ROTA DO ROSÁRIO

Minas ganha nova rota turística sobre práticas religiosas afro-brasileiras

A iniciativa destaca os festejos em homenagens à Nossa Senhora do Rosário e aos santos cultuados no congado, no reinado e nas irmandades do Rosário

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Um caminho para fortalecer a cultura, mergulhar na tricentenária história mineira, preservar tradições e valorizar religiosidade afro-brasileira – tudo isso e muito mais em cenários de ancestralidade, fé, beleza e construções de séculos passados, muitas delas erguidas pela mão negra escravizada.

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Com percursos de devoção em várias regiões, já é realidade a Rota do Rosário, cuja Lei 25.993, tratando de sua implantação, foi publicada no Diário Oficial de Minas Gerais na terça-feira (21/7).

A iniciativa, proposta na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) pela deputada Andréia de Jesus, destaca os festejos em homenagens à Nossa Senhora do Rosário e aos santos cultuados no congado, no reinado e nas irmandades do Rosário. E mais: estabelece os Caminhos do Rosário com trajetos, cortejos, territórios e formas de sociabilidade alusivas à ancestralidade e à memória dos povos negros no estado.

Segundo Andréia de Jesus, a sanção da lei é resultado de uma construção coletiva, feita em diálogo com as comunidades congadeiras e com lideranças de diversas regiões do estado. "A Rota do Rosário nasce da escuta das guardas, dos congadeiros e das congadeiras que, geração após geração, mantiveram essa tradição viva mesmo diante da invisibilização e do racismo. Essa lei representa um compromisso do estado com a preservação da memória, da cultura e da fé do povo negro mineiro”, explica a parlamentar.

A decisão legislativa agradou ao capitão da Guarda de Moçambique de Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia, de Ouro Preto, Kédison Guimarães. “Recebo com muita alegria a aprovação da lei da Rota do Rosário. É um reconhecimento histórico de uma tradição que nossos ancestrais mantêm viva há mais de 300 anos. Não estamos falando apenas de turismo ou de um caminho geográfico, mas de um percurso de fé, resistência, memória e identidade do povo negro de Minas Gerais”.

E mais: “A Rota do Rosário fortalece o congado, o reinado e as irmandades, garante respeito às nossas práticas religiosas, valoriza nossos territórios sagrados e cria oportunidades para que as futuras gerações conheçam e preservem essa herança. É uma conquista de todos aqueles que nunca deixaram a bandeira do Rosário cair”.

Kédison espera a lei seja agora transformada em ações concretas, sempre com a participação das guardas, irmandades e comunidades que são as verdadeiras guardiãs dessa tradição. “O Rosário continua abrindo caminhos e, hoje, damos mais um passo importante para que nossa história seja reconhecida, protegida e celebrada por todo o estado”.

Já Rainha Isabel Casimira, rainha do Congo e Guarda de Moçambique Treze de Maio de Nossa Senhora do Rosário e do estado maior de Minas Gerais, quer avanços. “É muito importante para toda comunidade especialmente nos nossos fazeres”, diz a Rainha Isabel, porém se torna necessária, para valer na prática, uma reunião com as autoridades para que expliquem o sentido da Rota do Rosário.

“Precisamos de ajuda e o poder público deve estar presente para nos ajudar. Outro detalhe importante está nas diferenças e isso precisa ser levando em consideração, entre os fazeres na capital e no interior mineiro”, ressalta. Com a lei sancionada, ela acredita que atividades poderão gerar renda para as comunidades, embora lembrando que nas festividades a comida é sempre de graça. “Nunca é vendida”.

Demandas

A construção da proposta de Andréia de Jesus (PT) foi precedida de uma série de iniciativas desenvolvidas em seu mandato. Entre elas, reuniões com guardas de congado para levantamento das principais demandas, realização de audiência pública na ALMG a fim de se discutir a implementação da Rota do Rosário e a destinação de recursos por meio de emendas parlamentares para fortalecer as manifestações culturais.

Em 2023, foram realizadas “oficinas de tambores em 15 municípios mineiros, com investimento superior a R$ 240 mil, contribuindo para a formação de novos tocadores e para a preservação dos saberes tradicionais transmitidos entre gerações”. No mesmo período, foi destinado ainda apoio para o edital estadual voltado aos grupos de Congado, que contemplou 20 guardas em 15 municípios, fortalecendo a continuidade das celebrações e a geração de trabalho e renda nas comunidades.

Conforme divulgou a ALMG, a nova legislação representa um marco para a cultura afro-mineira ao reconhecer a importância histórica, religiosa e cultural das guardas de congado que, há séculos, mantêm viva uma tradição construída pela resistência da população negra em Minas.

A nova lei estabelece diretrizes para que o estado desenvolva políticas de valorização da Rota do Rosário, incentivando ações de preservação do patrimônio cultural, promoção do turismo cultural, fortalecimento das manifestações tradicionais e apoio às comunidades responsáveis por manter viva essa herança. A regulamentação da Rota deverá conter marcos georreferenciados de interesse para o turismo cultural e religioso associados aos percursos e caminhos.

A expectativa é que, com a regulamentação e implementação da lei, a Rota do Rosário fortaleça amplie a visibilidade das festas do Rosário e contribua para o desenvolvimento cultural, social e econômico, em especial o turismo, dos municípios envolvidos.

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“Ressaltar a importância da Festa do Rosário fortalece o turismo religioso e a preservação da cultura, das tradições e dos modos de vida dos povos negros de Minas, mantendo manifestações religiosas presentes desde o século 18 em regiões como o Triângulo Mineiro e o Vale do Jequitinhonha”, afirma a parlamentar.

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