Raúl Zurita: 'A poesia é a arte capaz de dar forma ao sofrimento'
Preso e torturado após o golpe de Pinochet em 1973, poeta chileno transformou trauma em uma das obras mais poderosas da literatura latino-americana
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Na manhã de 11 de setembro de 1973, a caminho da Universidad Técnica Federico Santa María, em Valparaíso, no Chile, o então estudante de engenharia civil Raúl Zurita foi abordado por uma patrulha militar e preso. O golpe liderado por Augusto Pinochet (1915-2006) havia triunfado, e os militares iniciavam uma caçada implacável contra opositores políticos e apoiadores do presidente deposto Salvador Allende (1908-1973).
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Zurita não fazia parte de nenhum movimento político. Estava no lugar errado, na hora errada. Foi levado para um centro de detenção improvisado e, dias depois, transferido para o porão do navio cargueiro “Maipo”, ancorado na costa. Ficou preso por três semanas com outras 800 pessoas em um ambiente insalubre e superlotado. Sofreu tortura física e psicológica.
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A prisão foi o ponto de inflexão na vida do poeta chileno de 76 anos, hoje um dos nomes mais cotados ao próximo Nobel de Literatura. O confinamento e a violência de Estado fizeram Zurita compreender a escrita como “um exercício privado de redenção”. Foi dessa necessidade de sobreviver ao trauma e de dar forma a ele que nasceu a obra que a editora Fósforo apresenta em “Sua vida quebrando-se”, primeira antologia poética brasileira do autor.
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A coletânea integra a coleção Círculo de Poemas e contempla todos os livros de Zurita, de “Purgatório” (1979), considerado sua estreia – embora já contasse com publicações esparsas na revista da universidade desde 1971 –, a “Zurita” (2011).
TUDO ESTÁ PERDIDO
A imagem do homem “encolhido contra o fundo de tábuas do bote” quando tudo está perdido é recorrente na obra do chileno. O navio e o mar deixam de ser apenas elementos geográficos para se tornarem paisagens de dor e morte. Outros elementos também compõem esse universo, como o Deserto do Atacama, a Cordilheira dos Andes e o Rio Mapocho, que corta Santiago.
“A paisagem, a cordilheira, a areia que voa, o mar suspenso sobre ela… É uma geografia em que imagino todos esses elementos em estado selvagem, em choque entre si. Porque acredito que as paisagens não são senão o reflexo das paixões humanas”, afirma Zurita, em entrevista ao Pensar por videochamada. “Só uma paixão humana é capaz de erguer montanhas. É a paixão humana que se precipita na arrebentação. Essas paisagens são dinâmicas, não estão paradas”, acrescenta.
Mais do que descrever a geografia chilena em sentido literal, Zurita transforma a paisagem em linguagem emocional. Cordilheira, deserto, mar e rio aparecem como extensões das paixões humanas. São territórios vivos, em permanente tensão, marcados por forças em choque.
Trata-se de uma lógica que acompanha quase cinco décadas de produção do autor. Ler Zurita em ordem cronológica dá a impressão de acompanhar uma única obra em contínua expansão. Os livros dialogam entre si, retomam imagens e aprofundam obsessões. O próprio autor percebe isso, ainda que ressalte a existência de “um princípio, meio e fim” ao longo das publicações.
“Acho que seja, sim, uma obra só. Mas isso me parece estranho, porque é como se eu tivesse uma vida dupla também: de um lado, o livro; e, do outro, a vida que vivi”, diz.
À EXEMPLO DE DANTE
Zurita nasceu em Santiago, em 1951. Aos 2 anos, ficou órfão de pai e passou a ser criado pela mãe e pela avó italiana, figura decisiva em sua formação literária. Foi ela quem apresentou ao neto a obra de Dante Alighieri, lendo diariamente o “Inferno”, de “A divina comédia”.
A influência do poeta florentino seria duradoura. Zurita cristalizou a convicção de que Dante é o maior poeta da história. “De uma forma ou de outra, todos os poetas ocidentais carregam algo de Dante, saibam disso ou não”, afirma.
“É uma obra tão pura em sua estrutura (‘Inferno’, ‘Purgatório’ e ‘Paraíso’), que abarca tudo, uma visão total. Podemos já não acreditar em santos, anjos ou em certas imagens religiosas, mas seguimos profundamente tocados por essa obra”.
