SOTERRADA

Viúva de dono do asilo que desabou em BH: "Pedi que cortassem minha perna"

Soterramento provocou a morte de onze idosos residentes na Casa de Repouso Pró-Vida, no Bairro Jardim Vitória

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“Fiquei presa pelas pernas, ajoelhada (...) Tenho claustrofobia, pedi aos bombeiros que cortassem minha perna, mas que me tirassem dali”, conta Sâmia Nunes, de 31 anos, uma das sobreviventes do desabamento de um imóvel que, além de ser a casa dela e da família, funcionava como lar de idosos. Em entrevista exclusiva ao Estado de Minas, Sâmia relembra a madrugada do dia 5 de março, quando ficou horas presa embaixo dos escombros. O soterramento provocou a morte do marido dela, Renato Duarte, e de 11 idosos residentes na Casa de Repouso Pró-Vida, no bairro Jardim Vitória, Região Nordeste de Belo Horizonte.

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“Acordei, foi uma sensação. Não sei se ouvi algo ou se senti tremer. Dei três passos, estava indo encontrar o Renatinho, que estava em outro quarto. Decidi voltar para pegar a Laura [filha de 2 anos]. Coloquei os braços para pegá-la e tudo começou a cair”, contou Sâmia em entrevista dada a poucos metros dos destroços, na Rua Soldado Mário Neto, nesta sexta-feira (27/3). Ela conversou com a reportagem do Estado de Minas, mas solicitou que a entrevista não fosse gravada nem fotografada.

Sâmia relata que não se lembra ao certo de quanto tempo ficou presa nos escombros, acredita que foram cerca de duas horas, visto que o desabamento teria ocorrido por volta de 1h30. A viúva conta que gritou por socorro e chegou a ouvir alguns dos idosos gritando, mas não teve sinal do marido. Ela afirma que não viu as vítimas. "Foi desesperador", diz.

Quando o desabamento aconteceu, Sâmia estava abraçada à filha, que foi retirada com ajuda de um vizinho, conforme relatou. Ela conta que conseguiu proteger a filha com o próprio corpo. "Depois que a Laura saiu, fiquei mais tranquila", afirma. Além das pernas presas, que ainda apresentam hematomas, Sâmia foi atingida na cabeça e precisou levar quatro pontos.

Apesar de ter presenciado a tragédia e passado horas soterrada, ela afirma que, no momento, não teve noção do que tinha ocorrido. Ela descreve que a sensação foi como se tivesse sido empurrada para cima, mas, na verdade, tudo estava caindo. "Só tive dimensão de tudo que caiu depois que fui retirada", relata. Sâmia conta que, quando estava sendo socorrida pelo Corpo de Bombeiros, estava confusa sobre o andar em que se encontrava. Ela achava que estava no pavimento de cima da casa, mas estava no chão.

Luto 

Sâmia conta que, depois de ser resgatada, foi levada ao Hospital Metropolitano Odilon Behrens, onde descobriu que o companheiro, conhecido como Renatinho, havia morrido. Segundo ela, eles estavam juntos há seis anos. "Eu achava que ele ia sair com vida", afirma.

No entanto, Sâmia acredita que, se Renatinho não tivesse morrido no desabamento, ele não aguentaria ver o imóvel destruído e as mortes dos idosos. A viúva conta que o companheiro era apaixonado pelos idosos e pelo trabalho. No imóvel que desabou, funcionavam a Casa de Repouso Pró-Vida, uma academia e o estúdio de estética de Sâmia, além das casas dela, de Renatinho, da filha e dos sogros, que também sobreviveram.

Atualmente, a área do imóvel está totalmente isolada e ainda com os destroços do ocorrido. Sobrevivente do desabamento, Sâmia diz que não vai voltar a morar no local
No local, além do lar idosos, funcionava uma academia, um espaço de estética e residências da família Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press. Brasil - Belo Horizonte - MG

Sâmia diz que a filha tem sido sua motivação para ser forte. Ela também perdeu os equipamentos de trabalho e todos os pertences. "Tudo meu está embaixo da terra", afirma. A viúva conta que está fazendo acompanhamento psicológico e, junto da filha, tem ficado na casa da mãe. Além disso, diz que recebeu muito suporte e tem vivido com itens doados, inclusive as roupas que estava vestindo. Enquanto conversava com a reportagem, várias pessoas que passavam na rua paravam para abraçar Sâmia e perguntar sobre a filha dela.

Ela conta ainda que conseguiu ir aos enterros de três dos idosos, que ocorreram um dia após o de Renatinho.

Futuro do imóvel 

"Para cá eu não volto", diz a viúva. Sâmia afirma que seria muito difícil voltar a viver onde construiu tantas memórias. Segundo ela, havia cerca de quatro anos que se mudou para o imóvel para morar com Renatinho. Ela conta que a filha tinha uma ligação muito forte com os idosos residentes da casa de repouso e que a chamava de vovô e vovó. Até o momento, Sâmia afirma que não recebeu retorno das autoridades sobre o motivo do desabamento.

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Atualmente, a área do imóvel está totalmente isolada e ainda com os destroços do ocorrido, que trazem para o bairro um clima triste, como contou Luciana Lira, de 53 anos, cuja casa fica aos fundos do terreno. Ela afirma que era a construção que movimentava a região, com pessoas que frequentavam a academia ou visitavam os idosos.

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