Destroços da Barragem do Fundão, em Mariana. Rompimento atingiu outras barragens do complexo como Santarém e Germano ampliando a tragédia - (crédito: CBMMG)
Os dados são do Boletim 2026 do Observatório de Barragens de Mineração do Grupo de Pesquisa EduMiTe/UFMG, com dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), que deve ser publicado nos próximos dias e ao qual a reportagem do Estado de Minas teve acesso.
Esse levantamento contextualizado e crítico de nível nacional alerta ainda para os perigos latentes, como o número crescente de estruturas que aparecem com métodos construtivos não determinados e considerados como "indefinidos".
Outro problema grave encontrado pelos pesquisadores refere-se à formação de complexos de barragens, uma aglomeração de estruturas que as faz sujeitas a efeitos em cadeia em caso de rompimentos ou de incidentes que podem ser potencializados.
Perigos que são agravados pela estação chuvosa, que já registrou um histórico de inundações em 25 e 26 de janeiro de 2026, nas minas de Fábrica e Viga, da Vale, em Ouro Preto.
Em meio às chuvas, ocorreu a erosão de uma leira (estrutura para drenar água e sedimentos) sobre uma cava (depressão onde é feita a escavação para a extração) da Mina de Fábrica. Um dia depois, na Mina de Viga, um talude cedeu atingindo um sump (bacia de decantação para retenção de sedimentos escavada para que o material não chegue a recursos hídricos).
Os dois incidentes resultaram em transbordamentos e no ingresso de rejeitos e detritos nos afluentes do Rio Maranhão, na Bacia do Rio Paraopeba, além de invadir uma área técnica da mineradora vizinha, CSN.
O estudo comparativo entre janeiro de 2025 e o mesmo mês de 2026 traz dados preocupantes sobre o QFA, compreendido por 28 municípios, entre eles expoentes minerários como Caeté, Congonhas, Itabirito, Itabira, Itatiaiuçu, João Monlevade, Mariana, Nova Lima, Ouro Preto, Sabará e Santa Bárbara.
O número de barragens registradas nessa região caiu de 227 para 213 no período. Contudo, o volume de rejeitos aumentou em 9 milhões de metros cúbicos (m³).
Esse aumento de volume equivale a uma barragem inteira do porte da B1 da Vale (a que rompeu em Brumadinho matando 272 pessoas em 2019 e devastando o Rio Paraopeba) em apenas um ano.
Lama e rejeitos que vazaram da Mina Córrego do Feijão em Brumadinho deixaram 272 mortos. No total três barragens do complexo se romperam
Wikimedia commons
Por que as barragens estavam sendo desmanchadas?
De acordo com a coordenadora do Observatório de Barragens de Mineração do EduMiTe/UFMG, Daniela Campolina, apesar do processo de encerramento de barragens desde o rompimento da Barragem de Brumadinho, sobretudo as construídas pelo método a montante, considerado o mais perigoso e hoje proibido, a produção das minas não parou.
"As operações em outras barragens continuam e há algumas sendo alteadas (ampliadas) para comportar mais material. Isso, mesmo em áreas onde há pessoas nas Zonas de Autossalvamento. Nestes locais sensíveis não se pode mais construir barragens, mas as estão ampliando. O que para nós parece um contrassenso", avalia a pesquisadora da UFMG.
"Há, também, outras barragens que não atingiram o volume completo de seu licenciamento e que continuam a receber rejeitos em ritmo como vimos, de uma barragem de Brumadinho em um ano. A legislação prevê outros métodos menos arriscados, mas economicamente ainda é mais barato ampliar barragens", destaca Campolina.
Outro problema que a coordenadora do Observatório de Barragens de Mineração identifica em expansão é a formação dos complexos de barragens entre várias minas. Só no QFA, 79 (92%) das 86 barragens estão em complexos, segundo o estudo.
"Desenvolvemos uma metodologia de mapeamento de barragens que considera a proximidade de 10km uma da outra, em uma mesma rede hidrográfica, para a formação de um complexo. A proximidade é tanta que problemas em uma delas afetam as demais. Isso é agravado por estruturas em nível de alerta e que tenham dano associado alto ou médio", afirma a pesquisadora.
