Veto às bets pode ser um ‘tiro pela culatra’ para Lula, avaliam especialistas
Cientistas políticos ouvidos pelo PlatôBR veem na medida uma tentativa de Lula de recuperar terreno entre as mulheres e de desviar o foco da crise no STF
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A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de proibir, a nove dias do primeiro turno das eleições, as apostas esportivas e os cassinos on-line no país é interpretada por especialistas ouvidos pelo PlatôBR como uma aposta dupla: recuperar terreno entre o eleitorado feminino, maioria no país, e reforçar o discurso de combate ao endividamento das famílias. Em contrapartida, os analistas apontam o risco de o tiro sair pela culatra, a depender da reação do setor e dos clubes de futebol patrocinados em boa parte pelas chamadas bets , além de abrir espaço para que o tema seja explorado pelo principal adversário do petista na corrida à Presidência, Flávio Bolsonaro.
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Sérgio Praça, doutor em Ciência Política pela USP, chama atenção para o timing político da medida. “O Lula, para usar o verbo, está apostando que esse debate todo vai favorecê-lo”, pontua. Para Praça, a medida também pode favorecer Lula ao deslocar o foco de duas frentes que vêm gerando desgaste à campanha: uma mais recente, que diz respeito às revelações de que a lobista Roberta Luchsinger teria mandado entregar dinheiro ao filho mais velho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e outra já de algumas semanas, que é a crise no STF (Supremo Tribunal Federal). Acho que interessa a ele falar disso [da proibição das bets], assim como interessa ao Flávio também. Interessa aos dois mudar de assunto, diz.
O cientista político Gabriel Guimarães também chama atenção para o cálculo eleitoral da medida. Ele avalia que a medida provisória das bets é uma tentativa da candidatura petista de estancar a sangria apontada pelas últimas pesquisas. “Você vê um avanço do candidato Flávio Bolsonaro no eleitorado, especialmente o feminino, com crescimentos reais. Lula precisa recuperar essa fatia tão importante para ele na eleição de 2022”, avalia Guimarães, doutorando pelo IESP (Instituto de Estudos Sociais e Políticos) da UERJ. Ele lembra ainda do impacto das bets no orçamento das famílias e, em especial, no endividamento dos brasileiros. O efeito sobre as finanças domésticas, diz, amplia o potencial de a medida repercutir positivamente entre as eleitoras.
Entre auxiliares do presidente no Palácio do Planalto, que se dividiram em relação à medida, e também da base aliada do governo no Congresso, há preocupação com a reação de diferentes setores da economia, mas o principal temor é com o impacto sobre os clubes de futebol. Como o PlatôBR mostrou, as principais agremiações do país se articulam nos bastidores para reagir em conjunto contra o banimento daquela que é, hoje, a principal fonte de patrocínio do futebol nacional. As mesmas fontes também destacam a capacidade de mobilização das torcidas das principais equipes. Até por isso, o governo se movimenta para oferecer uma contrapartida aos clubes, com a possibilidade de criar linhas de crédito com juros mais baixos e de renegociar dívidas. A proposta, contudo, já enfrenta resistência. Antes mesmo do anúncio da MP, o presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, estimou que o fim dos patrocínios das bets deve representar uma perda de R$ 400 milhões a R$ 430 milhões para o clube em 2027.
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A MP editada por Lula nesta sexta-feira, 25, proíbe as apostas e os jogos virtuais online no país. Em paralelo, o presidente deve enviar ao Congresso um projeto de lei já que a Constituição veda medida provisória sobre matéria penal que torna crime explorar ou operar apostas, com pena de 4 a 6 anos de prisão, aumentada em um terço quando o objeto for um jogo virtual como o do “tigrinho”. O texto também criminaliza a publicidade de apostas (2 a 4 anos) e o uso de dados pessoais para direcionar propaganda das plataformas, com penas na mesma faixa. As iniciativas integram um pacote maior de combate ao endividamento das famílias brasileiras, anunciado no mesmo evento em São Paulo.