romance era pensar em um horizonte mais utópico: como seria outro tipo de coexistência com a natureza? Como seria uma relação tão próxima a ponto de se tornar um corpo só? “A montanha das fúrias” nasce da mesma preocupação inicial, mas se move para outro território: não é mais a cidade poluída ou o confinamento doméstico, mas a montanha, uma relação mais direta com o não humano. Em “Gosma rosa”, havia uma mulher que cuidava de uma criança que não era seu filho biológico. Esse vínculo já tinha algo político, mas em “A montanha das fúrias” há outra forma muito mais ampla de cuidado, que vai além do humano e até além dos vivos. Quis explorar o que acontece quando o vínculo não é apenas entre humanos, mas também com uma paisagem, com uma força que não podemos dominar. 

A narradora define o processo de escrita como “minha luta com as palavras, meus próprios pensamentos”. Essa também é sua luta a cada livro? Essa foi uma luta mais difícil do que a de “Gosma rosa”? 

Sim, para mim cada livro implica um desafio diferente, e tento levar cada livro além, até os limites do que não entendo e do que ainda não pensei. Este romance foi difícil porque havia uma voz humana e uma voz não humana, e eu precisava encontrar uma forma para ambas sem que a montanha se tornasse uma alegoria muito transparente. Assim como eu trabalhava com uma voz não humana, a da montanha, a linguagem era a protagonista e eu precisava levá-la ao limite. Existem coisas que a linguagem humana não pode nomear, assim como há coisas que nós, como espécie, não podemos imaginar, e muitas vezes a falta de imaginação passa pela própria linguagem. Aquilo que não podemos imaginar, não pode ser nomeado, e vice-versa. 

Podemos considerar a montanha como um dos personagens principais do livro? Como foi dar voz àquela montanha? 

No livro, há dois protagonistas que narram: uma mulher que escreve e uma montanha que, por sua vez, nos conta sobre sua vida e a vida dos habitantes da cidade. Desde o começo, eu sabia que queria que as duas protagonistas femininas (mulher e montanha) tivessem o mesmo nível de importância. Ambos têm vozes, ambos têm memórias, ambos têm corpos. Eu não queria que o narrador humano fosse o único a contar os fatos. Mas dar voz a uma presença não humana era um risco, porque sempre escrevemos a partir da linguagem humana e isso já implica limitações. O desafio era tentar se aproximar de uma consciência sobre-humana. Não sei se a montanha “fala” no sentido humano. Mas no romance, sem dúvida, ela responde. 

A narradora menciona a existência de uma Biblioteca do Conhecimento, onde ela encontrou respostas para um mundo do qual não fazia parte. Quais livros compõem sua biblioteca de conhecimento e quais respostas encontrou neles? 

A Biblioteca do Conhecimento foi proibida há muito tempo para nós, mulheres, e no romance o que tento pensar é que existem outras formas de acessar o conhecimento. Não apenas por meio de livros ou educação formal. Minha biblioteca de conhecimento é bem bagunçada. É formada por romances, poemas, ensaios e livros científicos. Para este romance, algumas leituras sobre geologia, botânica, ecologia, mas também poesia foram importantes. A poesia, muitas vezes, sabe coisas que o pensamento racional demora mais para entender. Mais do que respostas, os livros me davam uma sensibilidade: outra forma de ouvir a montanha, o medo, a fúria. 

Por que afirma que o seu processo de escrita é muito lento? O que é necessário para desenvolvê-lo? 

Porque preciso de muito tempo para encontrar a voz. Não consigo começar um romance apenas com uma ideia ou um tema. Até que apareça um suspiro, algo que me diga de onde está sendo contado, não consigo avançar. Depois vem um trabalho muito lento de correção, poda, escuta. Para mim, escrever não é tanto sobre produzir páginas, mas sim sobre aprender a ouvir o que o livro quer ser. 

Você mora na Colômbia há mais de dez anos. Como essa experiência se reflete na sua escrita? O que você encontrou na Colômbia que não existe no Uruguai? E o que você sente falta do seu país? 