“A divina comédia” serve de base para a estrutura dos três primeiros livros de Zurita, “Purgatório”, “Anteparaíso” (1982) e “A vida nova” (1994). Seguindo o modelo de jornada simultaneamente espiritual e física, as obras dialogam entre si, retornando a imagens e temas recorrentes.
Em “Purgatório”, livro profundamente marcado pela devastação psíquica, Zurita apresenta o conceito de “antinarciso”, antítese do mito grego. Trata-se de uma figura que se olha no espelho não para admirar a própria imagem, mas para se confrontar e se ferir. Os versos de “Domingo de manhã” deixam isso claro: “Estropiei minha cara tremenda / diante do espelho / te amo - me disse - te amo”.
É difícil não associar o poema ao episódio em que Zurita queimou a própria bochecha com ferro quente durante uma forte depressão, em 1975. Não seria a única vez em que o poeta recorreria à automutilação, aliás. Em 1980, jogou amoníaco nos olhos numa tentativa de cegar a si mesmo. A tentativa falhou, e ele conseguiu preservar a visão após receber atendimento médico.
Os dois episódios costumam ser lidos como momentos extremos da fusão entre vida, sofrimento e obra. Ambos ocorreram após a prisão e a tortura sofridas durante a ditadura de Pinochet, em um período de enorme devastação psíquica e emocional. Nos poemas de Zurita, a violência histórica se inscreve no corpo, e o corpo se torna território poético.
Em “Anteparaíso”, por sua vez, o poeta parece caminhar em direção a uma reconciliação possível. O neologismo presente no título, que não deve ser confundido com “anti-paraíso”, remete à ideia de algo situado às portas do paraíso. É a busca por uma nova maneira de compreender o mundo e o amor como força organizadora.
“Escute Zurita - disse-me - tire da / cabeça esses maus pensamentos”, diz o aforisma que abre o livro.
Por fim, “A vida nova” amarra as criações anteriores e expande o poema para o céu e a terra. O livro representa o destino final de um percurso que parte da noite sombria da ditadura chilena em direção a uma reconciliação utópica.
“A poesia é a arte do sofrimento”, afirma Zurita na entrevista. “Ou melhor, é a arte capaz de dar forma ao sofrimento. Ela é anterior à escrita, anterior à imprensa, anterior à internet, anterior à inteligência artificial. E sobreviverá. Mas a razão disso não é feliz: enquanto houver um único ser humano desgraçado neste mundo, a poesia continuará sendo necessária. Ela precisa expressar essa dor, esse vazio infinito que também somos”.
POEMAS HUMANOS
Ao mesmo tempo em que está intrinsecamente ligada ao sofrimento, a poesia também está relacionada com os Direitos Humanos. “Não é uma dependência direta, claro. A poesia existe até mesmo em autores profundamente reacionários. Mas, independentemente da vontade deles, a poesia autêntica sempre se dirige a todos os homens. Então ela é um hino, um canto, uma glorificação do ser humano e, ao mesmo tempo, uma denúncia dos horrores que fazem perder a liberdade”, diz.
Zurita começou a escrever depois do golpe militar no Chile. Além das prisões arbitrárias e torturas, havia forte sentimento patriótico promovido pelos militares. O hino nacional era tocado nas rádios todos os dias e grande parte da programação das emissoras tinha de fortalecer símbolos nacionais sequestrados pela ditadura, como a bandeira do Chile, discursos sobre liberdade e o próprio hino nacional.
“Existia uma luta pelos significados da linguagem. Em contraponto às marchas do fascismo, vinha a poesia de poetas como Víctor Jara (1932-1973), Violeta Parra (1917-1967), Pablo Neruda (1904-1973)… Tudo isso foi muito forte”, lembra o poeta.
A resposta mais forte dada por Zurita ao regime militar foi o livro-poema “Canto ao seu amor desaparecido” (1985). Considerado o poema mais emblemático da resistência chilena, ele traz vozes que convergem de uma pessoa torturada, do amante de uma mulher desaparecida e da mãe de um preso político.
O texto, que conseguiu burlar a censura, cita “quartéis abobadados”, “golpes de baioneta”, “corpos derrubados” e “galpões de concreto” onde os prisioneiros uivavam. Hoje, os versos “Todo meu amor está aqui e ficou colado às rochas, ao mar e às montanhas” estão no Memorial dos Detidos Desaparecidos, no Cemitério Geral de Santiago.
