"Os 80 anos são memórias, mas também são projetos". A frase surge quase no fim da conversa, quando já se falou de educação, Freud, Paulo Freire, amor, velhice, literatura, música, Paris, Belo Horizonte e netos. Dita por Eliane Marta Teixeira, ela parece resumir uma vida inteira. Mas também revela algo mais raro: uma recusa em transformar a velhice em um lugar apenas de lembranças.

Com os 80 anos recém completados ontem, a professora emérita da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) continua planejando o futuro.

"Acho que muitas mulheres dessa idade concordariam que não fazemos projetos só para nós, fazemos para os filhos, para os netos…", continua.

 A conversa ocorre em seu apartamento no bairro Santo Antônio, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, onde vive desde que nasceu. Livros e esculturas do artista plástico José Bento ocupam as estantes, assim como as pinturas de Lorenzato (1900-1995), Nello Nuno  (1939-1975) e Patrícia Leite preenchem as paredes. Os móveis carregam histórias herdadas de familiares e amigos, e os objetos parecem ter chegado ali não por um projeto de decoração, mas por afeto. "Isso aqui não é uma decoração. É uma armação", diz. A palavra provoca riso. E define muito quem ela é.

Eliane junta histórias, pessoas, ideias, músicas, livros, cartas esquecidas em arquivos públicos, lembranças da infância, teorias de educação, poemas do século XVIII e conversas em livrarias. Há algo de colecionadora em sua forma de existir. Talvez por isso estranhe quando as pessoas associam sua trajetória a uma paixão pela educação: "Eu sou uma decepcionada com a educação e não uma apaixonada."

A declaração parece contraditória para alguém que dedicou mais de meio século ao ensino e à pesquisa. Mas ela explica que nunca foi apaixonada pela sala de aula em si: "Para ensinar era preciso acontecer um encontro entre o aluno e o professor. Era preciso de um clique", justifica.

O que a movia estava em outro lugar: na música, na literatura, na história, nas perguntas e nas conexões improváveis. E ser professora foi o caminho que encontrou para reunir tudo isso.

A cena acontece em seu apartamento no bairro Santo Antônio, onde vive desde que nasceu

Alexandre Guzanshe/EM/DA.Press

Movida pela educação

Nascida e criada em Belo Horizonte, Eliane atribui sua formação à escola pública: "Eu devo ao público a minha educação." Frequentou o Jardim de Infância Delfim Moreira, passou pelo colégio Izabela Hendrix, pelo Instituto de Educação e concluiu o curso clássico no Colégio Estadual de Minas Gerais.

Foi ainda criança que descobriu o fascínio pelas palavras. Aos sete anos, logo depois de aprender a ler e escrever, decidiu começar um livro. A protagonista era uma menina pobre.

Como ainda não sabia escrever a palavra "dinheiro", escreveu "cobre", expressão comum na fala popular da época. A família não gostou da escolha. Ela nunca esqueceu o episódio.

"A família toda me criticou. Me disseram que cobre era uma palavra vulgar. Não era para estar em um livro", recorda, rindo.

O interesse pela literatura cresceu conjuntamente a curiosidade por idiomas. Ainda adolescente estudou francês, inglês, latim, espanhol e, por iniciativa própria, italiano. Décadas depois, o conhecimento adquirido nas salas de aula seria fundamental para a carreira acadêmica.

Graduada em Pedagogia pela UFMG em 1969, concluiu o mestrado na mesma instituição e seguiu para o doutorado em Filosofia da Educação na PUC-SP. O período exigiu uma rotina quase impossível.

Durante três semestres, antes de começar a escrever sua tese, passava os dias assistindo às aulas na capital paulista e retornava de ônibus para Belo Horizonte para lecionar à noite.

"Eu era jovem, ávida de conhecer o mundo e conhecer São Paulo", recorda.

 Foi também nesse período que teve aulas com Paulo Freire (1921-1997), um dos maiores educadores brasileiros. "Tem professor que é carinhoso com o aluno. Paulo Freire era carinhoso com o saber. Era carinhoso com aquilo que transmitia", revela. Anos depois, ele assinaria o prefácio de um de seus livros: "As origens da educação pública: a instrução na revolução burguesa no século 18" (Editora Argvmentvm, 2008).

Ao longo da carreira, Eliane abriu caminhos pouco explorados na área educacional ao aproximar o campo da educação de autores como Freud e Lacan

Alexandre Guzanshe/EM/DA.Press

A relação entre educação, história, literatura e psicanálise se tornaria uma marca de sua produção intelectual. Ao longo da carreira, Eliane abriu caminhos pouco explorados na área educacional ao aproximar o campo da educação de autores como os psicanalistas Sigmund Freud (1856-1939) e Jacques Lacan (1901-1981). "Acolhia quem tinha novas ideias, mesmo quando eu não conhecia o assunto. Acho que abri uma porta importante para a educação pensar a psicanálise".

As pesquisas frequentemente surgiam de encontros inesperados. Uma viagem durante a Semana Santa a Mariana despertou o interesse pela história da Congregação das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo e a levou ao pós-doutorado em Paris. Em outra ocasião, ao procurar documentos sobre educação musical no Arquivo Público Mineiro, encontrou por acaso cartas escritas por Constância de Magalhães em 1888. O material deu origem a mais um livro.

"Foi uma loucura de pesquisa", lembra, sorrindo.

Amiga da vizinhança

Embora tenha viajado para outros países e mantido vínculos acadêmicos internacionais, Belo Horizonte continuou sendo sua principal referência afetiva. Desde o nascimento, viveu no bairro Santo Antônio. Mais recentemente, transformou essa relação em literatura ao escrever um livro sobre o bairro para a coleção "A Cidade de Cada Um".

