A chegada dos meses mais frios do ano e o início do recesso escolar de julho trouxeram um cenário de risco para a saúde pública em Minas Gerais. Já na abertura do mês, a Fundação Hemominas registrava uma queda drástica no comparecimento de voluntários, empurrando o estoque de três tipos sanguíneos fundamentais para níveis muito abaixo do considerado seguro. No dia 3, a situação mais preocupante era a do sangue tipo O negativo (O-), conhecido como doador universal: o déficit era de 55,32% em relação ao nível ideal, já evidenciando a escassez de oferta que costuma pressionar o sistema de saúde nesta época do ano e disparando o apelo: "doe sangue".

"A gente pede a gentileza, para que, se possível, as pessoas não deixem (a doação) para depois. Tem sempre alguém precisando de sangue, então agende já a doação, em uma unidade próxima para manter não somente em julho e agosto, nesse período de férias, mas ao longo de todo o ano, os estoques de todos os grupos em níveis ideais", convoca o analista de Captação e Cadastro da Fundação Hemominas, Thiago Sindeaux. O analista reforça que a doação é a única forma de manter os estoques em dia. E explica que em períodos sazonais, quando o cenário é mais desafiador, é necessário reforçar o incentivo às doações.

O processo de doação de sangue leva de uma hora e meia e deve ser previamente agendado no Hemominas. Leandro Couri/EM/DA Press
Redução nos estoques pode obrigar a rede de saúde a adotar medidas como o "racionamento invisível", com adiamento de cirurgias eletivas Leandro Couri/EM/DA Press
Analista de captação e cadastro da Fundação Hemominas, Thiago Sindeaux reforça: "Tem sempre alguém precisando de sangue" Leandro Couri/EM/DA Press
Cenário pode causar remarcação de cirurgias eletivas e coloca em risco grandes traumas em hospitais de urgência. Leandro Couri/EM/DA Press
Falta de doadores em julho coloca estoque de tipos sanguíneos em nível crítico em Minas Gerais Leandro Couri/EM/DA Press

Além do O-, que é utilizado em situações de urgência nos prontos-socorros, outros dois tipos operavam em faixa crítica no estado na abertura do mês. O estoque de O positivo (O+), o tipo mais comum na população, estava 46,58% abaixo do esperado para o período. Já o tipo A negativo (A-) amargava uma redução de 41,67%. Em alerta, estavam os tipos sanguíneos A+, com queda de 38,58%; B-, com diminuição de 26,19%; e AB-, que estava 16,33% abaixo do ideal. Os demais tipos de sangue não apresentavam baixa, conforme dados do Hemominas.

A instituição pública não trabalha com números absolutos ou volumes fixos de bolsas armazenadas. A gestão é baseada em porcentagens que variam conforme a demanda diária da rede hospitalar. Como o sangue é um insumo perecível, manter estoques gigantescos e parados geraria desperdício. Por isso, a quantidade ideal é calculada de forma sazonal e dinâmica. O problema de julho é que enquanto o número de doadores despenca devido ao frio, a demanda por transfusões costuma subir. Com as estradas mais movimentadas pelo turismo de férias, o índice de acidentes automobilísticos graves tende a crescer, aumentando a pressão sobre os prontos-socorros.

A retração no movimento dos hemocentros, porém, não é uma surpresa para os gestores. Historicamente, o período entre junho e agosto combina dois fatores que afastam as pessoas dos postos de coleta. Nesta época do ano, há maior incidência de doenças respiratórias provocadas pelas baixas temperaturas, que causam inaptidão temporária para doar, além de viagens de férias, que mudam a rotina dos doadores.

Para driblar a falta de sangue nas próximas semanas, a instituição adota estratégias como a busca ativa de doadores. De forma preventiva, por meio de um estoque calculado, além de ações de captação focadas nos períodos de baixa, é possível lidar com a escassez, mas no limite. Doadores fidelizados dos estoques mais críticos também recebem convites direcionados por meio de telefonemas e cartas.

Matemática dos estoques

Embora a redução seja esperada, a intensidade da queda preocupa. Nas salas de cirurgia e nos leitos de unidades de terapia intensiva (UTIs), o reflexo dessa escassez é direto, já que o sangue O- é o "coringa" da urgência médica. Isso porque, quando um paciente dá entrada em um hospital com hemorragia grave depois de um trauma e não há tempo hábil para fazer o teste de tipagem sanguínea, é o O- que salva a vida dele.

Se o estoque desse tipo específico opera com menos da metade da capacidade, a rede de saúde entra em regime de racionamento invisível. Embora os atendimentos de emergência absoluta nunca sejam negados, a falta de bolsas de sangue força os hospitais a adiarem cirurgias eletivas, comprometendo o cronograma de tratamentos oncológicos e de pacientes com doenças hematológicas crônicas, como a anemia falciforme.

Profissionais da ponta do sistema reforçam que cada bolsa coletada pode salvar até quatro vidas infantis e uma adulta. No inverno, o apelo passa a ser uma necessidade de sobrevivência para milhares de mineiros que dependem da solidariedade alheia. Para o médico do Complexo Hospitalar de Urgência do Hospital João XXIII, Winston Khouri, o estoque diário ideal exigiria de 80 a 100 doadores. Na ausência desse número, em cirurgias de urgência, são usados métodos para conter sangramentos, como medicamentos e até autotransfusão.

