“A volta de um filho para os cuidados de seus próprios pais”. A frase do prefeito da capital mineira, Álvaro Damião (União), marcou a transferência da gestão do Anel Rodoviário Celso Mello Azevedo para o município, em junho de 2025. Desde então, a via, que por décadas foi associada a problemas de conservação, acidentes e desafios de mobilidade, vem recebendo uma série de intervenções da Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), com reforço na fiscalização, ampliação do monitoramento e obras de infraestrutura. E já há efeitos positivos, com redução de acidentes.

A municipalização foi formalizada em 3 de junho de 2025 e colocou sob responsabilidade da PBH 22,4 quilômetros da via, entre o bairro Olhos D’Água, na Região do Barreiro, e o cruzamento com a Avenida Cristiano Machado, no bairro São Gabriel, Região Nordeste da capital. O trecho restante, de 4,1 quilômetros, entre Belo Horizonte e Caeté, continua sob gestão do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).

Construído na década de 1960 para retirar do Centro da capital o fluxo das rodovias BR-040, BR-262 e BR-381, o corredor passou por uma grande transformação ao longo das décadas. Quando a via foi inaugurada, em 1963, os 26,5 quilômetros de pista simples recebiam cerca de 1,5 mil veículos por dia. Hoje, mais de seis décadas depois, o Anel Rodoviário se tornou a via de trânsito urbano mais movimentada de Belo Horizonte, com cerca de 120 mil veículos circulando diariamente.

Segundo a PBH, as medidas adotadas a partir da municipalização têm como objetivo modernizar o sistema de fiscalização e ampliar a segurança na via, uma das principais da capital, por onde passam carros, ônibus e caminhões que atravessam a Região Metropolitana.


Desde que assumiu o trecho municipalizado, a prefeitura vem atuando diretamente na recuperação do pavimento, limpeza, operação do trânsito e segurança viária. Segundo a administração municipal, foram realizadas mais de 700 operações tapa-buracos ao longo da via, e pontos estratégicos em mais de 10 quilômetros passaram por recapeamento. Entre eles, os acessos às avenidas Amazonas, Cristiano Machado, Antônio Carlos, Carlos Luz e BR-040, além de marginais e alças de acesso.

A recuperação do pavimento ganhou um pacote de obras próprio. A PBH abriu licitação para contratação de empresa especializada na restauração, recuperação e melhoria do Novo Anel. O investimento estimado é de R$ 137,1 milhões. O contrato prevê serviços de instalação de obra, demolições e remoções, trabalhos em terra, drenagem, pavimentação, implantação de galerias celulares, contenções, fresagem, recapeamento asfáltico, reciclagem e reconstrução pontual das camadas do pavimento, além de sinalização horizontal.

A Superintendência de Desenvolvimento da Capital (Sudecap) também já iniciou as obras de readequação viária na interseção do Novo Anel com a Via Expressa. O objetivo é melhorar a infraestrutura viária no ligamento da Avenida Presidente Juscelino Kubitschek (Via Expressa) com o Novo Anel, possibilitando mais segurança e fluidez no trânsito em um dos principais acessos da capital. A prefeitura está investindo, com recursos próprios, R$ 32,6 milhões neste empreendimento. O prazo previsto de conclusão dos trabalhos é para o segundo semestre de 2027.

Somando outras ações de conservação, informou a prefeitura, serão destinados mais de R$ 180 milhões para obras de conservação, restauração, recuperação e melhorias no pavimento do Novo Anel. Também estão previstos R$ 43,4 milhões em serviços de roçada, limpeza e drenagem, com previsão de assinatura do contrato ainda neste mês.

FISCALIZAÇÃO RECONFIGURADA

A fiscalização no Novo Anel, como a PBH chama a via, ganhou uma nova configuração após a municipalização. Em fevereiro, a administração municipal colocou em operação 22 novos radares, responsáveis pelo monitoramento de 62 faixas de circulação ao longo do corredor viário. A definição dos pontos de controle não foi aleatória. Segundo a prefeitura, os equipamentos foram instalados com base em estudos técnicos que analisaram fatores como o volume de tráfego, as características de cada trecho e os locais com maior registro ou risco de acidentes.

Os limites de velocidade variam de acordo com essas condições. Na pista central, veículos leves podem trafegar a até 70 km/h, enquanto caminhões e outros veículos de grande porte têm limite de 60 km/h. Nas vias marginais, a velocidade máxima é de 60 km/h para todos os condutores. Já nos trechos com maior circulação de pedestres, o limite foi reduzido para entre 40 km/h e 50 km/h.

Além da instalação dos radares, a prefeitura promoveu mudanças na sinalização da via. Novas placas orientam veículos pesados a permanecer na faixa da direita, medida que busca melhorar a organização do trânsito, reduzir conflitos entre caminhões e automóveis e manter as faixas da esquerda livres para ultrapassagens e veículos em maior velocidade.