“Canto ao seu amor desaparecido” também coloca explicitamente os países latino-americanos em túmulos, como se um continente inteiro fosse transformado em cemitério. Cada tumba representa um país. E, confinados em galpões de concreto, estão os países da América do Norte, numa imagem que sintetiza uma percepção central na obra de Zurita de que a violência das ditaduras latino-americanas não produziu apenas mortos, mas feridas históricas ainda abertas no continente.
RETORNO À DANTE
Em “INRI”, Zurita continua tendo a ditadura militar como alvo. No entanto, retoma a influência de Dante ao recorrer a imagens de fé, corpo e paisagem. É como se este livro fosse o “Inferno”, a partir dos horrores da ditadura. Zurita faz referências aos “voos da morte”, no qual militares da Força Aérea e do Exército usavam helicópteros e aviões para lançar os corpos de presos políticos no mar a fim de ocultar os assassinatos.
O mar do Chile é o “túmulo carnívoro”, povoado pelas almas dos desaparecidos que foram jogados no oceano. E a personagem central de grande parte do livro, Viviane, é uma mulher que “aninha peixes” e procura o filho nas águas, como se representasse o próprio Chile.
“Quem fala nos meus poemas é o Raúl, o Chile, os mortos, a paisagem, ou todas essas vozes ao mesmo tempo”, afirma Zurita. “Às vezes, é até a música andina. De repente é Homero. De repente é Rimbaud. Tudo aquilo que li, de uma forma ou de outra, influencia. Nós, poetas, não somos totalmente originais. Estamos sempre recolhendo coisas que já existiram”, reconhece.
A cosmovisão indígena também é recorrente. Curiosamente, ela coexiste em harmonia com as influências de Dante. “Não sei exatamente como, só sinto que coexistem”, ele diz. “Muitas vezes, quando você escreve, nem sequer pensa nisso naquele momento. Talvez nunca tenha pensado antes. Acho que as cosmovisões dos povos originários têm algo em comum com a visão de Dante. São formas de narrar começos e fins, travessias”.
Zurita cita diretamente o texto sagrado do povo k'iche', da Guatemala, no poema "As covas do céu IV", de “Anteparaíso”. Também recorre à cosmogonia maia que narra a criação do mundo e dos seres humanos a partir do barro, da madeira e do milho para construir um imaginário de resistência.
No início de “A vida nova”, menciona uma lenda aymara que diz que, se uma pessoa está prestes a morrer, deve-se segurar seus cabelos com força, pois assim a morte não poderá levá-la. E, no depoimento de Julia Millacura, que integra o mesmo livro, ressalta o preconceito social contra “coisas de índia”, enquanto as afirma como canal de comunicação direta com o sagrado.
O AMOR É URGENTE
Por mais que a poesia seja a arte do sofrimento, o amor que aparece é força organizadora. Ocupa lugar central em uma obra marcada pela violência. “É o mais importante, afinal. Nós vamos morrer. Por isso que o amor é urgente: porque vamos morrer. Isso é inevitável para todos. Uma vida sem amor é uma vida perdida”, avalia.
Não à toa, as seções de todos os livros terminam com a citação – mais uma vez – de Dante: "Amor que move o sol e as outras estrelas”. Desse sentimento nasce a esperança de redenção, quase bíblica em alguns casos, como no poema “Uma rota nas solidões”, de “INRI”. “Nossos cadáveres irão reviver e a terra expulsará do seu ventre os mortos”, escreve o poeta.
Por fim, “Zurita”, última publicação de poemas inéditos do chileno, traz um olhar retrospectivo do autor sobre sua própria produção, funcionando como ponto de amarração para suas experiências de trauma, memória e intervenções artísticas. Foram 15 anos para ser concluído e serve como fechamento de um ciclo criativo.
Os textos têm tom onírico e fragmentado. Zurita funde tempos e espaços diferentes, como Berlim, Santiago e Sarajevo, misturando sonho e realidade para refletir sobre a solidão humana. “Céu abaixo” evoca memórias familiares e paisagens de Santiago, “Sonhos para Kurosawa” conta com forte componente visual e o poema final sem título traz releitura do “antinarciso”, no qual o poeta esfrega a bochecha queimada contra o cascalho, reafirmando que, apesar da dor, voltou a ver as "irrefutáveis estrelas”.
Zurita é frequentemente cotado para o Nobel de Literatura. Neste ano, seu nome ganhou tração novamente. “Sobre isso, não tenho absolutamente nada a dizer, porque, infelizmente, não faço parte do júri. Não sei de nada”, conclui, com leve sorriso no rosto.
