Estudantes interrompem palestra e denunciam professor por assédio
Representantes do Grêmio Estudantil relatam barreiras para denunciar assédio e detalham a "invasão" necessária para serem ouvidos no IF de Brasília
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Um ato organizado por estudantes do campus Recanto das Emas do Instituto Federal de Brasília (IFB) interrompeu uma palestra sobre assédio e violência nas escolas na última terça-feira (19/5) para denunciar um professor da instituição. A mobilização ocorreu durante as atividades relacionadas ao Dia Nacional de Mobilização nas Escolas contra o Assédio e a Misoginia.
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Segundo relatos dos estudantes envolvidos no ato, a revolta surgiu após a presença de um professor acusado por alunas de assédio dentro da própria atividade que discutia violência de gênero e proteção de estudantes. Integrantes do Grêmio Estudantil afirmam que denúncias envolvendo o docente se arrastam há mais de quatro anos sem punição definitiva.
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Nos vídeos compartilhados pelos estudantes, dezenas de jovens aparecem ocupando o espaço da palestra, segurando cartazes e entoando palavras de ordem. “A nossa luta é todo dia! Assédio não é pedagogia!”, gritava o grupo durante a manifestação.
“Hoje a gente não vai aceitar que isso aconteça. A gente faz parte do Grêmio Estudantil e não vai deixar que as violências se perpetuem”, grita uma das estudantes.
“O movimento estudantil está bem aqui. E a gente não vai permitir que mais meninas sofram nos corredores. Chega de assédio. Silêncio também é agressão”, completou outra.
Os cartazes exibidos durante a manifestação traziam frases como “Silenciar os abusos é perpetuar a violência”, “Há mais de 4 anos e nada é feito”, “Lugar de assediador é na cadeia, não na escola” e “A escola tolera o assédio, mas não tolera as vozes dos alunos”.
Em outro vídeo divulgado nas redes sociais, representantes do movimento estudantil detalharam as motivações da ocupação. Uma estudante identificada como Liny, integrante do Grêmio e da coordenação da Ares-DFE (Associação dos Estudantes Secundaristas do DF e Entorno), afirmou que novas denúncias surgiram recentemente.
“Esse ano já houve mais de três denúncias. Há mais de quatro anos meninas vêm denunciando esse professor e ele continua presente dentro da escola”, declarou.
As estudantes também relataram tentativas de interrupção do ato. “Tentaram tirar o microfone, apagaram a luz para que a gente não continuasse com esse ato, tentaram falar para a gente parar com a ocupação. Mas isso não parou os estudantes”, afirmou uma das representantes.
Após a manifestação, estudantes disseram ter ido até a direção e à reitoria para cobrar esclarecimentos sobre o andamento do caso e reivindicar medidas mais rígidas.
Entre as exigências apresentadas pelo grupo estão o afastamento do professor citado, a criação de protocolos específicos para casos de assédio dentro dos Institutos Federais, a implementação de espaços de acolhimento às vítimas e mudanças no fluxo de atendimento de denúncias.
Em nota pública divulgada durante a semana, o Instituto Federal de Brasília reafirmou o compromisso institucional no combate a todas as formas de violência e destacou que possui uma Política de Prevenção e Combate ao Assédio e às Violências, aprovada pela Resolução nº 5/2025.
Segundo o IFB, denúncias podem ser encaminhadas por meio da Ouvidoria da instituição, através da plataforma Fala.BR, e casos envolvendo servidores podem resultar em sindicâncias investigativas ou processos administrativos disciplinares, seguindo normas da Controladoria-Geral da União.
A instituição afirmou ainda que os procedimentos observam sigilo, proteção às partes envolvidas e devido processo legal.
Até o momento, não foram divulgados detalhes públicos sobre a identidade do professor nem sobre o estágio exato do procedimento administrativo mencionado pelos estudantes.
Veja a nota completa:
“Em alusão à semana do dia 19 de maio — marcada nacionalmente como o Dia de Mobilização nas Escolas contra o Assédio e a Misoginia, iniciativa construída pelo movimento estudantil brasileiro — o Instituto Federal de Brasília (IFB) reafirma seu compromisso com a construção de uma instituição pública pautada no respeito, na inclusão, na diversidade, na dignidade humana e na promoção de uma cultura de paz.
Como instituição comprometida com a formação integral dos sujeitos, o IFB compreende que o ambiente educacional deve ser permanentemente construído como espaço seguro, acolhedor, democrático e livre de qualquer forma de violência, discriminação, assédio, intimidação ou violação de direitos. Nesse sentido, repudiamos toda prática de violência física, psicológica, moral, sexual, institucional, racista, LGBTfóbica, misógina, capacitista ou qualquer outra forma de discriminação que atente contra a dignidade das pessoas.
O IFB possui atualmente a Política de Prevenção e Combate ao Assédio e às Violências, aprovada pela Resolução nº 5/2025, documento institucional que estabelece diretrizes, princípios, estratégias de acolhimento, prevenção, orientação e encaminhamento de denúncias no âmbito da instituição. A política reafirma o compromisso institucional com a promoção de ambientes saudáveis, respeitosos e inclusivos, além da preservação da integridade de denunciantes, testemunhas e demais envolvidos nos processos de apuração.
A instituição dispõe de canal oficial para recebimento de denúncias por meio da Ouvidoria do IFB, responsável pela análise preliminar, tratamento e encaminhamento das manifestações às unidades competentes para apuração, bem como pelo retorno ao cidadão quando o registro não for realizado de forma anônima. As denúncias podem ser registradas na Plataforma Integrada de Ouvidoria e Acesso à Informação — Fala.BR.
Nos casos em que a situação relatada envolver denúncia contra servidor(a), o registro será encaminhado à unidade responsável pela análise preliminar e, quando aplicável, poderá resultar na instauração de sindicância investigativa ou processo administrativo disciplinar, nos termos das normativas da Controladoria-Geral da União (CGU) e demais legislações vigentes.
Para que as denúncias possam ser devidamente apuradas, é fundamental que apresentem o maior detalhamento possível dos fatos, incluindo informações sobre data, horário, local da ocorrência, identificação das pessoas envolvidas e eventuais testemunhas. O IFB reforça ainda que os processos de apuração observam o devido processo legal, o sigilo necessário e a preservação da integridade de todas as partes envolvidas.
Além dos fluxos formais de denúncia, o IFB conta com espaços institucionais de acolhimento e orientação, como os setores de Assistência Estudantil, Gestão de Pessoas, Núcleos de Gênero e Diversidade Sexual (NUGEDIS), Núcleos de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (NEABI) e Núcleos de Atendimento às Pessoas com Necessidades Educacionais Específicas (NAPNE), fortalecendo uma atuação institucional articulada no enfrentamento às violências.
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Por fim, o Instituto Federal de Brasília reafirma seu compromisso permanente com a promoção dos direitos humanos, da ética, da convivência respeitosa, da escuta qualificada e da construção coletiva de uma educação pública comprometida com a transformação social, o cuidado com as pessoas e o combate a todas as formas de violência.”