A fiscalização começa a ser reconfigurada na via com a entrada em operação de 22 novos radares

Leandro Couri/EM/D.A Press


CAMINHÕES E ÁREAS DE ESCAPE

Entre as medidas anunciadas pela PBH está a restrição da circulação de veículos pesados nas faixas 1 e 2 em determinados trechos do Novo Anel. Com a mudança, caminhões deverão trafegar obrigatoriamente pela faixa da direita. A fiscalização será realizada por meio de monitoramento eletrônico.

Outra intervenção prevista é a construção de duas novas áreas de escape na descida do bairro Betânia, nos quilômetros 539 e 540. As estruturas serão destinadas principalmente a veículos pesados com falhas mecânicas e terão caixas de contenção com material específico e pistas de transbordo para reduzir a gravidade de acidentes.

MURALHA BH

O monitoramento do Novo Anel deve ser ampliado com a implantação da Muralha BH, sistema que prevê a instalação gradual de câmeras ao longo de toda a via. Na primeira etapa, estão previstos nove pontos de monitoramento nos dois sentidos do corredor. As câmeras terão capacidade de identificar placas de veículos e registrar irregularidades no tráfego.

Foram implantadas 10 câmeras de videomonitoramento pela BHTrans e 40 pelo Centro de Operações da Prefeitura/Guarda Municipal. Portanto, já são 50 câmeras instaladas no Novo Anel que realizam o monitoramento do trânsito, melhorando a fluidez da via com a identificação mais ágil das ocorrências e a liberação do tráfego.

O projeto completo prevê 27 pontos de vigilância e cerca de 170 câmeras, com funções que incluem leitura de placas, registro de velocidade e identificação de mudanças de faixa ou circulação irregular de caminhões. Também estão previstas câmeras em passarelas, com foco no registro de circulação indevida de motocicletas e de veículos pesados em áreas restritas.

As imagens serão centralizadas no Centro de Operações de Belo Horizonte (COP-BH), que funciona 24 horas por dia e integra equipes da Guarda Municipal, BHTrans, Superintendência de Limpeza Urbana (SLU), Samu e forças de segurança. Hoje, o trecho conta com 50 câmeras em operação.

RESPOSTA A ACIDENTES

Com a ampliação da fiscalização, o Novo Anel passou também a contar com reforço de equipes em campo. Segundo a prefeitura, 427 agentes da BHTrans e Guarda Civil Municipal atuam na via. Entre janeiro e abril de 2026, foram registrados 1.125 sinistros de trânsito, contra 1.402 no mesmo período de 2025, queda de 19,8%. Os acidentes com vítimas passaram de 206 para 145, redução de 29,6%.

Apesar da queda, o corredor ainda concentra ocorrências frequentes. No mesmo período, foram 1.193 atendimentos a veículos com pane mecânica, além de registros de acidentes, obras e pontos de alagamento. Para dar conta da demanda, equipes operacionais e reboques atuam distribuídos ao longo da via.

LIMPEZA E MANUTENÇÃO

A rotina de limpeza também faz parte da operação do Novo Anel. Desde a municipalização, foram recolhidas mais de 1,6 mil toneladas de lixo nas pistas, marginais e estruturas da via, aponta a PBH. O trabalho inclui capina, roçada, retirada de entulho, limpeza de drenagens e remoção de animais mortos. O custo já ultrapassa R$ 1,2 milhão.

Em paralelo, a prefeitura vem substituindo defensas metálicas danificadas em diferentes pontos do corredor. As estruturas funcionam como barreiras para reduzir o impacto de saídas de pista. As intervenções ocorrem em trechos como o entorno do antigo Aeroporto Carlos Prates, a alça do Viaduto São Francisco, áreas próximas ao Shopping Del Rey e a região da Vila Suzana.

COMUNICAÇÃO

O pacote de melhorias inclui painéis eletrônicos para informar acidentes e retenções, placas de alerta na descida do Betânia e outdoors educativos sobre os riscos de trechos com alto índice de acidentes.

A prefeitura também iniciou tratativas com a Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT) e a concessionária responsável pela BR-040 para adoção de medidas complementares fora do trecho municipalizado.

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Passo para captar R$ 1 bi

A Câmara Municipal de Belo Horizonte aprovou ontem em primeiro turno o projeto de lei que autoriza a Prefeitura de Belo Horizonte a contratar um empréstimo de R$ 1 bilhão para investimentos no Anel Rodoviário. A proposta recebeu 32 votos favoráveis e cinco contrários e ainda precisará passar por uma segunda votação antes de seguir para as demais etapas de aprovação. O financiamento será contratado junto ao Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), instituição financeira criada pelos países que integram o grupo Brics — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Os recursos foram prometidos pela presidente do banco, Dilma Rousseff, durante viagem do prefeito Álvaro Damião (União Brasil) à China, em outubro do ano passado. A operação dependerá também da análise de órgãos federais e da autorização do Congresso Nacional. Ainda não há prazo definido para essa etapa.

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