Uma década de pesquisas, desenvolvimento de imunizantes e articulação entre universidades, governo e indústria farmacêutica marca os dez anos do Centro de Tecnologia de Vacinas (CTVacinas) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). A instituição comemora a trajetória com um encontro de três dias, até sexta-feira (6/11), em Belo Horizonte, que reúne mais de 100 pesquisadores de diferentes regiões do país para apresentar resultados científicos e discutir os desafios de transformar descobertas de laboratório em produtos disponíveis para a população. Entre os principais avanços estão a SpiN-TEC, vacina contra a COVID-19 que concluiu os ensaios clínicos de fase 2, e a Vivaxin, desenvolvida contra a malária causada pelo Plasmodium vivax, que recebeu autorização para iniciar testes em seres humanos.

A programação também coloca em pauta o fortalecimento da capacidade brasileira de desenvolver e produzir tecnologias em saúde. Pesquisadores, representantes do Ministério da Saúde, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) e de empresas farmacêuticas participam das atividades, que incluem discussões sobre políticas científicas, inovação e os caminhos para que produtos desenvolvidos em instituições nacionais avancem até a fabricação e a incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS).

O encontro celebra também os 20 anos do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Vacinas (INCT Vacinas), iniciativa que deu origem ao CTVacinas. Coordenador do centro, o pesquisador Ricardo Gazzinelli explica que a criação da estrutura, há dez anos, respondeu a uma dificuldade recorrente na pesquisa brasileira: fazer com que os resultados obtidos nas universidades ultrapassassem a etapa experimental e chegassem aos testes clínicos.

"Você concebe um produto na universidade, mas, a partir daí, precisa conseguir levá-lo até os testes clínicos, com a expectativa de chegar à indústria e à sociedade", afirma.

Segundo Gazzinelli, antes da criação do CTVacinas, diversos projetos desenvolvidos no âmbito do INCT Vacinas permaneciam restritos aos laboratórios universitários. Embora avançassem nos estudos pré-clínicos, muitos não encontravam estrutura para percorrer as etapas seguintes de desenvolvimento. O centro surgiu justamente para preencher essa lacuna, oferecendo condições para transformar descobertas científicas em protótipos de vacinas e testes diagnósticos, além de viabilizar a realização de ensaios clínicos.

A proposta é aproximar diferentes etapas de uma cadeia que envolve pesquisa básica, desenvolvimento tecnológico, avaliação de segurança e eficácia, produção industrial e, quando possível, disponibilização dos produtos à população. "Grande parte dos nossos produtos almeja o uso pelo Sistema Único de Saúde", destaca o coordenador.

Da pesquisa contra a COVID-19 à vacina contra a malária

Um dos projetos que melhor representam a trajetória do centro é a SpiN-TEC, desenvolvida pela UFMG para combater a COVID-19. O imunizante é considerado a primeira vacina contra a doença desenvolvida integralmente no Brasil. A experiência acumulada durante o projeto também contribuiu para estruturar os procedimentos necessários ao desenvolvimento de outros produtos, como a Vivaxin.

A SpiN-TEC já concluiu os estudos clínicos de fases 1 e 2. Nessas etapas, os pesquisadores avaliaram aspectos como segurança e capacidade de provocar uma resposta imunológica. O próximo passo é a fase 3, que depende de autorização para ser iniciada. Essa etapa é necessária para ampliar a avaliação do imunizante em seres humanos e reunir informações adicionais sobre sua eficácia e segurança.

Para Gazzinelli, o desenvolvimento da vacina contra o coronavírus teve importância que ultrapassa o próprio imunizante. O projeto permitiu que a equipe adquirisse experiência em diferentes fases da produção de uma vacina, desde a concepção da tecnologia até os procedimentos exigidos para os testes clínicos. "Foi ela que nos ensinou o caminho das vacinas, incluindo a Vivaxin", afirmou o coordenador em apresentação sobre os projetos do centro.

A Vivaxin, é uma vacina desenvolvida para prevenir a malária causada pelo parasita Plasmodium vivax. Diferentemente de outras iniciativas internacionais voltadas à malária causada pelo Plasmodium falciparum, a pesquisa da UFMG tem como foco uma espécie responsável pela maior parte das infecções registradas no Brasil.

O primeiro ensaio clínico, de fase 1, está previsto para ser realizado no Centro de Pesquisas Clínicas do Hospital das Clínicas da UFMG, em Belo Horizonte. O protocolo prevê a participação de 48 voluntários saudáveis, com idades entre 18 e 59 anos, que não tenham tido infecção anterior por malária. Serão avaliadas diferentes dosagens do imunizante, com grupos que receberão a vacina e outros que receberão placebo. O acompanhamento dos participantes deverá durar aproximadamente um ano.

Nessa primeira fase, o objetivo principal não é comprovar a proteção contra a doença, mas avaliar a segurança, as possíveis reações e a capacidade de estimular o sistema imunológico. Os resultados servirão de base para o planejamento das etapas seguintes, nas quais será necessário investigar se a vacina consegue efetivamente prevenir a infecção.

