Em visita a BH, Padilha diz que SUS seguirá tratando efeitos das bets
Em coletiva neste sábado, ministro da Saúde afirmou que governo fará busca ativa de pessoas afetadas pelo vício e manterá atendimento psicológico e psiquiátrico; Damião lembrou medidas adotadas pela capital
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O fim das bets não encerra o problema para quem já desenvolveu dependência em jogos on-line. A avaliação foi feita pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, neste sábado (26/9), em Belo Horizonte, durante coletiva ao lado do prefeito Álvaro Damião (União). Um dia depois do presidente Lula (PT) editar uma medida provisória que determina o fim das apostas de quota fixa no Brasil, Padilha afirmou que o Sistema Único de Saúde (SUS) manterá o atendimento a apostadores e familiares afetados e pretende ampliar a busca ativa por pessoas em situação de vício. Damião, por sua vez, lembrou que a capital mineira já havia adotado restrições à publicidade das bets antes da decisão federal.
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A nova etapa anunciada pelo governo coloca a saúde mental no centro da discussão. A Medida Provisória 1.394/2026, publicada na sexta-feira (25/9), proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa, incluindo as apostas esportivas e os jogos on-line. As plataformas ficam impedidas de receber novos aportes e têm até 5 de outubro para permitir o saque voluntário dos valores pelos usuários. A partir de 6 de outubro, os sites e aplicativos deverão sair do ar.
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Mas, para o ministro da Saúde, esse encerramento não significa o fim do problema. Durante a coletiva, Padilha afirmou que pessoas que desenvolvem comportamento compulsivo continuarão precisando de acompanhamento mesmo depois que os aplicativos deixarem de funcionar.
"Esse problema não acaba quando fecha o aplicativo", afirmou, ao explicar que a pasta pretende manter o atendimento por meio do SUS e ampliar a identificação de pessoas que precisam de ajuda.
A estratégia apresentada pelo governo combina atendimento remoto, acompanhamento na rede pública e busca ativa. Segundo Padilha, o Ministério da Saúde já reúne informações que podem ajudar a identificar pessoas com sinais de comportamento problemático e pretende utilizar esses dados para orientar as equipes de saúde.
A ideia é que pessoas identificadas como potencialmente vulneráveis possam receber informações sobre os serviços disponíveis e ser convidadas a procurar atendimento. O ministro afirmou que a ação será feita respeitando as regras de proteção de dados e os protocolos da área da saúde.
O atendimento também continuará disponível para quem procurar espontaneamente o serviço. Pelo Meu SUS Digital, o usuário pode realizar um autoteste relacionado aos efeitos das apostas e solicitar atendimento remoto. A estrutura prevê consultas com psicólogos e psiquiatras e, quando necessário, encaminhamento para a rede presencial, incluindo unidades de saúde e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
Apostas já pressionam o SUS
A preocupação é baseada, segundo o governo, em dados que apontam aumento dos problemas relacionados ao jogo. Em balanço divulgado na sexta-feira, a pasta afirmou que os atendimentos relacionados a jogo patológico e problemas com apostas cresceram cerca de 140% entre 2018 e 2025. A projeção apresentada é de aumento de outros 104% até 2028.
O governo também cita estimativa do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) de que o custo social associado aos jogos chega a R$ 38,8 bilhões por ano. Desse total, cerca de R$ 30,6 bilhões estão relacionados à saúde, incluindo efeitos associados a suicídios, depressão e tratamentos médicos.
Outro dado apresentado pela pasta indica que mais de 28 milhões de brasileiros haviam apostado nos 12 meses anteriores a uma pesquisa de 2023, enquanto 10,9 milhões apresentavam padrão de jogo considerado de risco ou problemático.
Padilha afirmou que já foi identificada uma procura expressiva pelos mecanismos de ajuda: cerca de 1,5 milhão de brasileiros haviam procurado a plataforma de autoexclusão para impedir o acesso às apostas e ao recebimento de publicidade das empresas. Ele disse ainda que mais de 100 mil pessoas passaram pelo teleatendimento e pelo autoteste disponibilizados pelo governo.
Quem aposta e quem sofre junto
O impacto das bets não se limita aos próprios apostadores. De acordo com o ministro, familiares também passaram a aparecer entre as pessoas que procuram os serviços de saúde.
"Os homens apostam mais, mas quem mais procura o teleatendimento são as mulheres. E muitas vezes elas não estão procurando porque apostam. Elas estão procurando porque têm um filho, um marido ou alguém da família que aposta", afirmou.
"Ouvi relatos de mulheres que começaram a apostar para tentar pagar a dívida do marido, do filho, de alguém da família que estava apostando. Então, você começa a ter uma situação em que a aposta vai entrando na renda familiar, vai entrando nas relações familiares, vai gerando conflito, vai gerando sofrimento", disse.
Dados divulgados pelo Ministério da Saúde solidificam essa dimensão. Segundo a pasta, entre mulheres que apostam ou já apostaram, 65% disseram não ter procurado ajuda por vergonha. Entre mulheres que não apostam, 12% relataram impactos decorrentes do jogo de familiares.
A exposição também começa cedo. De acordo com o ministério, uma pesquisa realizada em escolas públicas e privadas identificou que 20,4% dos estudantes já haviam apostado on-line. O contato com as plataformas pode começar aos 11 anos e, entre meninos do terceiro ano do ensino médio, o percentual chegaria a 49,7%.
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O próprio governo relaciona o transtorno do jogo a ansiedade, depressão, alterações do sono e do humor, isolamento social e prejuízos nas relações pessoais e profissionais.