Desde o nascimento, viveu no bairro Santo Antônio. Mais recentemente, transformou essa relação em literatura ao escrever um livro sobre o bairro para a coleção "A Cidade de Cada Um"

Alexandre Guzanshe/EM/DA.Press

Hoje, os lugares que mais frequenta na cidade são dois. A Livraria Quixote e a Cozinha Santo Antônio. Vai sozinha. Lê. Conversa. Observa. Cultiva amizades.

"Eu vou sozinha mesmo. É uma vida que aprendi a ter em Paris: jantar sozinha, ir ao cinema sozinha… É o que eu sempre falo: leva um livro! Já está acompanhada", brinca.

Talvez essa frase também resuma sua vida. Ao longo de oito décadas, Eliane nunca parece ter caminhado sozinha. Foi acompanhada por autores, personagens, compositores, alunos, amigos, amantes, filhos, netos e ideias. E continua sendo.

"Eu mantenho vínculos afetivos com os lugares e com as pessoas".

A frase encontra eco na Cozinha Santo Antônio. A chef Juliana Duarte (60), dona do restaurante, conta que a amizade entre as duas foi construída ao longo dos anos em conversas sobre história, comida, literatura e vida cotidiana. Muitas vezes, no fim do expediente, as duas permanecem horas trocando ideias e confidências.

Juliana diz que a equipe estranha quando Eliane passa muitos dias sem aparecer. "Todo mundo quer saber se está tudo bem", conta. Para ela, o restaurante acabou se tornando uma espécie de "terceiro lugar" na vida da professora: um espaço de convivência, cuidado e pertencimento.

Já na Livraria Quixote, essa presença se tornou parte da história do próprio lugar. Amigo da professora há cerca de três décadas, o livreiro Alencar Perdigão (61) diz que a relação dos dois nasceu entre estantes e cadernetas de encomendas de livros, ainda antes da abertura da Quixote - quando ainda trabalhava na então Livraria Ouvidor, localizada na Rua Fernandes Tourinho, no bairro Savassi.

Hoje, brinca que ela é uma "sócia afetiva" da loja. "Almoçamos juntos uma vez por semana", conta. "Nesse mundo cada vez mais tecnológico, o tipo de troca que eu tenho com ela é muito especial. Uma amizade raríssima."

"Eu sou muito agradecido a ela por essa parceria. É uma cliente fiel que não troca a livraria por Amazon", resume. "É uma pessoa que está sempre indicando livros."

Histórias do passado para o futuro

Mãe do curador de arte Rodrigo Moura, e avó de Luísa (27), Rita (10) e Antônio (9), Eliane considera a experiência da maternidade inseparável da alegria de ser avó.

"Ter filho é um pedágio que a gente paga para ser avó", brinca.

Nos últimos anos, passou a dedicar parte do tempo a registrar a história da própria família. Não pretende publicar o material. A ideia é deixar um arquivo para as futuras gerações.

"Percebi que as gerações mais novas não conhecem a história da família, então estou escrevendo as memórias de cada personagem. Isso é para os mais novos terem acesso. Não vai ser um livro para publicar, é para a família. Vai provavelmente ser um drive, um link para eles", explica.

Mudanças e relação com o próprio corpo

A educadora também observa o próprio corpo como quem observa um velho conhecido que mudou de rosto ao longo do tempo. Ela recorre a Freud para explicar a sensação. Cita o conceito do "estranho familiar" - aquilo que, ao mesmo tempo, nos pertence e nos parece desconhecido.

A educadora também observa o próprio corpo como quem observa um velho conhecido que mudou de rosto ao longo do tempo

Alexandre Guzanshe/EM/DA.Press

"Eu não reconheço mais meu corpo. E acho que toda mulher deveria tirar uma fotografia de si mesma de cinco em cinco anos. Sem aparecer a cabeça, se quiser. Porque quando você chega aos 80, não lembra mais como era aos 20, aos 50. O corpo vai mudando e você não vai se dando conta", revela.

Não há revolta em sua fala. Tampouco resignação. Há curiosidade.

Durante décadas, brincou com a própria aparência. Pintou os cabelos de vermelho, usou permanente, mudou cortes e penteados. Há cerca de dez anos decidiu abandonar a tintura e deixar os fios brancos aparecerem.

"A simplicidade começou a parecer bonita", reflete.

Mais do que a aparência, o que a preocupa é a saúde: "O bem mais consumível que existe é a saúde".

Ela diz que sempre vigiou a saúde de perto. Não porque tivesse uma vida exemplar - faz questão de lembrar que fumou, bebeu e viveu -, mas porque entendeu cedo que o corpo também exige cuidado.

O envelhecimento, porém, trouxe outra liberdade.

"Agora eu me dei passe livre". A expressão surge quando fala sobre o julgamento dos outros. Hoje, sente menos necessidade de corresponder a expectativas alheias. Se quer dizer algo, diz. Se quer admitir um sentimento antigo, admite. Se quer mudar de ideia, muda.

Essa liberdade também aparece quando aborda um tema raramente discutido por mulheres de sua geração: o desejo. Eliane fala abertamente sobre o fato de ainda sentir desejo, embora perceba que a sociedade já não olha para as mulheres idosas da mesma forma.

"Eu sinto desejo, sim. Mas não sou mais olhada com desejo". A constatação não vem acompanhada de amargura: "Fiz análise por muitos anos para ficar triste por causa disso".

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A avó de Antônio, Rita e Luísa, não se define como uma pessoa nostálgica. Pelo contrário. Explica a origem grega da palavra nostalgia. Fala da "saudade da pátria". Da importância das etimologias. Transforma uma conversa casual em aula sem perceber. Ou talvez percebendo, porque ensinar continua sendo um gesto natural.

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