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Ary Quintella
Ary Quintella, diplomata de carreira, escreve quinzenalmente no Estado de Minas. Publicou, em novembro de 2024, o livro de ensaios "Geografia do tempo"

Fantasia de carnaval

Seções inteiras eliminadas, como a de esportes e, do meu ponto de vista mais tragicamente, o caderno literário, "Book World". A morte de um periódico de literat

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As recentes notícias sobre as demissões no jornal “The Washington Post” viajam o mundo. Um terço dos jornalistas demitidos, inclusive vários correspondentes internacionais. Seções inteiras eliminadas, como a de esportes e, do meu ponto de vista mais tragicamente, o caderno literário, “Book World”. A morte de um periódico de literatura sinaliza que o interesse por livros é considerado pouco relevante.

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Na segunda metade da década de 1990, trabalhei em Washington. Foi meu primeiro posto. Assim que alugamos casa e nos instalamos, fazer uma assinatura do “Washington Post” foi prioridade. Ao encontrá-lo na soleira da porta, de manhã, considerávamos não estar apenas recolhendo um jornal; participávamos de um pedaço da história dos Estados Unidos e, por conseguinte, do mundo.

Era impossível não lembrar que aquele jornal defendera a democracia e o direito das pessoas à informação. Em 1971, lutara para publicar os “Pentagon Papers” sobre a Guerra do Vietnã e contribuíra para a eclosão, em 1972, do escândalo de Watergate, que levaria dois anos depois à renúncia de Richard Nixon. Durante nosso tempo em Washington, esses eram fatos relativamente recentes, de pouco mais de vinte anos. Watergate era muito presente na mente de todos. Lembro de ir uma noite a um compromisso social, por causa do meu trabalho, e de um conhecido, americano, me apontar um convidado, no outro lado do salão, e sussurrar: “Ele esteve envolvido em Watergate”.

Naturalmente, era aos domingos que o jornal chegava mais polpudo. Nesse dia, vinham inúmeros cadernos. “Book World” era o primeiro a receber minha atenção. Criado em 1972, fazia autoridade no meio literário e entre leitores. Na nossa biblioteca de mais de seis mil volumes, muitos foram comprados por causa de resenhas ali publicadas. Ler as do crítico Michael Dirda era um prazer especial. É possível encontrar, na internet, textos bem- humorados seus, publicados nos últimos anos, narrando suas experiências na redação do suplemento.

Meu exemplar da autobiografia da então proprietária do jornal, Katharine Graham, “Personal History”, está inencontrável. Suponho que o livro, publicado em 1997 e ganhador de um Prêmio Pulitzer em 1998, esteja em uma das caixas até hoje não abertas, por falta de espaço, depois da última mudança, a do ano passado. Lembro que a autora conta como foi ter de passar a comandar um jornal, em uma época em que era raro, como aliás em todas as épocas e ainda hoje, ver mulheres em posições de poder.

Katharine Graham também fala no diplomata Luiz Martins de Souza Dantas, casado com sua tia Elise Meyer, que foi embaixador na França durante a Segunda Guerra Mundial, e um dos dois únicos brasileiros reconhecidos como “Justo entre as Nações” — sendo a outra Aracy Guimarães Rosa. Souza Dantas é objeto de uma biografia pelo historiador Fábio Koifman, de 2002, “Quixote nas trevas”. O autor retrata os preconceitos dos colegas do embaixador, críticos de seu casamento em 1933 com Elise Meyer, por ela já não ser jovem. Depreende-se das fontes citadas que a fortuna da nova embaixatriz incomodava o Itamaraty.

Na ausência da autobiografia de Katharine Graham, contento-me com a de Ben Bradlee, “A Good Life”, de 1995. Editor do Washington Post de 1965 a 1991, Bradlee narra a ascensão do jornal à posição de um dos mais importantes do mundo, contribuindo para esse resultado o papel que desempenhou nas revelações de Watergate. Bradlee se pergunta qual teria sido, “exatamente”, o papel do Post.

A resposta, explica, é que “a energia do jornal, e especialmente o talento e a persistência de Bob Woodward e Carl Bernstein, fixaram Watergate para sempre na história. Juntos, deixamos o assunto na agenda nacional. E assim, a arrogância e a imoralidade dos homens em volta de Richard Nixon ficaram gradualmente patentes”. Segundo Bradlee, durante o desenrolar da cobertura do escândalo, uma vez Katharine Graham lhe perguntou, com bastante propriedade: “se essa história é tão importante, cadê o resto da imprensa?”.

Bradlee nada fala, infelizmente, da criação do suplemento literário nem menciona seus editores. Criado no mesmo ano em que homens a mando da Casa Branca forçaram a porta, no edifício Watergate, do escritório do Comitê Nacional Democrata para espioná-lo, o “Book World” talvez tenha parecido ao editor um dado menor frente às circunstâncias políticas de então.

Enquanto eu, na minha inocência, mergulhava em Washington, contente, nas páginas do jornal e de seu caderno literário, o futuro assomava-se timidamente. A internet engatinhava. Em 1995, Jeff Bezos criava a página eletrônica da Amazon. De início, a empresa vendia apenas livros. Em 1996, lá fiz a minha primeira compra eletrônica, uma obra sobre a história cultural da Rússia. É mais tarde que a Amazon passa a fornecer martelo, areia de gato, roupa e liquidificador; basicamente, qualquer produto.

O oligarca americano possui hoje uma fortuna estimada em 250 bilhões de dólares. Em 2013, adquire o Washington Post; em 2026, demite a terça parte dos seus jornalistas. Nas páginas do Estado de Minas, o jornalista João Renato Faria mencionou outro dia a ironia de alguém fazer fortuna vendendo livros, e décadas depois eliminar o suplemento literário de seu jornal. O Estado de Minas preserva, aliás, o seu renomado caderno “Pensar”.

No O Globo de domingo passado, Dorrit Harazim analisava as razões financeiras e políticas para a mutilação do grande jornal. Quanto a mim, eterno otimista, penso com alguma esperança em “Book World”. O caderno havia deixado de ser impresso anteriormente, em 2009, ainda na gestão do filho de Katharine Graham, continuando porém a existir na versão eletrônica, o que não acontecerá mais agora. Curiosamente, foi na mão de Jeff Bezos que ressurgiu como suplemento impresso, em 2022.
Quem sabe se, daqui a alguns anos, o “Book World” não voltará, de alguma maneira, permitindo fantasiar que os livros, afinal, não são apenas uma mercadoria dispensável.

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* Diplomata de carreira, o embaixador Ary Quintella escreve quinzenalmente para o Estado de Minas. Seu livro “Geografia do tempo” foi, em 2025, finalista do Prêmio Jabuti.

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade exclusiva do(a) autor(a) e não refletem, necessariamente, o posicionamento e a visão do Estado de Minas sobre o tema.

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