BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - A manifestação bolsonarista realizada neste domingo (25) em Brasília consolidou o deputado Nikolas Ferreira (MG) como uma espécie de cabo eleitoral nacional do PL. A avaliação na sigla é que o senador Flávio Bolsonaro (PL) precisará encaixar bem o parlamentar na sua campanha à Presidência se quiser ter sucesso. Já auxiliares do presidente Lula (PT) minimizam a mobilização.
A expectativa às vésperas da manifestação era de um encontro com poucos apoiadores, principalmente diante da forte chuva no Distrito Federal no fim de semana. O resultado surpreendeu, com 18 mil pessoas presentes, segundo levantamento do Monitor do Debate Político do Cebrap e a ONG More in Common.
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Na avaliação de uma ala do PL, o resultado reforçou o poder de mobilização de Nikolas num momento de baixa da direita. Aliados querem que ele repita em 2026 o papel de cabo eleitoral nos estados, fora de Minas Gerais, para alavancar candidaturas. Em 2024, o parlamentar viajou o país para ajudar aliados.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), foi um dos aliados que exaltaram a atuação do deputado federal.
A marcha que o parlamentar puxou de Paracatu (MG) angariou políticos e gerou conteúdo nas redes durante sete dias. O êxito, dizem aliados, levou a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro a apoiar da manifestação. Ela havia sido aconselhada a não fazer parte, diante das tratativas com o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes para transferência do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) para a prisão domiciliar.
O gesto, porém, serviu para mostrar unidade após recentes atritos na direita bolsonarista, exposta na semana anterior. A ex-primeira-dama causou confusão na pré-campanha de Flávio ao compartilhar um vídeo do governador Tarcísio em tom de candidato à Presidência.
A cizânia aumentou quando Tarcísio cancelou a visita que faria a Bolsonaro na quinta-feira (22), num gesto entendido como uma tentativa de distanciamento do ex-chefe. O governador, até então, demonstrava reticência em embarcar na pré-campanha de Flávio e foi avisado que o ex-presidente lhe daria um ultimato para abandonar qualquer pretensão nacional.
O desfecho foi o agendamento de uma nova visita e um posicionamento público do governador em defesa de Flávio. Nesta segunda (26), em entrevista à Jovem Pan, Nikolas disse apoiar a candidatura do filho do ex-presidente, mas também defendeu quem não segue à risca as orientações de Bolsonaro, sem citar nomes.
"O único líder da direita já deu a bênção para o filho dele, o Flávio. Isso está cristalino", afirmou Nikolas.
Ele disse também: "Fica uma picuinha. Bolsonaro é o líder da direita, claro que ele é. Mas as pessoas acham que temos que concordar 100%, caso contrário se torna um traidor. Essa é uma argumentação e postura que só afasta as pessoas. (...) Se for assim, você coloca uma pessoa na posição de idolatria. Eu não idolatro Bolsonaro. Eu o sigo, admiro, mas também não quero ser idolatrado".
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Nesta segunda (26/1), ao ser questionado sobre a caminhada, o governador Tarcísio disse que o ato expressa um "clamor amplo da sociedade" e funciona como um termômetro da insatisfação.
"A gente fala muito da crise fiscal, que está contratada e vai travar o crescimento do Brasil, mas pior do que a crise fiscal é a crise moral. E essa a gente precisa cuidar, porque vai arruinar as instituições", afirmou o governador.
"Vamos continuar lutando por isso porque é algo que vai trazer por uma pessoa que tem problema de saúde, tem comorbidade, tem mais de 70 anos", afirmou Tarcísio, referindo-se ao ex-presidente Bolsonaro.
O governador chamou o deputado do PL de "grande promessa". Disse ainda que a caminhada foi um ato "corajoso", por ter começado com pouca adesão e ganhado apoio ao longo do percurso.
"Um grande movimento liderado pelo Nikolas, que é realmente um fenômeno, é uma grande liderança. É um menino ungido, posso falar assim, sou bem mais velho que ele, com 29 anos, com essa capacidade de comunicação e de mobilização."
Governo minimiza
O ministro da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos (PSOL), disse à Folha que o ato foi mobilizado pelo parlamentar para desviar o foco do envolvimento de igrejas evangélicas no escândalo do Banco Master.
"Esse Nikolas é malandro. Cada vez que um escândalo chega perto dele, inventa uma pra desviar a atenção. Primeiro, foi pra desviar do primo preso com droga. Agora essa caminhada patética pra desviar do vínculo da sua igreja com o banco Master. Vamos ver agora qual vai ser a próxima pataquada do rapaz", declarou.
Sob reserva, auxiliares do presidente Lula reconhecem a mobilização feita por Nikolas. Apesar disso, não consideram a manifestação como um sinal de alerta e afirmam que o ato reuniu uma quantidade menor que a direita gostaria que fosse.
Na avaliação desses auxiliares, o raio que atingiu manifestantes também ajudou a reduzir o alcance da pauta levantada na manifestação, apesar de se tratar de um elemento aleatório. O líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), tratou o incidente como resultado de falta de responsabilidade dos organizadores.
"Irresponsabilidade tem nome. Levar pessoas para as ruas em meio a chuva, raios e trovões, colocando vidas em risco, tudo para pedir impunidade, é brincar com a segurança alheia. O resultado está aí: dezenas de feridos, famílias em angústia e ninguém assumindo a culpa", disse o parlamentar.
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O líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias (RJ), foi na mesma linha. "Do começo ao fim, a 'marcha' do Nikolas foi marcada pela irresponsabilidade. Saiu caminhando pela BR-040 sem comunicar PRF (Polícia Rodoviária Federal), Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) ou autoridades competentes, fechou pista, ocupou a via, teve até helicóptero pousando na borda da estrada. Brincou com a vida das pessoas", escreveu o parlamentar.
