Beatriz Sarlo reúne memórias que desconfiam da própria lembrança
Em fragmentos "duros e nítidos", autora argentina evita política e relembra a infância, Buenos Aires e os anos em que escreveu para jornais do seu país
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Há livros de memórias escritos como exercícios de lembranças. E há livros escritos para discutir com a própria lembrança. “Não entender”, da escritora argentina Beatriz Sarlo, pertence claramente ao segundo grupo. Ela abre seu livro póstumo com uma contradição proposital: “Não é um livro de memórias. É um livro de memórias”. É a partir dessa tensão, entre lembrar e desconfiar da lembrança, que Sarlo constrói os textos que ela mesma classifica como “duro e nítido”, sem espaço para o que chama de “sentimentalismo barato”.
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Nascida em Buenos Aires em 1942, Sarlo se tornou uma das intelectuais mais influentes e mais debatidas da Argentina: crítica literária, leitora fundamental de Borges, cofundadora em 1978 da revista “Punto de Vista” – publicação que resistiu à ditadura do país. Também foi, por décadas, uma presença assídua na imprensa como colunista de jornais como o “Clarín” e o “La Nación”. Apesar de todo esse destaque, ela evita deliberadamente o tema pelo qual ficou mais conhecida nos últimos trinta anos: “Nada da minha vida política entrou neste livro”, avisa. Sarlo morreu em Buenos Aires em 17 de dezembro de 2024, aos 82 anos. Ela havia entregue o original em abril daquele ano e ainda participou do processo editorial nos meses seguintes, mas não chegou a ver “Não entender” publicado.
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A seguir, trechos selecionados do livro.
“Os que me presenteavam com bonecas estavam convencidos de que a presença daqueles objetos típicos de uma infância“feminina” faria a indiferença desaparecer. Cheguei a sentir antipatia por conta da imposição, como teria sentido se o presente fosse uma bola de futebol, esporte para o qual eu não tinha nenhuma inclinação. Algo estava acontecendo naquela região desconhecida, tanto por mim quanto por aqueles ao meu redor; uma espécie de neutralidade, não um desejo de ser homem, mas de persistir naquele espaço neutro, onde sentia que eu era eu era eu era eu, sem outra qualificação. Uma rebelião ideológica e cultural ocorria lá no fundo, em áreas inacessíveis, que tampouco conheço agora.”
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“Eu vivia no mundo da lua, aquele satélite gelado que é a infância, onde não se entende nem se conhece nada e os esforços são inúteis porque, quando finalmente se consegue entender, já é arde demais. Nunca é tempo para aprender, ou melhor, o aprendizado é sempre tardio, fora de lugar, porque o lapso entre aprendizagem e realidade é sempre muito grande. Não existe sabedoria infantil, a não ser que se professe o culto à inocência, da qual sempre é possível desconfiar. Quando a menina que eu era achou que tinha entendido alguma coisa, tudo já havia mudado. Aquilo que ela aprendeu não lhe serviu, em retrospecto, para reordenar suas memórias. Pelo contrário, invalidou-as em caráter definitivo.
Hoje vejo as fotografias que vi na minha infância e não consigo reconhecer aquele meu olhar nem confiar na lembrança que elas me suscitaram. O perigo do anacronismo, da confiança ilimitada em que é possível lembrar “bem” está sempre à espreita, como se o tempo pudesse ser comprimido e quem recorda pudesse entrar numa cápsula que o transportasse ao passado e lá chegasse intacto.”
“Adorei Buenos Aires antes de saber, ou de reconhecer, que é possível adorar uma cidade com a mesma intensidade com que se ama um ser humano. Nunca consegui deixá-la por mais de seis meses seguidos, nem mesmo durante a ditadura militar. Se tivessem de me pegar, que fosse aqui e que tudo se acabasse. Adorava e ainda adoro o espanhol de Buenos Aires, que primeiro falei como uma garota de Belgrano e depois como uma intelectual suburbana. Mais do que qualquer outro espaço, Buenos Aires foi minha casa, embora eu também tivesse casa em Berlim, onde pensei que, num passado inexistente, eu tinha vivido uma juventude que, no entanto, havia sido inteiramente portenha.”
“Comecei a escrever regularmente na imprensa em meados de 1990. Quatro anos depois, estava publicando um artigo por semana na revista Viva, a dominical do jornal Clarín, onde tive a enganosa impressão de que quase todo mundo me conhecia.As cartas dos leitores contribuem para fomentar essa ilusão, porque, ainda que seja óbvio dizer isso, só escreve sobre o artigo quem o lê. O universo se reduz, assim, a alguns milhares que dão a ilusão de ser todos: uma professora que leu o texto para seus alunos do sexto ano em Chaco, um aposentado que o mostrou para a neta adolescente, uma mulher que o recortou para a filha. Foram cinco anos e mais de 250 artigos, um por semana, até que o jornal, ou eu, ou os dois nos cansamos.
Os amigos intelectuais e outros que se achavam superiores só porque muito de vez em quando iam ao teatro ou patrocinavam galerias de arte criticaram minha incursão no jornalismo dominical de massas. Hoje me resta a lembrança de bater perna pela cidade, conversar com desconhecidos, tirar uma foto para ter o material de onde, com trabalho e esforço, saía o artigo da semana. Algo que, como bem suplementar, me dava o pretexto para vagar por Buenos Aires, coisa que sempre fiz sem encontrar uma razão tão convincente quanto aquele trabalho.”
“Não entender - Memórias de uma intelectual”
• De Beatriz Sarlo
•Tradução de Elisa Menezes
• Companhia das Letras
•l 216 páginas
• R$ 89,90
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