"Não tem substituto, pois o sangue é um material único. Não tem outro remédio. Se chega um paciente com politraumatismo, ele consome quatro bolsas de sangue ao mesmo tempo e de quatro pula para oito, 10, 20 rapidamente. No João XXIII não é a mesma coisa de um hospital comum. Os pacientes de grandes queimaduras também. Eles fazem o desbridamento das lesões, o que sangra muito, então a metade do sangue do paciente vai embora numa cirurgia", explica Khouri.

Doação de "vidas"

O médico reforça que o ato de doar o sangue é um ato de amor, pois, na realidade, a pessoa está "doando vida", dada a capacidade de salvar outras. Quem sentiu na pele o risco causado pelos estoques esvaziados foi a auxiliar administrativo Yasmin Fernanda de Oliveira, de 26 anos, ao precisar fazer uma cesárea de emergência em 2023. Ela teve complicações no parto, sendo levada para a cirurgia, momento em que teve uma hemorragia severa. Não bastasse a gravidade da situação, ainda perdeu mais de dois litros de sangue.

Mesmo sendo portadora do O+, um dos mais comuns, Yasmin se deparou com mais uma dificuldade. Não havia sangue disponível no momento no Hospital das Clínicas de Belo Horizonte. "Devido a essa grande perda de sangue perdi os sentidos, e o tratamento mais rápido e eficaz foi a transfusão de sangue, mas no momento que eu precisei não havia nenhuma bolsa disponível. Falo que por um milagre de Deus acharam duas bolsas do O+ que parecem ter chegado pouco tempo antes", relata a auxiliar.

Yasmin conta que já tinha certa noção sobre a importância da doação de sangue, pois um parente dela sofreu acidente antes e só foi salvo devido à doação, mesmo com a dificuldade em encontrar um doador que fosse A-. Contudo, após a própria experiência dramática, vê a ação de solidariedade de forma diferente.

"As emergências acontecem diariamente, e o percentual de pessoas que morrem após uma hemorragia é muito grande. Tratamentos e cirurgias que são urgentes acabam adiadas por falta de sangue. Muitas vezes é a única esperança de vida de alguém, então, a falta de sangue é um fator a que temos que dar uma atenção maior, pois realmente salva muitas vidas", conclui.

SAIBA COMO DOAR SANGUE NA FUNDAÇÃO HEMOMINAS

QUEM PODE DOAR

  • Pessoas de 16 a 69 anos.
  • Menores de 18 precisam de autorização formal dos pais.
  • Idosos só podem doar se já tiverem feito sua primeira doação antes dos 60 anos.

REQUISITOS BÁSICOS

  • Pesar mais de 50kg, estar bem alimentado, hidratado e descansado. É preciso ter dormido pelo menos 4 horas na noite anterior.

IMPEDIMENTOS TEMPORÁRIOS

  • Sintomas de gripe, resfriado ou febre suspendem a doação por pelo menos 15 dias após o fim dos sintomas.

INTERVALOS

Quem já doou deve observar o prazo entre doações de sangue.

  • Homens: 60 dias e até 4 vezes por ano.
  • Mulheres: 90 dias e até 3 vezes por ano.

AGENDAMENTO

Pode ser feito pelo site oficial (hemominas.mg.gov.br) ou pelo aplicativo MG App. As agendas são disponibilizadas para os 10 dias subsequentes e todos os dias são disponibilizados novos horários.

PASSOS DA DOAÇÃO

TRIAGEM CLÍNICA

Entrevista confidencial, cujo objetivo é a segurança do doador e do receptor, e realização do exame físico e aferição dos dados vitais (pressão arterial, pulso, temperatura).

TRIAGEM HEMATOLÓGICA

Esse exame avalia se o candidato à doação possui nível de hemoglobina dentro dos parâmetros adequados. Caso esteja abaixo ou acima dos valores normais, o candidato é orientado a procurar o serviço de saúde. Pessoas com anemia não podem doar.

FAZER PRÉ-LANCHE

O candidato à doação recebe um lanche e um suco antes da coleta do sangue.

COLETA DE SANGUE

O sangue é coletado utilizando-se material totalmente descartável, estéril e de uso único. Serão coletados em torno de 450 ml de sangue e amostras para realização de exames laboratoriais obrigatórios.

CUIDADOS PÓS-DOAÇÃO

O doador recebe orientações verbais e por escrito com os cuidados que deverá ter após a doação.

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LANCHE PÓS-DOAÇÃO

Após a doação, o doador será encaminhado para um lanche para auxiliar na sua hidratação e repor o volume doado.

QUEM SALVA QUEM?

O NEGATIVO (O-):

  • Doa para: todos (O-, O+, A-, A+, B-, B+, AB- e AB+)
  • Recebe de: O-

O POSITIVO (O+):

  • Doa para: O+, A+, B+ e AB+
  • Recebe de: O+ e O-

A NEGATIVO (A-):

  • Doa para: A-, A+, AB- e AB+
  • Recebe de: A- e O-

A POSITIVO (A+):

  • Doa para: A+ e AB+
  • Recebe de: A+, A-, O+ e O-

B NEGATIVO (B-):

  • Doa para: B-, B+, AB- e AB+
  • Recebe de: B- e O-

B POSITIVO (B+):

  • Doa para: B+ e AB+
  • Recebe de: B+, B-, O+ e O-

AB NEGATIVO (AB-):

  • Doa para: AB- e AB+
  • Recebe de: A-, B-, AB- e O-

AB POSITIVO (AB+):

  • Doa para: AB+
  • Recebe de: todos (O-, O+, A-, A+, B-, B+, AB- e AB+)
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