TRAUMA E CICATRIZES

Terapeuta leva oito pontos ao tentar salvar cadela de ataque de cão em BH

Minas Gerais já soma 753 registros relacionados a cães perigosos ou agressivos em 2026. Mulher chegou a ser hospitalizada após o ataque na Pampulha

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O passeio matinal de domingo (29/3) com a cadela Mel terminou em trauma para a terapeuta ocupacional Thaiane Camilo de Amorim, que levou oito pontos no braço após ser atacada por um cachorro de grande porte no Bairro Bandeirantes, na Pampulha, em Belo Horizonte.

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O caso faz parte de um cenário mais amplo de violência envolvendo animais no estado: até o dia 5 de abril Minas Gerais somava 753 registros relacionados a cães perigosos ou agressivos em 2026.

O ataque aconteceu por volta das 10h20, quando Thaiane saiu para passear com Mel, uma vira-lata de 5 anos. Segundo ela, a cadela estava na coleira quando um cão de grande porte saiu de uma casa próxima, sem contenção, e avançou sobre as duas.

 

Thaiane conta que já conhecia o animal porque, semanas antes, em 5 de março, ele já havia corrido atrás da Mel durante outro passeio. Na ocasião, ela conseguiu pegar a cadela no colo e voltar para casa. Depois disso, identificou onde o cachorro morava.

No dia do ataque, ao perceber que o portão da casa estava aberto e que o cão saía sozinho para a rua, Thaiane pegou Mel no colo. Ainda assim, o cachorro correu em direção às duas. “Ele me mordeu no braço, me derrubou no chão e foi para cima da Mel. Eu consegui tirar ele de cima dela e ela saiu correndo. Foi horrível. Eu gritava para as pessoas da casa que o cachorro deles tinha me mordido e que a Mel tinha fugido, mas ninguém fez nada”, relata.

Desesperada, Thaiane saiu atrás da cadela, que fugiu em direção à Avenida Fleming, onde havia movimentação por causa de uma corrida de rua. Mel corria entre os carros enquanto a tutora tentava encontrá-la.

Após localizar Mel perto da lagoa da Pampulha, Thaiane procurou ajuda de policiais militares e foi encaminhada para a UPA Santa Terezinha. “Naquele momento eu achei que fosse morrer. Minha pressão caiu, fui levada de maca e achei que fosse perder o braço”, afirma.

Ela levou oito pontos no braço. Dias depois, o ferimento infeccionou, alguns pontos precisaram ser retirados e os medicamentos foram substituídos por antibióticos mais fortes. Thaiane também tomou vacina antirrábica e foi orientada a atualizar a antitetânica.

A terapeuta ocupacional registrou boletim de ocorrência, fez exame de corpo de delito no IML e abriu procedimento na Polícia Civil. Segundo ela, vídeos de câmeras de segurança mostram o cachorro circulando solto na rua, tanto no dia do ataque quanto no episódio anterior. “Esse cachorro poderia ter me matado ou matado a Mel. Agora eu quero responsabilização”, diz.

Segundo Thaiane, ao procurar pelos donos do cachorro a responsabilidade foi negada, "disseram que o cachorro é manso e que seria impossível ele ter feito aquilo. Primeiro falaram que não sabiam de nada, depois admitiram que uma mulher tinha saído correndo atrás do cachorro. Foram se contradizendo o tempo todo”, relata a vítima.

Além do trauma físico, Thaiane afirma que ainda não conseguiu voltar ao trabalho. Ela atua com crianças autistas e com deficiência, e diz que não sabe quando poderá retomar a rotina. “Eu não consigo mais sair na rua com a Mel. Ela também mudou de comportamento e ficou mais reativa. Foi muito traumático”, afirma. 

Minas Gerais soma 753 registros relacionados a cães perigosos ou agressivos em 2026. No ano passado foram 2.709 ocorrências, contra 2.111 em 2024. Segundo o tenente Elias Cristovam, os dados mostram aumento das ocorrências nos últimos anos, principalmente em áreas urbanas com grande circulação de pessoas e alta concentração de animais domésticos.

“Em 2025 houve um crescimento expressivo nos registros. Isso pode ser percebido pelos atendimentos da corporação, principalmente em municípios mais populosos”, afirma. O militar explica que o Corpo de Bombeiros atua de forma reativa, ou seja, atende os chamados feitos pela população.

“Muitos ataques envolvem cães que têm tutor, mas também há muitos animais abandonados nas ruas. O crescimento das ocorrências também está ligado à falta de controle por parte de alguns donos e ao aumento no número de acionamentos feitos à corporação”, diz.

Segundo ele, Belo Horizonte, Contagem e Divinópolis concentram boa parte das ocorrências por causa do maior número de moradores e de animais domésticos. Ele explica que, quanto maior o adensamento urbano e a concentração de animais, maior também a probabilidade de ataques e chamados envolvendo cães agressivos.

Para o tenente algumas raças aparecem com mais frequência nas ocorrências, como pitbull e chow chow, embora o comportamento agressivo também possa estar ligado a medo, maus-tratos, abandono e instinto de proteção. “Nem todo ataque envolve um animal abandonado. Em muitos casos, o cão tem tutor e acaba atacando o próprio dono ou pessoas próximas dentro de casa”, afirma.

Os ferimentos mais comuns costumam atingir braços e pernas, mas podem evoluir para rosto, pescoço e cabeça. “Em ataques mais severos, pode haver arrancamento de couro cabeludo, lesões em orelhas, nariz e lábios, além de fraturas em braços e pernas, dependendo da força da mordida”, diz.

O militar orienta que cães de grande porte sejam conduzidos com focinheira, mesmo quando considerados dóceis pelos tutores.

Entre as orientações repassadas pelos bombeiros estão:

  • Não correr ao perceber a aproximação de um cão agressivo;

  • Evitar gritos, movimentos bruscos e gestos que possam ser interpretados como ameaça;

  • Manter contato visual com o animal e se afastar lentamente, de frente para ele;

  • Usar comandos firmes, em tom de voz grave, como “não” e “para”;

  • Se estiver com um cachorro pequeno, tentar pegá-lo no colo, mas sempre observando se isso não aumenta o risco para a própria pessoa;

  • Nunca tentar separar uma briga entre cães colocando as mãos diretamente na boca ou no focinho do animal;

  • Em caso de ataque, tentar proteger rosto, pescoço e cabeça;

  • Estancar o sangramento com pano limpo ou roupa e procurar atendimento médico imediato;

  • Procurar orientação médica sobre vacinas antirrábica e antitetânica, principalmente quando não há histórico do animal.

No que se refere à lei, a advogada animalista e especialista em direito animal Lissandra Botteon explica que o tutor pode ser responsabilizado quando um cão ataca uma pessoa, mesmo se o animal fugir ou escapar da casa. “A guarda do animal é dever do tutor. Não basta alegar que o cachorro fugiu ou que o ataque aconteceu sem intenção”, explica. 

Segundo ela, a indenização pode incluir gastos com consultas, medicamentos, cirurgias, fisioterapia, danos morais, perda de renda e sequelas permanentes. Lissandra orienta que a vítima registre boletim de ocorrência, fotografe os ferimentos, guarde receitas, laudos e notas de medicamentos e, se possível, identifique o tutor e testemunhas.

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“Quando o animal tem dono, a responsabilidade recai diretamente sobre ele. Já quando o ataque é provocado por um cão abandonado, existe entendimento de que o município também pode ser responsabilizado”, afirma.

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