"Temos complexos no QFA, por exemplo, com até 10 barragens em sequência, com a mancha de inundação de uma se sobrepondo a outras, algumas de menor dano associado, mas que se atingidas pelo rompimento de uma de maior dano associado se soma neste poder destrutivo", alerta a professora.
Casos assim já ocorreram antes, como em Mariana, em 2015, quando o rompimento da Barragem do Fundão atingiu a Barragem Santarém, que retinha água, tornando os rejeitos mais fluidos e rápidos. Foram 19 mortos e uma destruição que se alastrou pela bacia do Rio Doce de Minas Gerais até o mar, no Espírito Santo.
Quando a Barragem B1 de Brumadinho se rompeu no ano de 2019, em seu caminho foram atingidas ainda as barragens B-IV e B-IV-A da Mina Córrego do Feijão deixando 272 mortos e 26 municípios atingidos ao longo do vale do Rio Paraopeba.
Sistema de drenagem se rompeu liberando rejeitos e água na cava da Mina de Fábrica, da Vale, em Ouro Preto
Reprodução
Barragens fantasma
Outro grave problema encontrado em outros estados brasileiros é a existência de barragens sem informações sobre o seu método construtivo ou de ampliação.
Das 27 novas barragens cadastradas no Brasil em 2025, 7 (26%) não informaram qual o seu método construtivo. Ou seja, acabaram de ser erguidas ou cadastradas sem que sequer saiba como foram construídas.
O Mato Grosso lidera a expansão com 11 novas barragens em 2025 e já possui 180 estruturas (2º lugar nacional), uma delas sem informações sobre o método construtivo.
O Amapá aparece como o segundo estado com mais barragens cadastradas em 2025, com 6 novas estruturas. Duas dessas barragens foram registradas com método construtivo "indefinido".
Outro aspecto preocupante é o fato de haver barragens recém-cadastradas já com nível de emergência acionado.
"O que levanta duas hipóteses igualmente graves: ou essas estruturas iniciaram sua vida operacional já em condição de instabilidade, ou se tratam de empreendimentos preexistentes que só passaram a constar nos sistemas oficiais após a identificação de riscos, possivelmente por meio de denúncias ou fiscalizações", indica o relatório da UFMG.
No Pará, com cinco barragens registradas em quatro municípios em 2025, duas barragens foram cadastradas com método construtivo indefinido.
Em São Paulo, as duas barragens cadastradas em 2025 no município de Alambari foram registradas com método construtivo indefinido.
"Precisamos cobrar que isso seja levantado até para saber se a lei está sendo cumprida e que não há mais estruturas a montante. E mais, como é que uma estrutura que sequer informa como foi construída consegue licenciamento para funcionar?", indaga a pesquisadora Daniela Campolina.
Toda barragem quando é construída tem um maciço inicial para reter os rejeitos ou sedimentos lançados de uma fonte. Quando a estrutura só tem esse maciço, o método construtivo é chamado de etapa única.
Quando sua capacidade precisa ser ampliada, ocorrem os alteamentos. O mais econômico e arriscado deles é o a montante, que consiste em erguer mais estruturas no sentido da fonte de resíduos e sobre os rejeitos. É a composição das barragens rompidas em Mariana e Brumadinho, proibida desde 2019 e com prazo para desmanche dessas estruturas.
Mais estáveis, outras duas formas de alteamento são em linha de centro, que ocorre de forma a seguir a linha da crista e apoiar no sentido da chegada de detritos e no de saída. A mais sólida é a jusante, com ampliação no sentido da saída dos rejeitos, gastando mais material, tempo e espaço e por isso, mais custosa.
Estrago da inundação de lama e rejeitos provocada pelo transbordamento na Mina de Viga, da Vale, em Congonhas
Prefeitura de Congonhas
Recomendações de segurança
O Boletim do EduMiTe/UFMG estruturou cinco eixos de recomendações centrais, priorizando o aprimoramento da transparência e a integridade dos dados públicos no sistema da ANM.
Isso inclui a incorporação de dados hidrológicos, identificação detalhada de estruturas (como pilhas e diques) e a publicização de pontos de captação de água em áreas de risco. Simultaneamente, cobra-se o fortalecimento da fiscalização, com vistorias presenciais independentes — especialmente em períodos chuvosos — e a aplicação rigorosa de sanções para barragens com métodos construtivos proibidos ou não informados.
