Dona Lucinha será homenageada com livro infantojuvenil escrito pela filha
Firme na missão de perpetuar o legado da mãe, Márcia Nunes, a Marcinha, se prepara para lançar livro infantojuvenil em novembro
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“O que não está escrito, o vento leva.” Márcia Nunes, a Marcinha, guardou essa frase da sua mãe, Dona Lucinha, como uma direção para a vida. Formada em história, ela logo entendeu a importância de registrar tradições – sem deixar de lado, como uma boa contadora de casos, a transmissão oral – e acabou assumindo essa missão dentro do restaurante da família no Bairro São Pedro, Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Agora se prepara para lançar um livro infantojuvenil.
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Antes mesmo de se tornar escritora, a literatura já a acompanhava. Aos 17 anos, decidida a ser filósofa, Marcinha ouviu da escritora Lygia Fagundes Telles. “Minha filha, não procura gato preto no quarto escuro, não.” Assim, captou que não estava pronta para a filosofia e foi para a história. “Falei: 'vou sair do mundo mais amplo e vou fincar o pé no chão'”, relembra, em entrevista ao podcast Degusta.
A historiadora fincou os pés na sala de aula e foi professora em várias escolas. Ao mesmo tempo, tocava uma pesquisa sobre a Festa do Rosário do Serro, sua cidade natal, que durou 30 anos e rendeu a publicação de seu primeiro livro.

Produzidos artesanalmente pelo restaurante Dona Lucinha, o pururuca e a linguiça são sugeridos para o momento do tira-gosto Marcos Vieira/EM/D.A Press
Quando teve filhas gêmeas, Marcinha falou para a mãe que estava pensando em dar uma ajuda no restaurante. “Ela foi imediata, na lata. Você venha, mas não pense que ganhar dinheiro com restaurante é fácil”, conta. O alerta vinha de uma mãe que conhecia muito bem sua filha. “Apesar de ter vivido nesse ambiente, o meu mundo era do livro. Gastava o meu tempo decorando poesia desde criança.”
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Exatamente por isso, Dona Lucinha usou a literatura como forma de fazê-la entrar de cabeça no negócio: pediu que organizasse uma homenagem a um grande amigo, Oswaldo França Júnior – o escritor morreu antes da inauguração do restaurante. “Isso mostra uma pessoa sensível, inteligente, uma mãe para cada filho, apesar de sermos 11.”
Seu plano era trabalhar com a mãe por uns seis meses. Mas nunca mais voltou para a sala de aula. Dona Lucinha era muito procurada para falar sobre a sua cozinha e era Márcia quem ajudava com os textos. “Ela falava assim: 'eu entregava para Márcia retalhos de pano, ela me entregava uma colcha'.”
Aproximação terapêutica
Dessa convivência no dia a dia do restaurante nasceu o livro “História da arte da cozinha mineira”, que mãe e filha escreveram juntas. Márcia precisava entender verdadeiramente Dona Lucinha, porque o texto era em primeira pessoa.
“Foi uma aproximação maravilhosa entre nós duas, para mim foi muito terapêutico. A mamãe era intensa demais e eu tímida demais. Sempre de óculos, sempre miudinha, sempre vendo o mundo por outro olhar, então ficava tímida diante da minha vida familiar, porque era muito barulhenta. Eu queria silêncio.”
O que antes parecia distante se tornou continuidade. Antes de morrer, Dona Lucinha deu para a filha o broche de talheres que usava na dólmã. “Aceitei, mas guardei. Quando a mamãe fez a passagem, entendi que ali tinha uma coisa para mim. Tomei como uma entrega, um bastão, não deixa morrer, é uma chama”, confidencia a historiadora, que entrou, literalmente, para a cozinha e se sentiu inteira para administrar o negócio e perpetuar o legado da mãe. “Agora falo que sou total a filha da mãe.”

