Um trecho da Ilíada foi encontrado sobre o abdômen de uma múmia de 1.600 anos em Oxirrinco, no Egito. O papiro contém literatura grega, diferente das fórmulas rituais identificadas em enterros anteriores. A Universidade de Barcelona confirmou a descoberta, que amplia o estudo das práticas funerárias do período romano.
Uma múmia romana guardava versos de Homero
A equipe da Universidade de Barcelona localizou a múmia na tumba 65, setor 22, da necrópole de Al Bahnasa, antigo nome moderno da cidade de Oxirrinco. A escavação ocorreu entre novembro e dezembro de 2025, durante uma missão arqueológica no Egito.
O papiro estava na região do abdômen, entre os materiais ligados à preparação funerária. A múmia pertence ao período romano e tem aproximadamente 1.600 anos. A posição da folha, registrada durante a escavação, foi essencial para entender que ela não apareceu ali por acaso.

Que parte da Ilíada foi identificada?
Durante a análise realizada no início de 2026, a papiróloga Leah Mascia conseguiu ler o material. O professor Ignasi-Xavier Adiego identificou versos do livro II da Ilíada, na passagem conhecida como catálogo das embarcações, que enumera forças gregas reunidas para a guerra de Troia.
A identificação foi anunciada em abril de 2026 pela Universidade de Barcelona. Ela não significa que um exemplar completo do poema tenha sido encontrado. Trata-se de um fragmento de papiro, cujo valor está também no lugar incomum em que foi preservado.
O uso de literatura na mumificação chama atenção
Escavações anteriores em Oxirrinco já haviam localizado papiros gregos incorporados à preparação de corpos. Entretanto, os exemplos conhecidos traziam sobretudo textos de caráter mágico ou ritual. A presença de versos épicos cria uma pergunta nova sobre os objetos escolhidos para acompanhar uma pessoa morta.
- Local: Tumba 65, setor 22, na necrópole da antiga Oxirrinco, no Egito.
- Data: Escavação em 2025 e leitura do fragmento em 2026.
- Conteúdo: Versos do livro II da Ilíada, no catálogo das embarcações.
- Dúvida: A razão para incluir um poema épico no sepultamento permanece desconhecida.
Os pesquisadores podem comparar esse material com outros documentos funerários e literários da região. A diferença de conteúdo não revela, sozinha, o motivo da escolha. Ainda não está demonstrado se os versos tinham uma função simbólica, prática ou ligada a quem foi sepultado.
Por que Oxirrinco conserva tantos papiros?
A antiga cidade egípcia é conhecida pela grande quantidade de documentos encontrados em escavações. A coleção dos papiros de Oxirrinco, mantida em parte pela Universidade de Oxford, inclui registros comerciais, correspondências e obras literárias em diferentes idiomas, especialmente o grego.
Muitos desses textos ajudam a reconstruir a vida cotidiana de pessoas que viveram no Egito sob diferentes governos. O achado ligado à múmia amplia esse cenário: mostra um texto literário em contexto funerário, situação distinta dos papéis encontrados em arquivos ou depósitos antigos.

O que a descoberta muda na pesquisa?
A relevância está na associação entre poesia grega e um procedimento de mumificação. Não é necessário imaginar uma cerimônia desconhecida para reconhecer a novidade. A comparação com outros achados pode indicar se ocorreu uma escolha deliberada de versos ou algum reaproveitamento de material.
A região de Oxirrinco reúne vestígios de culturas egípcia, grega e romana. Esse encontro histórico ajuda a formular perguntas sobre hábitos de leitura, circulação de obras e práticas de sepultamento. Nenhuma dessas possibilidades, porém, comprova qual era a intenção de quem preparou a múmia.
A intenção por trás do papiro continua sem resposta
A missão arqueológica atua em Oxirrinco desde 1992 e segue reunindo evidências das áreas funerárias. Para esse fragmento, a informação mais sólida é a identificação dos versos e sua localização na múmia. Determinar o sentido cultural do uso exige comparações e novas análises.
O achado aproxima dois aspectos da vida antiga que costumam ser estudados separadamente: a literatura de Homero e os cuidados com os mortos. Por enquanto, o papiro permite levantar hipóteses, mas não definir por que aqueles versos foram colocados junto ao corpo.
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