Morre Yeda Prates Bernis, poeta mineira que completou 100 anos em junho
Integrante da Academia Mineira de Letras, escritora teve uma trajetória de quase seis décadas dedicada à poesia e deixou 13 livros publicados
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Morreu Yeda Prates Bernis, poeta mineira que completou 100 anos em junho. A morte foi anunciada neste sábado (26/9) por Rogério Faria Tavares, presidente emérito da Academia Mineira de Letras (AML), instituição da qual a escritora fazia parte desde 2007. O velório será realizado neste sábado, das 12h às 16h, na Capela Fênix do Funeral House, no bairro Funcionários, região Centro-Sul de Belo Horizonte.
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“Yeda Prates Bernis viu um século. E seu olhar foi de poeta. Será para sempre amada, querida e celebrada. Sua magnífica poesia ficará para sempre. Para alimentar nossa alma de beleza e para nos dar esperança”, escreveu Rogério Faria Tavares ao comunicar a morte.
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“A Yeda viveu um século. Ela viu um século. E viu com olhos de poeta”, afirmou Rogério. Segundo ele, a escritora passou a vida “produzindo beleza e produzindo encantamentos” e alimentou seus leitores com “uma fina sensibilidade sobre o mundo e as coisas”.
“Ela não via a vida do jeito que a gente via. Ela era capaz de extrair poesia do minúsculo, do pequeno, do insignificante, do desimportante. Ela era capaz de extrair poesia, como diz o título de um dos livros dela, de um grão de arroz”, acrescentou.
Nascida em Belo Horizonte em 15 de junho de 1926, Yeda era diplomada em Letras Neolatinas pela PUC Minas. Em 2007, foi eleita para a cadeira número 6 da Academia Mineira de Letras, sucedendo à escritora e educadora Alaíde Lisboa, que também viveu mais de um século. Na ocasião, Yeda afirmou ao Estado de Minas que considerava a eleição importante principalmente por representar o reconhecimento de seu trabalho poético.
A estreia literária ocorreu em 1967, com “Entre o rosa e o azul”. Ao longo da carreira, publicou 13 livros: “Enquanto é noite” (1974), “Palavra ferida” (1979), “Pêndula” (1983), “Grão de arroz” (1986), “O rosto do silêncio” (1992), “À beira do outono” (1994), “Anotações sobre Zen e Hai Kai” (1996), “Encostada na paisagem” (1998), “Cantata” (2004), “Viandante” (2006), “Entressombras” (2013) e “Cercanias” (2016). As obras foram produzidas em edições cuidadosas, que Yeda associava à criação de “pequenos pedaços de beleza”.
Em “Cantata”, de 2004, a poeta reuniu uma extensa fortuna crítica sobre sua produção, com textos de nomes como Antônio Candido, Abgar Renault, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Henriqueta Lisboa e Manoel de Barros, além de prefácio de Bartolomeu Campos de Queirós. O livro registra o reconhecimento que sua poesia havia alcançado ao longo das décadas.
Uma poesia feita de pequenas coisas
A capacidade de encontrar beleza no que poderia passar despercebido foi uma das características mais destacadas por escritores que conviveram com a obra de Yeda. Em homenagem publicada pelo Estado de Minas no centenário da poeta, em junho de 2026, o acadêmico Jacyntho Lins Brandão observou que, desde a estreia, ela desenvolveu uma poesia marcada pela atenção ao pequeno. Ele citou “Grão de arroz”, livro de haicais, e “Viandante”, no qual Yeda abordou poeticamente o luto.
Maria Esther Maciel destacou a linguagem “cristalina e sem malabarismos” da escritora e a maneira como ela transformava vivências, memórias, sentimentos e sensações em versos marcados pela concisão. Para Adriane Garcia, Yeda conseguia ser “clássica e contemporânea ao mesmo tempo”.
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Rogério também definiu a poesia da amiga como “extremamente suave, delicada, e ao mesmo tempo muito inteligente, muito sofisticada”. Segundo ele, a autora escreveu sobre morte, solidão, natureza e estados da alma.
“Ela não se limitou a contemplar o mundo de forma passiva ou distante. Ela interferiu no mundo para produzir beleza e encantamento”, afirmou.
O humor e a casa cheia
Para além da escritora, Rogério lembra de Yeda como uma mulher de ótimo humor, que gostava da vida, dos amigos e de uma boa mesa.
“Eu tive muito prazer e um privilégio imenso de conviver com ela. Ela era muito divertida, gostava da vida, gostava da boa mesa, gostava dos amigos. Abria a casa dela todo fim de semana para um almoço com os amigos”, contou.
A casa, segundo ele, era sempre movimentada. Yeda manteve uma convivência próxima com nomes da literatura e das artes de Minas Gerais, entre eles Bartolomeu Campos de Queirós, Carlos Herculano e Márcio Sampaio.
A vida familiar também ocupava espaço importante em sua rotina. Yeda foi casada com Ney Octaviani Bernis, a quem dedicou o livro “Viandante”, publicado em 2006. Ney foi diretor do Estado de Minas por décadas.
Legado
A obra de Yeda atravessou quase seis décadas e recebeu reconhecimento no Brasil e no exterior. Seus poemas foram traduzidos para outros idiomas e sua produção recebeu premiações e distinções ao longo da carreira.
Para Rogério, o principal legado da escritora está justamente na permanência de sua obra.
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“Foi uma poeta reconhecida nacionalmente, admirada por Drummond, admirada por Alphonsus de Guimaraens Filho, muito reconhecida. Na Academia, ela foi a sucessora de Alaíde Lisboa. Foi uma grande prosadora, educadora. Ela produziu uma obra que vai ficar, que vai sobreviver à passagem do tempo”, afirmou.