Na entrevista para o podcast Degusta, Márcia Nunes, a Marcinha, conta que pensa em oferecer o livro para escolas como material didático Marcos Vieira/EM/D.A Press
Com um olhar sempre interessado para a cultura, Marcinha gosta de levar novidades para o restaurante, como o cardápio de poesias, em que o cliente escolhe o texto e recebe declamação na mesa. “A única coisa que nós não podemos mudar é o nosso modo de fazer. Isso é para sempre. Agora, eu dou roupagens, molduras, faço festas, faço sarau, faço seresta, porque gosto de trazer a cultura mais abrangente para o ambiente. Fica mais festivo.”
Sonho compartilhado
O próximo passo é lançar, no mês que vem, um livro infantojuvenil como uma homenagem para a mãe, que foi professora de escola rural e dizia ter aprendido mais do que ensinado. “Sempre na história dela ela lembrava dessa situação de ter aprendido com as crianças e de tudo que as crianças ofereceram a ela. Já bastante idosa, ela falou que gostaria de escrever mais um livro. Chegamos a fazer um projeto para fazer um livro para criança, mas não deu, não foi possível.”
Agora, junto com o jornalista João Eugênio, a pedagoga Valéria Eugênio e a ilustradora Paula Oliveira (com a filha Nina), ela vai concretizar o sonho da mãe. O livro “Dona Lucinha e o baú das sete chaves” será publicado pela editora Aletria. “Nós vamos abrindo chaves, narrando histórias e relacionando aos ingredientes. Então, o livro ganhou toda a história da formação da cozinha mineira e da riqueza alimentar dos mineiros numa linguagem infantil com belíssimas ilustrações, tendo o lúdico das chaves do baú”, resume.
O desejo deles é que a obra alcance as escolas e seja usada como um material didático voltado para formação da visão e valorização da cozinha mineira. “Acho que isso é uma coisa bastante rica e relevante. Então, estou muito feliz de oferecer em memória da mamãe – o livro será dedicado a ela – esse presente que vai ser para a cultura mineira.” Estão programados dois lançamentos no restaurante, um no dia 17 e outro no dia 21 de novembro (aniversário de Dona Lucinha).

A canjiquinha dá boas-vindas aos clientes do restaurante Dona Lucinha, que podem dosar a quantidade de molho de pimenta com um conta-gotas Marcos Vieira/EM/D.A Press
Frutos do legado
Fora o livro, Marcinha revela que está começando a nascer a ideia de contar a história da mãe no audiovisual – existem pessoas interessadas em fazer um longa sobre a vida de Dona Lucinha. As ideias para homenageá-la só se multiplicam.
“Não para, a coisa frutifica. Não é que a gente procura, vai brotando. A mamãe ela própria se autodenominava como uma árvore enraizada. Até entendo que o que eu faço com o legado dela é adubar. Aí uma árvore bem adubada frutifica. Então, a gente tem colhido muitos frutos pela memória dela e vão vindo coisas que às vezes nem imagino. Já sugeriram até rua com o nome dela.”
Minas na mesa
Márcia Nunes levou para a mesa do podcast o ritual seguido no restaurante. Os clientes são recebidos com uma canequinha de canjiquinha de boas-vindas – é o prato que ela entende que melhor representa Dona Lucinha. “A canjiquinha é abençoada, ela se multiplica. A mamãe fazia as coisas se multiplicarem por inclusão, por sensibilidade, por bondade.”

O queijo servido com doce de leite é do Serro, onde está a origem dessa família que honra as tradições de Minas Gerais Marcos Vieira/EM/D.A Press
Depois eles já indicam petiscar, que é algo muito enraizado na cultura mineira, com o pururuca, que é a pele crocante da barriga do porco (sem carne), que resulta em mordidas com muito barulho. Já a linguiça da casa acompanha molho de rapadura e especiarias e pode virar recheio de sanduíche com pão de queijo. Por fim, doce de leite com queijo do Serro, onde está a origem dessa família que honra as tradições de Minas Gerais.
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