Primeira leitura: 'Apneia', de Esther Faingold
Em "Apneia", uma mãe que vive em Nova York escreve um caderno para a filha antes de um tratamento que pode apagar suas lembranças, revisitando a morte do pai e a infância entre Brasília e o Sul
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SEMPRE HAVERÁ ALGUÉM INDICANDO o psiquiatra que salvou fulano de tal, o analista que escreveu o livro X, a nova promessa da medicação, o retiro no Tibete, o panchakarma no Sri Lanka, a cerimônia de ayahuasca no Acre, o xamã em Oaxaca, o babalorixá em Cachoeira. Tentei médicos chineses do Lower East, centenas de sessões de acupuntura e ervas. Busquei hipnose com uma armênia renomada, sessões tântricas com um casal no Hell’s Kitchen, aulas de xadrez com um ex-campeão russo. Saio para comer um croissant e tomar um café, leio trechos de um livro, escrevo algumas linhas. Basta o sorriso de um garçom para que eu me encha de vontade de vida. Volto para casa e ligo para o suicide line.
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ERA PARA EU TER SIDO CLARA. Na maternidade decidiram me chamar de Esther, nome da mãe do meu pai. O que diz o nome que nos é atribuído? É adjetivo, substantivo? Muitos afirmam ser sujeito. Eu teria sido mais límpida se fosse Clara? Muito diferente se fosse Maria, como a mãe da minha mãe? Seria o nome um registro anatômico? O membro ou a sua falta? Seria eu capaz de criar um destino menos infeliz do que esse que me foi imposto?
É NOITE E AS LUZES já invadiram Nova York, a cidade para onde nos mudamos há sete Natais. Você tem oito anos e eu me preocupo porque você ainda acredita no Papai Noel. “Dear Santa, traga para minha mãe aquilo que ela quiser”, você pediu em uma carta. Busco o milagre em todos os cantos e, enquanto ele não chega, escrevo este caderno para que você conheça quem fui antes de você nascer. Filha, em uma mãe também vive uma mulher.
EU ESTAVA RADIANTE, POIS logo entraríamos no voo da Varig que nos levaria até Porto Alegre. Na banca de jornais do aeroporto de Brasília, o meu tio por parte de pai deixou que meu irmão e eu escolhêssemos o que quiséssemos. Peguei um livro de receitas da Dona Benta e meu irmão, um gibi do Pato Donald. No avião, fiquei aflita para arrancar o cinto de segurança, e meus avós, incomodados com minha agitação, me pediam para ter calma, para olhar o livro que tinha acabado de ganhar. No instante em que me libertei do cinto, já sobre as nuvens, comecei a correr de janela em janela chamando por ele, tinha certeza de que em alguma nuvem estaria nos esperando. No desespero das aeromoças incomodadas com meus gritos é que meus avós compreenderam o que estava acontecendo. Eu tentava encontrar meu pai. Alguns dias antes, eu ouvira que ele havia ido para o céu e um dia nos encontraríamos. Por que não naquele dia? Ninguém respondia. Passageiros choravam comigo. “Guria, deixe de ser fiasquenta e fique quieta. Daqui para a frente você não tem mais pai nem mãe, é bom se comportar”, meus avós diziam. Ao aterrissarmos, um psiquiatra que estava no voo aproximou-se e sugeriu que eu precisava de ajuda médica. Envergonhados, meus avós insistiram que eu teria de começar a controlar minhas emoções para não ficar malfalada. Foi esse o Princípio da Realidade?
ANTES QUE OS MEUS LOBOS FRONTAIS sejam desligados e correntes elétricas tomem conta do meu cérebro, preciso me ater ao que quero lembrar. Como me chamarei quando não souber mais o meu nome? Se tudo apagar em mim, talvez este registro possa servir.”
NOS DIAS QUE ANTECEDERAM o voo para o Sul, eu e meu irmão, um ano mais novo, estávamos sozinhos com meu pai em seu apartamento. Eu o vi fazendo um anel para me dar de presente no meu aniversário de seis anos, que seria dali a uma semana: uma aliança com um “E” em que ele havia incrustado pequenos brilhantes — Esther era uma estrela, por isso ele construía uma pequena constelação. Lembro de assistir ao trabalho, seus olhos fixos no anel. Lembro de dormirmos os três juntos na cama que um dia foi dele e da minha mãe, e de brincar com seus poucos fios de cabelo. Lembro do meu irmão com fome, chorando, e do meu pai dormindo; da cozinha com armários vermelhos, eu empurrando a cadeira de alumínio com assento em vinil para perto da bancada na tentativa de escalar as prateleiras. Lembro da caixa azul com Tony, o tigre, de dar Sucrilhos para o meu irmão e ele parar de chorar. Lembro dos dias passando, sem que meu pai acordasse. De dormirmos ainda juntos, de ele não se incomodar mais com as trancinhas que eu fazia na sua cabeça. O telefone toca, “Papai não quer mais acordar”, digo ao meu tio. Estranhos invadem a casa, cobrem o meu pai com um lençol. Lembro do estreito e longo corredor que ia até o elevador por onde o nosso pai foi embora. “Está tudo bem, o pai de vocês foi para o céu. De lá cuidará de vocês”, dizia uma voz que não era mais a dele.
HÁ MAIS DE UMA DÉCADA tento domá-la, domesticá-la. Vencê-la é impossível. Zoloft, Cymbalta, Wellbutrin e Xanax são alguns nomes que me trouxeram esperanças breves. Sou eu o animal submetido a testes, tentando descobrir se o que tenho pode ser genético. Fico desesperada imaginando que um dia você possa sentir qualquer coisa parecida com o que sinto. Recebi de três médicos a indicação para terapia de eletrochoque. Afirmam não ser como a lobotomia que assombrou o século 20 — ao contrário, ela possui uma alta taxa de sucesso, de 70% a 90%, de acordo com a Mayo Clinic. Mas, entre os riscos apontados, ninguém foi capaz de garantir o não desbotamento da minha memória. Ainda que meu temor possa ser um exagero, é para essa ocasião que me preparo. Perder minha memória seria perder o que sou. E, ainda que a perda seja parcial, como prever o que vai e o que fica?
SOBRE A AUTORA
Escritora, poeta e artista plástica, Esther Faingold vive entre São Paulo e Nova York. É autora de “Ethers” (Cosac Naify, 2011) e da exposição “Qualquer coisa animal” (Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin/usp, 2024), onde leu trechos de “Apneia” em debate com Eliane Robert Moraes, Veronica Stigger, Natalia Timerman e João Paulo Cuenca. “Apneia”, descrito por Stigger como “um cru e intenso romance”, é sua primeira obra de ficção.
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“Apneia”
De Esther Faingold
Cosac
144 páginas
R$ 81
Lançamento neste sábado (26/9), das 11h às 14h, em conversa da autora com Humberto Werneck e Mônica de Aquino, seguida de sessão de autógrafos na Livraria Quixote (Rua Fernandes Tourinho, 274, Savassi, BH).