TRECHOS DO LIVRO
Pastoral
O Chile inteiro é um deserto
Suas planícies mudaram e seus rios
estão mais secos que as pedras
Não há alma alguma caminhando por suas ruas
e apenas os maus parecem estar por todas as partes
Ah se ao menos você me estendesse os braços
as rochas se derreteriam ao te ver!
(Do Livro "Anteparaíso")
Domingo de manhã
I
Amanheço-me
Rompeu-se uma coluna
Sou uma santa digo
III
Todo maquiado contra os vidros
chamei-me esta iluminada diga-me que não
o Super Estrela do Chile
toquei-me na penumbra beijei minhas pernas
Aborreci-me tanto nestes anos
XIII
Sou o réu confesso
olha-me a Imaculada
Manchei de fuligem preta
as freiras e padres
Mas eles levantaram para mim suas batinas
Por baixo suas roupas seguem brancas
Venha, somos as antigas noivas
me dizem
XXII
Estropiei minha cara tremenda
diante do espelho
te amo
me disse te amo
Te amo mais do que tudo no mundo
XXXIII
Garanto-lhes que não estou doente acreditem
Nem essas coisas me acometem com frequência
mas ocorreu que estava num banheiro
quando vi algo como um anjo
"Como está, cão ouvi-o me dizer
bom isso seria tudo
Mas agora as malditas lembranças
já nem me deixam dormir à noite
XLII
Trancado entre as quatro paredes do
banheiro: olhei para o teto
então comecei a lavar as muralhas e
o piso o mictório o que subia
É que vejam: Do lado de fora o céu era Deus
e chupava-me a alma sim, cara!
Limpava meus olhos embaçados
LXXXV
Rasparam minha cabeça
puseram em mim estes trapos de lã cinzenta
mamãe continua fumando
Eu sou Joana D'Arco
Me registraram em microfilme
XCII
O vidro é transparente como a água
Pavor dos prismas e dos vidros
Eu rodeio a luz para não me perder neles
C
Rompeu-se uma coluna: vi Deus
ainda que não acredite lhe digo
sim cara ontem domingo
o vi com os mesmos olhos desse voo
(Do livro "Purgatório")
TRECHO DO LIVRO-POEMA — "Canto ao seu amor desaparecido"
Os holofotes iluminavam o caminho. O amor de pai e mãe choraram todos e ao se abrirem as portas subindo recomeçou a balada. Do seu amor desaparecido correu buraco após olhos que não encontra. De lápide em lápide, de choro em choro, por covas foi, por sombras foi e foi assim
DEPOIMENTO DE JULIA MILLACURA
Eu acredito nos sonhos, senhorita. Não digo a ninguém porque dizem que são coisas de índia e zombam de mim. Mas nós oramos todas as manhãs: eu leio a Bíblia, o Apocalipse, os Números e lá estou com Deus. Ele diz que quem quer crer n'Ele que se ajoelhe, em qualquer lugar, onde estiver e então Ele irá se comunicar. É assim que se pensa em Deus, caminhando, cozinhando, caminhando por aí. Sempre pensando que Ele vive e que por isso vivemos. Então se sonha; Ele nos dá um sonho como um aviso porque está escrito que os velhos irão sonhar e os jovens terão visões. Eu sonhei que estavam me fazendo um rezo em mapuche, ou seja, era um velhinho que estava vestido assim, como antigamente, como meu pai, mas com o cabelo igual à neve e me dizia: "É assim que se reza em mapuche" e logo eu sonhava com trutrukas; que tocavam e era muito o som enquanto eu o rezava, muito bonito. Meu pai sempre ia me visitar na cidade, nos meus sonhos. Mas o último que eu sonhei foi muito mais, foi aterrorizante, queriam enterrá-lo vivo, mas eu conseguia tirá-lo de lá e então me despertei lembrando que ele não tem flores e que já está chegando novembro. Isso dizia o sonho, senhorita; que se deve colocar flores ao defunto porque Deus quer assim: Flores em novembro.
(Do livro "A vida nova")
Poema final
Então, esfregando a bochecha queimada
contra o cascalho áspero deste chão pedregoso
– como um bom sul-americano –
levantarei por mais um minuto meu rosto para o céu
chorando
porque eu que acreditei na felicidade
terei voltado a ver de novo as irrefutáveis estrelas"
(Do livro "Zurita")
"SUA VIDA QUEBRANDO-SE"
De Raúl Zurita
Seleção de poemas e organização: Francesca Cricelli e Ana Rüsche
Tradução de Francesca Cricelli
Editora Fósforo
360 páginas
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