AMÉRICA LATINA ONTEM E HOJE

Livro do casal Bioy Casares e Ocampo ganha edição no Brasil 80 anos depois

Escrito em 1946 durante um verão em Mar del Plata, "Os que amam, odeiam" foi inspirado nos romances policiais de Agatha Christie

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O que fazer no verão de Mar del Plata em 1946? Adolfo Bioy Casares (1914-1999) e Silvina Ocampo (1903-1993) decidiram escrever um livro. E convidaram uma perspicaz senhora britânica para acompanhá-los na empreitada. O resultado é “Os que amam, odeiam” (Companhia das Letras), escrito a quatro mãos pelo casal, mas com inspiração em Agatha Christie e outros autores de mistério da primeira metade do século 20. Publicado na Argentina em 1946 e considerado precursor do romance policial no país, o único título assinado em conjunto por dois dos maiores escritores argentinos de todos os tempos chega ao Brasil com tradução de Júlio Pimentel Pinto.

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A influência da ‘dama do crime’ se espraia pelo cenário escolhido para a trama, hotel à beira-mar isolado por uma tempestade de areia, à causa mortis do cadáver encontrado em um dos quartos: envenenamento. A opção de confiar a narrativa a um narrador não confiável também lembra os títulos mais conhecidos de Christie, ainda mais pelo fato de a história ser conduzida por um médico que, em determinado momento, auxilia a investigação, como ocorre em “O assassinato de Roger Ackroyd”. E as reviravoltas, mesmo previsíveis e servidas somente depois do chá, também seguem a cartilha da mais popular escritora de livros policiais do século 20.

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Os principais personagens, descritos como “um grupo de pessoas temerosas, dissimulando seu temor”, são bem esquemáticos. Movidos por intrigas amorosas típicas de uma comédia de costumes, carecem de profundidade psicológica – e os autores assumem a superficialidade ao citar “romancistas que se concentram na ação e descuidam dos personagens”. A ironia pontua a narrativa paródica, de capítulos magros e frases obesas, sobrecarregadas pela profusão de adjetivos (“Na luz oscilante da vela, a pele encerada, o olhar intenso e a expressão fugidia de Miguel me impressionaram”) e persegue um narrador capaz de interromper as ações para admirar o próprio umbigo e se definir como um homem de “consciência dominante” e “observador infatigável do gênero humano”.

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Em meio à investigação para esclarecer se a morte no hotel foi suicídio ou homicídio, solucionada somente nas últimas páginas com o auxílio do trecho de uma tradução literária, Bioy Casares e Ocampo salpicam provocações à produção hegemônica da época (“Quando renunciaremos ao romance policial, ao romance fantástico e a todo esse fecundo, variado e ambicioso campo da literatura que se alimenta de irrealidades?”) e reflexões sobre o próprio ofício: “O destino de todos nós, escritores que obedecem ao chamado da vocação e não ao afã do lucro, é uma busca contínua de pretextos para adiar o momento de tomar a pluma”.

Em que pese uma cena realmente perturbadora, a visão de uma praia tomada por caranguejos (“O mal de ver um espetáculo como esse é que depois vamos encontrá-lo em nosso inferno”), “Os que amam, odeiam” tem uma narrativa mais interessada em ressaltar a paródia do que na construção de uma trama surpreendente. Divertido e esquecível, passa longe dos grandes momentos dos autores de “A invenção de Morel” e “A fúria”. Não chega perto sequer dos melhores mistérios de Agatha Christie. É romance de verão. Ou, como define o afetado narrador, literatura de evasão.


Trecho

“Tive a impressão de ver uma aranha no barro. Depois, outras; depois, multidões. Eram caranguejos. Pensei que, se caísse viraria com a barriga para baixo, em posição de nadar. Mas teria o rosto afundado no barro e os caranguejos se moveriam à altura dos meus olhos. Talvez conviesse me jogar de costas. Então imaginei o pavor de saber que era assediado por tímidas, obstinadas, insistentes patas de crustáceos invisíveis.

Rodeamos os últimos arbustos de esparto; ouvimos, confundido com o grito do vento, um mar furioso e distante, e se abriu ante nós a mais horrenda e a mais desesperada visão: uma praia estremecida de caranguejos, negra, viscosa, interminável.”

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“OS QUE AMAM, ODEIAM”

De Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares
Tradução de Júlio Pimentel Pinto
Companhia das Letras
160 páginas
R$ 69,90 

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