RECIFE, PE (FOLHAPRESS) - Tradições do carnaval de Pernambuco ajudam a explicar como a festa se organizou no estado e se consolidou como uma das mais reconhecidas do país.
O Galo da Madrugada, que neste ano prestará homenagem a Dom Helder Câmara, começou sua história como um baile de máscaras. Somente 18 anos depois foi que surgiu a escultura.
A figura da La Ursa, em que um personagem aparece fantasiado de urso, ganhou espaço em "O Agente Secreto", filme de Kleber Mendonça Filho e estrelado por Wagner Moura que concorre a quatro estatuetas do Oscar. Mendonça Filho também usou referências a ela em "Aquarius".
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Já o clube mais antigo em atividade é o Clube das Pás, fundado em 1888.
"A brincadeira da La Ursa tem registros espalhados por todo o interior de Pernambuco e não apenas no Recife e em Olinda. O filme dialoga com essa presença ampla da manifestação no estado. A figura do urso concentra sentidos ambíguos, entre o encantamento e o medo. Isso ajuda a explicar por que ele funciona tão bem como símbolo narrativo", explica a professora da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) Maria Acselrad, que lançou o curta "Os Ursos e Nós".
De acordo com ela, estudos indicam que a origem da La Ursa pode estar associada a tradições europeias, com referências à Europa Central e ao leste europeu, possivelmente trazidas ao Brasil por grupos ciganos ligados ao circo. Ao longo do tempo, a manifestação foi ressignificada no contexto local e passou a apresentar variações na dança, na musicalidade e na caracterização dos personagens.
No filme, o urso surge em mais de um momento da narrativa, incluindo a cena de chegada do protagonista a Pernambuco e outra associada a um pesadelo. Para a pesquisadora, a escolha dialoga com a forma como a figura é percebida historicamente.
"Ele pode ser visto como algo lúdico, mas também como uma assombração, e isso aparece claramente na relação das pessoas com a brincadeira."
Outra curiosidade histórica envolve o Galo da Madrugada, maior bloco carnavalesco do mundo, que nem sempre contou com a escultura gigante hoje associada ao desfile no Sábado de Zé Pereira.
Segundo Rogério Costa, um dos fundadores do bloco, o Galo saiu às ruas durante 18 anos sem qualquer alegoria monumental que o representasse visualmente.
A história do bloco será contada no livro "Ei pessoal! Vem moçada! A história do Galo da Madrugada", de autoria de Costa, com lançamento previsto para o segundo semestre deste ano.
Fundado em 1978, no bairro de São José, o Galo da Madrugada surgiu como um clube de máscaras voltado à valorização do frevo e do Carnaval de rua. Costa relata que, nos primeiros anos, a estrutura do desfile era simples e priorizava a ocupação do centro do Recife.
"A prioridade era colocar o bloco na rua, cedo, valorizando o frevo e a participação popular", lembra.
A primeira escultura de grandes dimensões associada ao Galo foi adotada apenas em 1995, em parceria com a prefeitura de Recife. Naquele ano, a alegoria foi instalada sobre uma balsa no rio Capibaribe, já perto da Ponte Duarte Coelho, marcando a incorporação de um elemento monumental ao desfile.
Em 1996, no ano seguinte, a escultura deixou o rio e passou a ser montada na própria Ponte Duarte Coelho. A mudança consolidou o local como ponto central do desfile e definiu o formato visual que se tornaria marca do Galo da Madrugada nos anos posteriores.
Já o título de grupo mais antigo em atividade em Pernambuco pertence ao Clube das Pás. Segundo a historiadora Carmem Lélis, esses clubes carnavalescos surgiram a partir de corporações de ofício e de trabalhadores urbanos do Recife, no final do século 19, após a abolição da escravatura. O segundo mais antigo é o Vassourinhas, fundado em 1889. O Clube dos Caiadores, que já não existe mais, é o primeiro que se tem notícia, fundado em 1886.
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"Alguns membros dessas corporações de trabalhadores se reuniam e aí começavam a criar bandos com cortejo. A partir daí, eles formavam esse cortejo mais numeroso, que depois, posteriormente, vai se chamar clube pedestre. E depois se chama clube carnavalesco misto, por conta da participação feminina. E desfilam pelas ruas e vão pela cidade. Nem sempre são constituídos de trabalhadores daqueles ofícios e também nem sempre trabalhadores, mas criados a partir deles", explica.