A autorização da Anvisa foi anunciada após uma visita do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ao CTVacinas, em outubro. Na ocasião, ele destacou a importância de ampliar a infraestrutura nacional de desenvolvimento de imunizantes e lembrou que a malária continua sendo um problema de saúde pública, especialmente na Amazônia. Segundo dados apresentados pelo Ministério da Saúde, a forma causada pelo P. vivax registrou 9,9 milhões de casos no mundo em 2024.

O Ministério da Saúde prevê investimento de R$ 12 milhões para financiar as três fases dos testes clínicos da vacina. A continuidade do projeto dependerá dos resultados obtidos em cada etapa e das avaliações necessárias para que o produto possa avançar no processo de desenvolvimento.

Tecnologia de RNA amplia possibilidades

Além dos imunizantes contra a COVID-19 e a malária, o CTVacinas trabalha para ampliar sua atuação em uma área que ganhou projeção internacional durante a pandemia: as tecnologias baseadas em RNA. A proposta é utilizar essa plataforma para desenvolver vacinas e terapias capazes de responder a diferentes doenças, com possibilidade de adaptação dos produtos de acordo com as necessidades epidemiológicas.

Em março deste ano, a UFMG anunciou que o CTVacinas foi selecionado para implementar e coordenar o Centro de Competência em Vacinas e Terapias com RNA. A iniciativa é conduzida pelo Ministério da Saúde em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) e tem como objetivo fortalecer a capacidade brasileira de desenvolver tecnologias avançadas em saúde.

O projeto prevê investimento de R$ 60 milhões ao longo de quatro anos, com aporte equivalente do próprio CTVacinas. A estrutura começou a ser implantada no Parque Tecnológico de Belo Horizonte (BH-TEC), onde o centro já desenvolve parte de suas atividades, e deverá ser ampliada com a expansão das instalações do Centro Nacional de Vacinas (CNVacinas).

A iniciativa reúne pesquisadores da UFMG e da USP, além de instituições e centros de pesquisa dos Estados Unidos. A coordenação da área de competência está sob responsabilidade da professora Santuza Teixeira, integrante do comitê gestor do projeto.

Entre as prioridades estão o desenvolvimento de vacinas contra malária e influenza. Também estão previstas pesquisas relacionadas a doenças como Chagas, leishmaniose e chikungunya. No caso da gripe, a tecnologia permite atualizar com maior rapidez a composição dos imunizantes para acompanhar mudanças nos vírus em circulação.

O RNA mensageiro ganhou destaque mundial com as vacinas utilizadas durante a pandemia de COVID-19. De maneira simplificada, essa tecnologia utiliza uma molécula que leva às células instruções para produzir uma proteína específica, que será reconhecida pelo sistema imunológico. A partir desse contato, o organismo pode desenvolver uma resposta de defesa sem precisar ser exposto ao agente infeccioso completo.

Pesquisas também envolvem diagnósticos e imunologia

A atuação do CTVacinas não se limita à produção de vacinas. O centro também desenvolve testes diagnósticos para doenças infecciosas e mantém pesquisas básicas sobre o funcionamento do sistema imunológico, os mecanismos de resistência a infecções e a relação entre respostas imunológicas e tumores.

"Alguns dos testes desenvolvidos pelos pesquisadores já alcançaram a etapa de registro e estão em processo de transferência para o Ministério da Saúde, para que possam ser utilizados no diagnóstico de doenças", conta Gazzinelli. 

Outro trabalho de destaque envolve pesquisadoras do centro que lideraram um estudo publicado na revista científica Nature. A pesquisa identificou antígenos que podem contribuir para o desenvolvimento de uma vacina capaz de oferecer proteção mais ampla contra diferentes espécies e fases do parasita causador da malária.

Encontro reúne pesquisadores e representantes do setor produtivo

A programação dos dez anos do CTVacinas começou na quarta-feira (4/11) e terminou nesta sexta-feira (6/11), com uma abertura às 10h, no Centro de Atividades Didáticas 3 (CAD3) da UFMG. À tarde, a partir das 14h, as atividades foram realizadas no BH-TEC, com um debate sobre políticas científicas e os desafios para fortalecer a produção nacional de vacinas e tecnologias em saúde. A organização se manteve a mesma ao longo dos três dias. 

Entre os participantes estavam Igor Bueno, diretor do Departamento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde do Ministério da Saúde, além de representantes da Fapemig e das farmacêuticas Hipolabor e Eurofarma. A presença de integrantes do governo, de instituições de fomento e da indústria busca aproximar os diferentes setores envolvidos no desenvolvimento e na fabricação de produtos para a saúde.

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Ao longo dos três dias, mais de 100 pesquisadores vinculados ao CTVacinas e ao INCT Vacinas participaram da programação.

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