
Depois da deportação, brasileiros enfrentam nova saga para chegar em casa
Após desembarcarem no aeroporto de BH, alguns ainda enfrentam longos trechos de ônibus para, finalmente, rever a família
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Siga noAlguns dos 84 brasileiros deportados dos Estados Unidos, que desembarcaram no Aeroporto Internacional de BH, em Confins, na noite de sábado (25/1), ainda não conseguiram chegar em casa. Depois de enfrentarem uma conturbada viagem internacional, esperarem mais de 24h para pousar na Grande BH, alguns ainda enfrentam longos trechos de ônibus, cruzando o Brasil para, finalmente, rever a família.
O primeiro a pousar em solo brasileiro, após a posse do presidente Donald Trump, deveria ter chegado em Confins na sexta-feira (24/1). Porém, ao parar para abastecer em Manaus, a aeronave norte-americana apresentou problemas técnicos e o voo foi cancelado. Quando desembarcaram no aeroporto de BH, os passageiros relataram terem sofrido humilhações, ameaças e até agressões durante o trajeto. Denunciaram ainda as condições precárias da aeronave disponibilizada pelo governo norte-americano para trazê-los de volta ao Brasil.
A cabeleireira Silene Novais, de 48 anos, deve chegar à Ji Paraná, em Rondônia, na quarta-feira (29/1). Quando conversou com o Estado de Minas, na tarde desta segunda-feira (27/1), estava em Goiânia à espera de um ônibus para Cuiabá, no Mato Grosso, previsto para as 22h30. Ela embarcou na rodoviária de BH para Goiás, no domingo (26/1), às 16h30.
“Estou cansada demais, estressada. Estou em viagem desde terça-feira, quando saí da detenção. Me levaram para outra cidade, foram 15h (de trajeto) algemada”, relembra.
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Descansar e rever a família
Silene estava nos Estados Unidos há oito meses, quando foi detida ainda na fronteira com o México. A intenção, segundo ela, era ficar um ano no país. Disse que tentou um visto de turista, em janeiro do ano passado, mas foi negado.
A cabeleireira afirma que poderia ter desembarcado em Manaus, por ser mais próximo de casa. Mas preferiu seguir com os outros brasileiros. “Nos unimos para desembarcar todos juntos.” Segundo ela, os passageiros formaram um grupo e preferiram descer em Confins para denunciar as agressões que sofreram e as condições precárias da aeronave que veio dos Estados Unidos.
O maior desejo de Silene é chegar em casa, descansar e rever a família. “Tem oito meses que não falo com meus pais, quero ver a minha netinha de um ano e quatro meses, meu filho. Depois penso no que fazer.”
A cabeleireira conta que está meio atordoada com tudo que passou. “Você nem acredita que está acontecendo tudo isso.” Segundo ela, não consegue dormir direito desde que foi detida na fronteira. “Na detenção eram 48 mulheres, você não consegue dormir. Desde quando fui presa que não consigo dormir tão bem. Vamos ver quando chegar em casa e colocar as coisas no lugar.”
Durante o tempo em que ficou detida, ela diz que começou a compor músicas de louvor e que o passatempo a ajudou a enfrentar a situação. “Fazia os louvores, louvava, muitas detentas choravam de ouvir (a música). Triste também de ver o sofrimento delas. Me ajudou porque ocupava um pouco a mente”, relembra. Ela diz que era a única brasileira entre as detentas. “No início, eu só chorava. Depois que comecei a ocupar minha mente com os louvores.”
Alívio em voltar para casa
Eliezer Corrêa, de 36, é outro que ainda enfrenta a estrada para chegar em Sergipe. Ele conta que saiu da rodoviária de BH, no domingo às 21h e estava em Vitória da Conquista, na Bahia. A previsão é que chegue em casa, na Grande Aracaju nesta terça-feira (28/1), à noite.
A viagem começou na madrugada de quarta-feira (22/1), quando deixou a penitenciária em que estava nos Estados Unidos. Depois de todo o sofrimento enfrentado, durante o voo de volta para o Brasil, ele diz que os passageiros fizeram um grupo e que pretendem pedir uma indenização a empresa aérea norte-americana que fez o traslado até Manaus. “No nosso entendimento sofremos uma tentativa de homicídio, pelas condições da aeronave”, afirma.
Corrêa foi para os Estados Unidos em outubro e se entregou na fronteira com o México. Ficou detido em uma penitenciária desde então, esperando por um asilo no país. Disse que na quarta-feira foi acordado de madrugada e o policial informou que ele ia conseguir entrar nos Estados Unidos. Porém, ficou sabendo que seria deportado durante o trajeto.
Enquanto esteve preso, conta que conseguiu avisar a um primo sobre sua situação. E pediu para o parente conseguir um advogado para tirá-lo de lá. O primo teria pago US$ 2 mil, mas o advogado nunca entrou em contato com Corrêa.
Ele é pai de quatro crianças que espera rever em breve. “É um alívio saber que estou voltando pra casa”, afirma.
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Reunião
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu, nesta segunda-feira (27/1), com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, para discutir o caso dos brasileiros deportados. No encontro, o presidente debateria qual o posicionamento adotado pelo Brasil tanto sobre o voo com 88 repatriados, quanto em relação ao endurecimento da política externa dos EUA voltada à América Latina. Porém, o resultado da reunião ainda não foi divulgado.