Até dezembro deste ano, Belo Horizonte vai avançar na implantação de semáforos inteligentes, que prometem melhorar o fluxo do trânsito e reduzir o tempo de viagem dos ônibus na capital mineira. A expansão do sistema promete alcançar metade dos cruzamentos semaforizados da cidade e acontece após um projeto-piloto nas ruas Niquelina e Domingos Vieira, no Bairro Santa Efigênia, na Região Leste, registrar aumento de 30% na velocidade dos coletivos e economia de cerca de três minutos no percurso de 2,6 quilômetros do corredor durante seis meses de teste no horário de pico pela manhã.

Os resultados e o planejamento para a expansão do sistema foram apresentados pela Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) nessa quinta-feira (22/10), durante reunião da Comissão de Mobilidade Urbana, Indústria, Comércio e Serviços da Câmara Municipal (CMBH). Implantado em maio deste ano, o projeto-piloto foi testado em nove cruzamentos das ruas Niquelina e Domingos Vieira, com foco na prioridade de passagem dos ônibus.

Antes da instalação dos equipamentos, a velocidade média dos ônibus no corredor era de 9,8 quilômetros por hora. Para percorrer o trecho, os coletivos levavam pouco mais de 13 minutos. Com a nova tecnologia, além do aumento de 30% na velocidade, 33% das passagens dos ônibus pelos cruzamentos monitorados receberam prioridade semafórica. Segundo os dados apresentados pela PBH, a medida beneficia diariamente 8.874 passageiros.

O impacto também foi observado no trânsito dos demais veículos. Durante o pico da manhã, o congestionamento na Rua Niquelina caiu 17%. Já na Rua Domingos Vieira a redução foi de 13,5% no pico da tarde. De acordo com a prefeitura, não foram identificados aumentos significativos nos congestionamentos das vias que cruzam o corredor.

Como funciona a tecnologia

O projeto foi implantado em nove cruzamentos das ruas Niquelina e Domingos Vieira pela Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana, pela Empresa de Transporte e Trânsito de Belo Horizonte (BHTrans) e pela Empresa de Informática e Informação de Belo Horizonte (Prodabel).

O sistema utiliza uma tecnologia chamada laço virtual, que permite identificar a aproximação dos ônibus sem a necessidade de instalar sensores físicos no asfalto. Para isso, câmeras inteligentes e algoritmos de visão computacional monitoram o tráfego e reconhecem os coletivos que se aproximam dos cruzamentos.

A partir dessa identificação, a programação dos semáforos pode ser alterada para favorecer a passagem dos ônibus. O equipamento antecipa a abertura do sinal verde ou amplia o tempo em que ele permanece aberto, de acordo com as condições monitoradas.

Segundo o subsecretário municipal de Gestão Administrativa, Tecnologia e Inovação da Mobilidade, Lucas Colen, a proposta é reduzir o tempo perdido pelos coletivos nos cruzamentos, sem provocar impactos relevantes na circulação das demais vias.

“Claro que esses resultados não serão os mesmos para toda a cidade. Cada local vai ter uma solução própria, mas podemos falar que os ganhos são significativos”, afirmou.

A avaliação dos resultados do corredor será importante para orientar as próximas etapas. A expectativa é que a tecnologia seja adaptada às características de cada região, considerando o fluxo de veículos, a circulação de ônibus e as condições dos cruzamentos.

Expansão para a cidade

Belo Horizonte tem mais de 1,1 mil cruzamentos com semáforos. O plano apresentado pela prefeitura prevê ampliar a tecnologia em duas etapas, com a integração dos equipamentos ao Centro Integrado de Operações de Belo Horizonte (COP-BH).

A primeira fase deve ser concluída até dezembro deste ano e contempla 576 controladoras semafóricas, unidades responsáveis por controlar a programação dos sinais. O número representa aproximadamente 50% dos cruzamentos semaforizados da capital. A etapa tem orçamento de R$ 10 milhões.

