VÍTIMAS SOTERRADAS

‘Ouvia idosas gritando meu nome’, conta cuidadora de asilo que desabou

De plantão quando lar de idosos ruiu, funcionária se ressente de não ter podido salvar vítimas. Além do trauma, encara desemprego e dificuldades financeiras

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Começou com um estalo. Descrito por Penha Maria Dias Gonçalves, de 64 anos, como um raio atingindo algo, o barulho rasgou o silêncio da madrugada de 5 de março no Bairro Jardim Vitória, Região Nordeste de Belo Horizonte. “Cuidador quando escuta um barulho corre para perto do idoso para ver o que foi”, afirma. Perto da porta de um dos quartos da Casa de Repouso Pró-Vida, Penha ouviu mais um estalo ensurdecedor. “Quem está fazendo esse barulho? Vai acordar os idosos”, lembra ter dito. Quando alcançou a mão de uma idosa que estava acordada, ouviu o terceiro estalo e viu parte do teto cair sobre a residente. Foi a primeira queda do desabamento que provocou a morte de 11 idosos e do dono da instituição.

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“Foi caindo igual dominó, foi em questão de segundos, não dá para descrever, foi caindo muito rápido”, contou Penha em entrevista exclusiva ao Estado de Minas na terça-feira (31/3). Cuidadora na Casa de Repouso Pró-Vida há oito anos, ela foi uma das sobreviventes do desmoronamento do imóvel localizado na Rua Soldado Mário Neto, onde também funcionavam uma academia, um espaço de estética e uma residência familiar. 

“No meio daquela terra toda, tentando sair de lá, com aquela barulheira, eu escutava idosas gritando meu nome. Escutei o dono da casa me chamando. Isso é traumatizante. E eu não podia fazer nada”, relembra emocionada. Penha conta que era referência para os idosos residentes, que eles sempre a chamavam pelo nome quando precisavam de algo. “Nunca mais vou tirar aquela cena, aquele barulho da minha cabeça. Fica lembrando deles gritando socorro, gritando meu nome”, afirma. 

A madrugada do desastre

Penha conta que a noite de 4 de março foi normal, assim como o início do dia seguinte. Ela relata que tinha trocado as fraldas dos idosos e os colocando para dormir. Um dos detalhes que lembra é de que não tinha tido tempo de fazer o suco de maçã que preparava todas as noites para Dona Sônia, uma das residentes. “Deu 1h da manhã e ela veio atrás de mim falando que não dei o suco para ela”, conta com a voz embargada. Para agradar a residente, fez a sua bebida favorita.  

Cerca de trinta minutos depois de a idosa beber o suco e ir se deitar, Penha ouviu o primeiro estalo. O barulho a fez ir até um dos quartos das idosas verificar o que tinha acontecido. Na porta, lembra de ter ouvido o segundo estrondo e visto Dona Sônia acordada. Penha conta que, quando pegou na mão da idosa, ouviu mais um estalo e parte do teto caiu sobre a residente. 

“Virei para trás e vi que duas vigas caíram atrás de mim e quase me pegaram”, relembra a cuidadora com a voz entrecortada. Penha conta que, desesperada, correu para fora do imóvel. “A gente não enxergava nada, era muita poeira”, diz. A cuidadora estava no plantão acompanhada da patroa, que morava no andar de cima da casa de repouso. Penha descreve como sorte o fato de a chefe não ter trancado o cadeado do portão, porque isso facilitou para elas saírem do imóvel. 

“Nasci de novo. Tenho que comemorar meu aniversário no dia 5 de março. Não tenho explicação de como eu consegui sair do quarto onde começou a cair. Eu vi a primeira queda”, afirma. Apesar de ter se salvado, a cuidadora conta que não conseguiu sentir alívio quando saiu do imóvel. “‘Cá’ de fora escutava as idosas me chamando, queria entrar lá dentro de novo e ele [morador que estava do lado de fora] não deixou”, relembra. 

Vítimas 

O desabamento do imóvel provocou a morte de 11 idosos residente na Casa de Repouso Pró-Vida. Todos foram soterrados. Eram seis mulheres e cinco homens, segundo Adriana Brumana, de 46 anos, psicóloga e coordenadora do lar de idosos. Ela não estava no local no momento em que o imóvel ruiu, mas contou ao Estado de Minas como o ambiente era dividido. Segundo ela, eram 23 idosos residentes e eles estavam distribuídos em seis suítes, das quais quatro foram atingidas pelos escombros. Dos quartos mais afetados, dois ficavam na ala masculina e dois na ala feminina — em cada um havia quatro idosos.  

Adriana afirmou que cinco residentes ficaram soterrados, mas foram resgatados com vida. A coordenadora da Casa de Repouso Pró-Vida contou também que a instituição foi fundada em 2013 para acolher a avó de Renato Duarte, conhecido como Renatinho. Ele também morreu soterrado no desabamento. Ao todo, 12 pessoas morreram. O Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais (CBMMG) informou que resgatou oito pessoas com vida e nove conseguiram sair por meio próprios.

Penha afirma que tem sofrido muito desde o desastre, que tem tido tremedeiras e que fica muito emocionada ao lembrar do ocorrido. Ela conta que tinha uma paixão pelos residentes. “Até hoje não tenho explicação. Não sei, foi tão rápido. Não tenho como explicar o que foi. Até então, nós estávamos trabalhando tão tranquilo. Se a gente adivinhasse, provavelmente não iria arriscar minha vida e as dos idosos”, afirmou.  

A cuidadora também lamentou a perda de Renatinho, o chefe. “Ele era uma pessoa ótima com a gente (...) Nós ficamos órfãs, eu e as meninas que trabalhavam lá”, disse. Penha conta também que ainda não conseguiu visitar os idosos sobreviventes porque está sem condições financeiras para visitá-los nas instituições para onde foram levados. “Ficamos doidas para ver, a saudade é muito grande”, afirmou.

Dificuldades financeiras

Penha conta que o emprego também tem feito falta financeiramente. A cuidadora afirma que não tinha recebido o pagamento do mês, previsto para o dia 10, quando a tragédia aconteceu. Ela está à procura de um novo emprego como cuidadora de idosos. Ela conta que, apesar de saber que será difícil, precisa se ocupar. 

Outros funcionários do lar de idosos, assim como da academia que funcionava no mesmo imóvel, também estão financeiramente vulneráveis desde o desabamento, como conta Adriana Soares, 50 anos, confeiteira e amiga de Renatinho. Ela tem sido a responsável, junto da igreja, por arrecadar doações para os trabalhadores.

“A gente está ajudando da forma que pode”, diz. Segundo Adriana, 18 funcionários foram afetados, incluindo Penha. Desse total, dois homens que trabalhavam na academia dispensaram ajuda e cinco receberam cestas básicas.

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Adriana afirma que, no momento, os itens necessários são alimentos perecíveis, como leite e carne, além de café, óleo e biscoitos para as crianças. Também são necessários itens de higiene pessoal e limpeza. A arrecadação dos itens está sendo realizada na Igreja Nossa Senhora da Conceição, na Rua Jairo Brito dos Santos, 262, Bairro Jardim Vitória. 

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