“Eu converso com as pessoas da minha idade e as incentivo a voltar para a escola. Precisamos muito de educação, pois sem ela não temos nada”, afirma José Maria Borges, de 92 anos, aluno da Educação de Jovens e Adultos (EJA), na Escola Municipal Anne Frank, no Bairro Confisco, na Região da Pampulha. Nascido em 23 de setembro de 1934, o estudante foi homenageado com uma festa surpresa organizada pela instituição de ensino e pela Secretária de Educação de Belo Horizonte na última quarta-feira.
A história de José Maria e seu gosto pelos estudos inspiram familiares e amigos. Segundo a PBH, na capital mineira, a EJA atende a 6.688 estudantes de 15 a 102 anos, dos quais 37 têm mais de 90 anos.
A celebração surpreendeu o nonagenário: “Fui chegando na sala, ela estava toda decorada. Não imaginava que era para mim. Até que chegaram e me disseram: ‘Essa festa é toda sua’”, comenta emocionado. O atleticano, fã do atacante Hulk, ganhou uma camisa personalizada do Galo com o número 92 nas costas, que remete à sua idade, e um caderno personalizado com o rosto dele.
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José nasceu em São João Evangelista, no Vale do Rio Doce. Quando tinha 36 anos, se mudou para Machacalis, no Vale do Jequitinhonha, cidade onde conheceu a esposa, Maristela Almeida Borges, de 76. Os primeiros anos de matrimônio entre o casal foram vividos na zona rural da cidade.
Depois de um tempo, eles resolveram se mudar e tentar a vida em BH. No primeiro momento, apenas Maristela e a primeira filha, Valquíria, hoje com 53, viajaram para a capital mineira. Em 1975, em decorrência da saudade, José resolveu encontrá-las em Belo Horizonte e começou a trabalhar como servente de pedreiro na área da construção civil.
O atleticano José é fã do atacante Hulk e ganhou uma camiseta personalizada com o número da idade nas costas
A família morou de aluguel em diferentes lugares da cidade, até se estabelecer no Bairro Confisco. Mesmo que tenha tido essa experiência em diferentes regiões da capital, a dificuldade em ler o deixava perdido em muitos momentos. “Aprendi a andar em Belo Horizonte a pé, porque se arriscasse ir de carro eu não saberia ir para lugar nenhum. Hoje estou bem, mas me perdia na cidade direto”, conta José.
Inspiração para a família
A vontade de começar a estudar do estudante contagiou a família inteira. Além de Valquíria, José tem mais três filhas: Vanessa Borges, de 49; Valéria Borges, de 45; e Vanda Borges, de 44. Também é avô de cinco netos.
Vanessa contou que, após a aposentadoria, o pai começou a passar por alguns problemas de saúde, situações que ele nunca havia vivenciado. Foi nesse momento que ele resolveu retornar para a escola.
“Ele queria aprender a ler, sempre falou isso, e não foi por iniciativa da família. Ele procurou sozinho a escola. A única coisa que nós fizemos foi preparar os documentos para a matrícula dele”, conta Vanessa.
Ele iniciou a trajetória na EJA na Escola Municipal Professora Alice Nassif, onde estudou até 2016. A unidade de ensino deixou de ter a modalidade de ensino, o que o fez ter de interromper os estudos provisoriamente. Em 2019, iniciou a trajetória na Anne Frank, instituição que está até hoje.
José sempre incentivou que as filhas estudassem. A idade não foi empecilho. “Todas nós, exceto a caçula, concluímos a faculdade depois dos 40 anos. A minha irmã mais velha concluiu a faculdade aos 48 anos; eu, aos 47; e a do meio agora; aos 45 anos de idade”, detalha Vanessa.
Elogiado por professores
Na sala de aula, José confessa que gosta de estudar matemática e que as habilidades com a matéria são elogiadas pelos professores. A pedagoga Vera Lúcia Silva Mesquita, de 62, elogiou a vontade do aluno e a gentileza com os profissionais da escola.
“O senhor José é um aluno super aplicado e assíduo. Tenta fazer tudo que propomos, seja de matemática ou de qualquer outro conteúdo. Quando ele tem alguma dificuldade, pede ajuda e aceita de pronto. Qualquer pessoa que queira sentar ao lado dele, que lhe explique, ele sempre aceita com aquele sorriso, com essa carinha boa”, destaca a professora.
A educadora narrou como foi feita a festa na última semana e como a simpatia do estudante atraiu homenagens da comunidade escolar.
“É maravilhoso! Ele participou, a família esteve presente, os alunos, os amigos prestigiaram. Tinha uma aluna que estava sumida da escola. Comentei com ela: ‘Vai ter uma festa do senhor José, você era tão amiga dele e poderia vir’. Ela fez questão de comparecer. A decoração estava linda, tudo com muito capricho, com muito esmero. Foi muito bom ter participado!”, explica a professora.
EJA em BH
A gerente da Educação de Jovens e Adultos (EJA), Nesir Freitas da Silva, de 46, destacou que a intenção da modalidade de ensino é ofertar uma educação pública de qualidade, democrática para aqueles que por algum motivo estiveram afastados do contexto escolar. As matrículas acontecem a qualquer tempo e as pessoas, a partir de 15 anos, podem se inscrever.
Gerente da Educação de Jovens e Adultos (EJA), Nesir Freitas da Silva, José Maria e a filha Vanessa: inspiração para a comunidade e para a família
“A importância da Educação de Jovens e Adultos é trazer a população que teve os direitos educacionais violados para esse universo de ensino”, afirmou. “Vivemos em um mundo letrado e essas pessoas vão trazer o seu conhecimento de vida, além de ter a oportunidade de acessar, permanecer e aprender”, narra Nesir.
A gerente destacou que o sistema EJA oferece cursos de profissionalização aos alunos dessa modalidade de ensino. Para que seja feita a matrícula, o estudante deve levar uma documentação para fazer a matrícula.
“A educação de jovens e adultos é uma função equalizadora para que as oportunidades cheguem a todos e é também emancipatória porque o conhecimento liberta”, enfatiza “Sempre há tempo de aprender. Em nossas escolas, temos turmas em todos os horários, manhã, tarde e noite, além de classes fora das escolas", destaca Nesir Freitas.
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* Estagiário sob a supervisão da subeditora Tetê Monteiro
