SAÚDE PÚBLICA

Mães vão às ruas para cobrar pediatras 24 horas em hospital de Caeté

Moradores reivindicam atendimento pediátrico integral na Santa Casa e relatam demora, superlotação e insegurança durante as madrugadas e fins de semana

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A falta de atendimento pediátrico 24 horas na Santa Casa de Caeté, na Região Central do estado, motivou um grupo de mães a organizar uma caminhada para cobrar providências do poder público municipal. A mobilização será realizada na próxima terça-feira (2/6), com concentração às 14h, na Praça do Poliesportivo, e seguirá até a prefeitura.

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As famílias denunciam demora no atendimento, ausência de pediatras nas madrugadas e fins de semana, e insegurança diante do aumento de doenças respiratórias.

O movimento começou após vídeos publicados nas redes sociais pela publicitária e empreendedora Stef Vrato, de 33 anos, viralizarem na cidade. Mãe de Miguel, de 5 anos, e Liz, de 11 meses, ela conta que decidiu expor a situação depois de enfrentar dificuldades para conseguir atendimento para a filha caçula, que nasceu com cardiopatia.

“Minha filha pode ficar roxa a qualquer momento e eu não sei para onde levar. O fato de não ter pediatra 24 horas aqui aumenta ainda mais essa insegurança”, relatou.

A publicitária e empreendedora Stef Vrato, de 33 anos, é mãe do Miguel, de 5 anos, e da Liz, de 11 meses
A publicitária e empreendedora Stef Vrato, de 33 anos, é mãe do Miguel, de 5 anos, e da Liz, de 11 meses Arquivo pessoal

Segundo Stef, qualquer quadro respiratório simples pode se agravar rapidamente por causa da condição cardíaca da bebê. Ela conta que, em muitos casos, as famílias precisam recorrer à capital para conseguir assistência médica adequada. “Até chegar em Belo Horizonte demora cerca de uma hora. Fora a BR-381, que pode parar a qualquer momento. Isso gera um medo constante porque os hospitais da capital também estão superlotados”, disse.

A repercussão dos vídeos levou outras mães a compartilharem experiências semelhantes. Em um dos relatos na publicação, uma mãe contou que levou o bebê de dois meses à Santa Casa no fim de semana e recebeu orientações inadequadas.

“Fui lá e o médico mandou eu dar água para o meu bebê de 2 meses, para ele essa seria a solução. Ele foi pesar meu filho e afirmou que ele estava com 2,5 kg, sendo que ele nasceu com 3,795 kg. Não sabia nem o que estava fazendo coitado, saí daqui e fui direto para BH. Não era pediatra, pois só tem pediatra em dias de semana e fui em um sábado”, escreveu.

Outra mãe relatou que também precisou buscar atendimento na capital após o próprio médico sugerir a transferência da criança. “Meu filho estava passando mal e o levei para a Santa Casa durante a noite. Não havia pediatra e o próprio médico que nos atendeu sugeriu levá-lo para BH por se tratar de uma criança. Além de não ter pediatra 24 horas, a Santa Casa também não realiza exames para identificar realmente o que a criança tem. Levamos meu filho para BH e ele estava com dengue”.

Indignada, ela relata que o problema não é só no hospital. “É um absurdo essa situação. E, além da falta de pediatra 24 horas na Santa Casa, nos postos de saúde também demora quase um ano para conseguir uma consulta", comentou.

Há ainda relatos de espera prolongada e superlotação na unidade. Uma mãe afirmou que permaneceu quase oito horas aguardando atendimento com a filha doente.

"No mês passado fui com minha filha, ela estava com dengue, febre alta e ficamos de 10h55 até as 18h48 devido à alta demanda, por ter uma criança em estado grave internada e, no meio dos atendimentos, a pediatra teve que sair para fazer um parto cesariana de emergência, com isso atrasou ainda mais. Eu estava sem nenhum dinheiro, apenas com lanchinhos rápidos na mochila para ela, e nem um almoço ou um pãozinho à tarde foram capazes de oferecer a ela pelo menos”.

Outra moradora afirmou que desistiu de voltar a viver em Caeté após enfrentar dificuldades para atendimento infantil. "Nasci e cresci em Caeté e tinha muita vontade de voltar, mas acabei desistindo porque passei um tempo na cidade com o meu filho, ele adoeceu e não tinha pediatra no dia. Aqui onde moro tem pediatra 24 horas e nas cidades vizinhas também. Achei um absurdo precisar de assistência e não ter. Que as autoridades responsáveis tomem providências quanto a isso porque as nossas crianças merecem cuidado".

Stef conta que também presenciou situações graves durante atendimentos na Santa Casa. Segundo ela, em uma das vezes em que procurou o hospital, uma criança classificada com pulseira laranja aguardava há mais de uma hora por atendimento. “Eu fiquei cerca de quatro horas esperando, mesmo com poucas crianças na frente”, afirmou.

Ela também relata que o filho recebeu uma prescrição de medicamento com dosagem incompatível para a idade da criança. “O médico receitou uma dose de ibuprofeno que era para adulto. Quando fui olhar a bula, percebi o erro”, contou.

Após a repercussão nas redes sociais, mães criaram um grupo para discutir a situação da saúde infantil em Caeté. Atualmente, segundo Stef, mais de 220 mães participam da mobilização. Um abaixo-assinado cobrando pediatria 24 horas também foi criado e ultrapassou mil assinaturas em menos de 24 horas.

O documento foi entregue à prefeitura, à Câmara dos Vereadores e ao Ministério Público. Apesar disso, Stef relata que ainda não receberam respostas oficiais. “A gente procurou todos os órgãos possíveis, mas até agora o retorno foi silêncio”.

Segundo o gestor da Santa Casa, Carlos Júnior, seriam necessários cerca de R$ 80 mil por mês para manter atendimento pediátrico funcionando em tempo integral, mas a ampliação do serviço depende de atualização contratual e repasses da prefeitura.

As mães também reclamam da falta de estrutura para casos mais graves. Segundo Stef, crianças que precisam de UTI pediátrica acabam sendo transferidas para Belo Horizonte. “Estamos pedindo o básico. Não tem pediatra 24 horas e também não tem UTI pediátrica”, afirmou.

Outro ponto criticado pelas famílias é o que elas consideram falta de prioridade da administração municipal. Stef citou o valor previsto para um show na cidade ao comparar os gastos públicos com o custo estimado para manter pediatria integral.

“Conversamos com o superintendente do hospital e ele disse que R$ 80 mil manteriam pediatra 24 horas durante um mês. Enquanto isso, existe um show previsto na cidade que custaria cerca de R$ 125 mil. E esse custo dava para manter a pediatra durante um mês, principalmente durante essa crise”, declarou.

Com a caminhada, as famílias esperam pressionar o poder público e chamar atenção para a situação enfrentada por pais e mães da cidade. “A gente quer mostrar que existe uma dor real. Estamos pedindo socorro pelos nossos filhos”, afirmou Stef.

A reportagem procurou a Prefeitura de Caeté para comentar os relatos das mães, a reivindicação por pediatria 24 horas e os questionamentos sobre investimentos na saúde do município, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.

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*Estagiária sob supervisão do subeditor Gabriel Felice

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