A segunda fase está prevista para 2027 e deve contemplar os cruzamentos restantes, com investimento a partir de R$ 35 milhões. A expansão pretende permitir que os equipamentos sejam acompanhados de forma integrada pelo COP-BH.

Com a conexão dos semáforos ao centro de operações, a prefeitura espera acelerar a identificação e a solução de problemas, como sinais que ficam piscando, equipamentos apagados ou falhas de comunicação. A integração também deve facilitar o acompanhamento do funcionamento dos dispositivos e a resposta a ocorrências que prejudicam o trânsito.

Durante a reunião, a vereadora Marcela Trópia (Novo), autora do requerimento que solicitou o debate, afirmou que a sincronização dos semáforos é uma demanda antiga dos moradores da capital. Para ela, a falta de coordenação entre os sinais contribui para a sensação de lentidão em diferentes pontos da cidade.

“Eu cresci ouvindo minha mãe falar que odiava passar na Avenida Afonso Pena, porque era um 'acelera e freia' danado. Depois que comecei a dirigir, tive a mesma percepção em inúmeros cruzamentos da cidade. Ficamos com a impressão de que a cidade tem um excesso de semáforos, mas muitas vezes é porque eles são desordenados”, relatou.

A vereadora também destacou que, embora a prioridade inicial seja o transporte coletivo, os efeitos da tecnologia podem alcançar outros usuários das vias, como motoristas particulares, condutores de aplicativos e profissionais de entrega.

Sistema pode ganhar novas funções

A possibilidade de ampliar as funções dos equipamentos também foi discutida pelos vereadores. Presidente da Comissão de Mobilidade Urbana, Indústria, Comércio e Serviços, Braulio Lara (Novo) questionou se o sistema poderá receber atualizações para executar outras tarefas no futuro, como as funções de monitoramento de segurança pública associadas ao programa Muralha BH.

A preocupação é evitar que a prefeitura precise investir novamente na compra de uma estrutura tecnológica mais completa caso surja a necessidade de ampliar o uso das câmeras.

Representante da Prodabel, Thiago Souza Dutra afirmou que a tecnologia permite atualizações para incorporar outras funcionalidades. Entre as possibilidades está o monitoramento de pedestres, que poderá ser testado para identificar pessoas aguardando para atravessar as ruas.

“Inclusive, iremos testar a tecnologia para instalar câmeras de monitoramento de pedestres, para eliminarmos os botões de acionamento por quem está aguardando na via”, afirmou.

Atualmente, em cruzamentos equipados com esse tipo de dispositivo, o pedestre precisa apertar um botão para solicitar a abertura do sinal destinado à travessia. A proposta apresentada pela Prodabel é avaliar se o monitoramento por câmeras poderá substituir esse mecanismo.

A ampliação das funções, no entanto, depende dos testes e das decisões sobre a implementação dos recursos. Na reunião, a prefeitura concentrou a apresentação nos resultados obtidos com a priorização dos ônibus e no cronograma de integração dos semáforos ao centro de operações.

Benefícios além dos ônibus

A proposta dos semáforos inteligentes é atuar sobre um dos fatores que interferem na fluidez do trânsito: o tempo de espera nos cruzamentos. Ao ajustar os sinais conforme a aproximação dos coletivos, o sistema busca diminuir as paradas e tornar os deslocamentos mais regulares.

Os resultados do Santa Efigênia indicam que a mudança pode produzir efeitos tanto no transporte público quanto no fluxo geral de veículos. A redução do congestionamento nas duas ruas monitoradas foi registrada mesmo com a prioridade concedida aos ônibus.

A expansão, contudo, exigirá adaptações. Como os resultados dependem das condições de cada corredor, os índices alcançados no projeto-piloto não representam uma garantia de que todas as regiões terão a mesma redução no tempo de viagem ou no congestionamento.

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* Estagiária sob supervisão da editora Ellen Cristie. 

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