Outra frente essencial é a revisão conceitual e articulação territorial, sugerindo que o termo "rompimento" englobe também vazamentos e falhas parciais para melhorar a resposta institucional.
O estudo recomenda que Comitês de Bacias e Municípios incorporem os riscos de mineração em seus Planos Diretores, atualizando manchas de inundação e protocolos de emergência. Por fim, defende-se uma mudança estrutural para uma gestão preventiva, com maior participação da sociedade civil e controle social sobre os órgãos fiscalizadores.
Boletim da UFMG traz realidade preocupante das barragens brasileiras e sobretudo mineiras
Arte
Radiografia detalhada das barragens e riscos minerários
Concentração mineira: o estado de Minas Gerais detém 35% de todos os barramentos registrados no Brasil
Crescimento invisível: a redução de 14 estruturas no Quadrilátero Ferrífero não impediu o acúmulo de mais 9 milhões de m³ de rejeitos
Equivalência de volume: o aumento anual de detritos no QFA iguala-se à capacidade da barragem B1 que se rompeu em Brumadinho
Complexos de risco: cerca de 92% das barragens da região central de Minas estão aglomeradas em complexos, favorecendo o efeito dominó
Proximidade perigosa: mapeamento que considera o risco de estruturas situadas a menos de 10km uma da outra na mesma rede hidrográfica
Barragens fantasma: surgimento de 27 novas estruturas no Brasil em 2025 sem qualquer informação sobre o método de construção
Expansão no Mato Grosso: liderança nacional em novos registros com 11 estruturas cadastradas no último ano
Alerta no Amapá: registro de seis novas barragens; sendo duas delas com método construtivo classificado como indefinido
Instabilidade precoce: identificação de barragens que já entram no sistema oficial com o nível de emergência acionado
Zonas de autossalvamento: continuidade de operações e ampliações mesmo em áreas com presença de comunidades sob risco imediato
Mancha de inundação: sobreposição de áreas de impacto onde o rompimento de uma barragem maior pode atingir e romper estruturas menores
Fator econômico: preferência das mineradoras pelo alteamento de barragens existentes em vez de métodos novos por ser financeiramente mais barato
Eixos de segurança e recomendações preventivas
Transparência de dados: necessidade de aprimorar a integridade das informações públicas no sistema da Agência Nacional de Mineração
Dados hidrológicos: inclusão obrigatória do comportamento das águas e das chuvas nos sistemas de controle das estruturas
Identificação detalhada: exigência de publicidade sobre a localização exata de diques, pilhas e pontos de captação de água
Fiscalização independente: realização de vistorias presenciais físicas, com foco especial nos meses de maior incidência de chuva
Aplicação de sanções: punição rigorosa para empresas que mantêm métodos proibidos ou omitem informações construtivas
Revisão de conceitos
Planejamento municipal: incorporação obrigatória das manchas de inundação nos Planos Diretores de cada cidade
Articulação territorial: participação ativa dos Comitês de Bacias Hidrográficas na gestão dos riscos de mineração
Gestão preventiva: fomento ao controle social e maior participação da sociedade civil nas decisões dos órgãos fiscalizadores
Descomissionamento urgente: cumprimento dos prazos legais para o desmanche total das estruturas construídas pelo método à montante
Panorama geográfico e técnico do Quadrilátero Ferrífero
Municípios em destaque: abrange 28 cidades mineiras, incluindo polos como Caeté, Congonhas, Itabira e Itabirito
Incidentes recentes: registros de erosão em leiras e deslizamento de taludes nas minas de Fábrica e Viga durante as chuvas de 2026
Impacto hídrico: entrada de detritos nos afluentes do Rio Maranhão e danos na Bacia do Rio Paraopeba
Método de etapa única: construção que utiliza apenas um maciço inicial para a retenção de sedimentos
Alteamento a jusante: ampliação no sentido da saída dos rejeitos, considerada a técnica mais sólida e segura, porém mais custosa
Linha de centro: técnica de ampliação que segue a crista da barragem e se apoia tanto na chegada de detritos quanto na saída
Técnica a montante: método mais arriscado que ergue novas etapas sobre os próprios rejeitos, proibido por lei desde 2019
Bacia de decantação: uso de estruturas tipo sump para retenção de sedimentos e proteção de recursos hídricos