A Colômbia mudou minha relação com a paisagem, com a violência e com o corpo. Encontrei uma intensidade diferente: uma geografia excessiva, uma vitalidade enorme, uma coexistência muito complexa entre beleza e ameaça. O Uruguai, por outro lado, tem outra escala, outra relação com o silêncio, com a melancolia, com uma certa forma de confinamento. Acho que minha escrita se alimenta dessa tensão: venho de um país mais baixo, mais horizontal, e escrevi este romance a partir de uma cidade cercada por montanhas. Sinto falta do rio, da lentidão do tempo, das praias, de alguma comida. Mas também acho que a distância deixa algumas coisas mais claras.

Você consegue identificar conexões entre seus livros e os de outros autores latino-americanos contemporâneos? Quais? O cenário para as escritoras na América Latina é diferente de quando você começou a escrever? 

Sim, acho que há muitos autores latino-americanos trabalhando em áreas relacionadas: o corpo, a violência, o doméstico tornado estranho, a natureza, a doença, o ar livre. Cada um com seu estilo pessoal, isso é o mais interessante. Laura Ortiz, Gabriela Cabezón Cámara, María Ospina, Selva Almada, Mónica Ojeda. Sinto-me mais próximo daqueles que fazem trabalhos poéticos sobre linguagem. O panorama mudou muito. Quando comecei, havia escritoras extraordinárias, mas circulavam menos, eram menos lidas, eram agrupadas de maneiras mais redutoras. Hoje há mais visibilidade, embora isso não signifique que tudo esteja resolvido. Ainda existe a tentação de transformar escritoras em um fenômeno ou rótulo. Mas, sem dúvida, há mais leitores, mais traduções, mais conversas. 

E quanto às escritoras brasileiras? Quais conhece e admira? 

A primeira, inevitavelmente, é Clarice Lispector. Para muitas escritoras latino-americanas, foi uma espécie de revelação: mostrou que um romance poderia ocorrer em uma percepção mínima, em uma questão quase metafísica. Mas eu sei que os brasileiros dizem: temos mais autoras! Eu sei, eu sei. Também admiro muito Hilda Hilst, por sua liberdade e intensidade, e Lygia Fagundes Telles. Dos contemporâneos, tenho interesse em escritores como Conceição Evaristo e Ana Paula Maia. O Brasil tem uma literatura enorme, mas precisamos de mais traduções para o espanhol. 

Por que afirma que sua terra natal é sua língua? 

Porque vivi fora do Uruguai por muitos anos e entendi que pertencimento nem sempre é um território. Às vezes está em uma entoação, em uma palavra, em uma forma de nomear o mundo. Minha terra natal é minha língua porque é onde continuo me reconhecendo, mesmo quando estou longe. Mas não é uma língua fixa. Isso muda conforme os lugares onde moro, incorpora outros ritmos. Para mim, a língua é uma casa móvel. 

Seus livros parecem dialogar com medos coletivos: poluição, catástrofe ambiental, solidão, violência. Qual medo contemporâneo você ainda tem interesse em explorar literariamente?

Me interessa o medo de não sentir. Anestesia. Vivemos expostos a tantas imagens de violência, desastre, sofrimento, que às vezes o perigo não é o medo, mas o hábito. Acho que esse é um medo muito contemporâneo: se acostumar com o intolerável. A literatura, quando funciona, pode interromper esse hábito. Não sei se ele pode nos confortar, mas espero que ele possa nos devolver um pouco de sensibilidade. 

O que se pode dizer sobre os ensaios de “Em um canto de mim nascerá uma planta”? Algum deles toca em pontos presentes em “A montanha das fúrias”? 

Os ensaios pessoais deste novo livro falam sobre meu processo criativo, como comecei a escrever, como escrevi vários dos meus livros. Falo sobre o que no mundo anglo-saxão tem sido chamado de “eco-ansiedade”, a ansiedade gerada ao ver a destruição do meio ambiente, e como isso pode ser traduzido na literatura. E também falo sobre professores, aquelas pessoas que nos ajudam a nos encontrar como escritores. 

E sobre as histórias de “Miembro fantasma”? 

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“Miembro fantasma”, que será publicado no Brasil, reúne histórias que dialogam com a mesma ideia: a presença do ausente. O que não está mais lá, mas continua doendo; o que não vemos, mas condiciona nossa vida. Tenho interesse em fantasmas, mas não necessariamente como aparições sobrenaturais. São fantasmas afetivos, familiares, políticos: tudo o que insiste, mesmo que pareça ter desaparecido. 

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