Entre salões aristocráticos e cadernos de receitas manchados pelo tempo, a gastronomia constrói um curioso tipo de eternidade: aquela que transforma nomes próprios em sabores. Mais do que simples batismos, pratos que homenageiam pessoas — famosas ou anônimas — revelam histórias de afeto, reconhecimento e memória, perpetuadas a cada preparo, seja em restaurantes renomados ou nas cozinhas familiares onde tradições atravessam gerações.
A seguir, listamos 12 pratos conhecidos que carregam os nomes de pessoas reais e contamos por que elas foram escolhidas para batizar essas receitas.
Bolo Souza Leão
Bolo Souza Leão
No século 19, Pernambuco era o coração açucareiro do Brasil. Rita de Cássia Souza Leão Bezerra Cavalcanti, esposa de um influente senhor de engenho, adaptou uma receita tradicional portuguesa. Como os ingredientes europeus (como a farinha de trigo) eram difíceis de conseguir, ela os substituiu pela massa de mandioca (puba) e muito leite de coco. O resultado foi um bolo cremoso, rico e aristocrático que se tornou Patrimônio Cultural Imaterial de Pernambuco.
Filé Oswaldo Aranha
Filé Oswaldo Aranha
A história chega ao diplomata, político e um dos grandes nomes da Era Vargas, Oswaldo Aranha (1894–1960). Nos anos 1930, ele era cliente assíduo do restaurante Cosmopolita (conhecido como Senadinho), na Lapa, Rio de Janeiro. Homem de hábitos fixos, sempre pedia a mesma combinação: um filé alto com bastante alho frito, acompanhado de arroz, batatas portuguesas e farofa de ovos. O prato fez tanto sucesso entre os outros frequentadores que o restaurante o batizou oficialmente em sua homenagem.
Leia Mais
Martha Rocha
Martha Rocha
Em 1954, Maria Martha Hacker Rocha (1936–2020), a primeira Miss Brasil, perdeu o título de Miss Universo para a norte-americana Miriam Stevenson. O mito popular diz que Martha Rocha foi derrotada por “duas polegadas a mais” nos quadris. Em Curitiba, a confeiteira Dair da Costa Terzado criou uma torta monumental para consolar o orgulho nacional. O doce leva pão de ló branco e de chocolate, crocante de nozes, baba de moça e um disco de merengue (o suspiro), que representava as famosas duas polegadas a mais de pura gostosura. Já em Minas, a miss virou o nome de um pão doce com bastante creme no recheio.
Pavlova
Pavlova
Anna Pavlova (1881–1931) é uma das maiores bailarinas de balé clássico da história. Durante uma turnê pela Austrália e Nova Zelândia em 1926, um chef (a autoria exata até hoje gera uma disputa ferrenha entre os dois países) quis criar uma sobremesa que traduzisse a leveza da artista. O resultado foi o doce à base de merengue, crocante por fora e macio por dentro, coberto com chantili e frutas vermelhas, imitando o tutu de balé da dançarina.
Pizza Margherita
Pizza Margherita
Em 1889, durante uma visita real a Nápoles, o pizzaiolo Raffaele Esposito foi encarregado de criar pizzas para Margarida de Saboia (1851–1926), rainha consorte da Itália. Ele preparou três variedades, mas a favorita da monarca foi uma que trazia as cores da bandeira da Itália recém-unificada: o vermelho do tomate, o branco do queijo muçarela e o verde do manjericão. Grato pela preferência, Esposito batizou a criação com o nome da rainha.
Leia Mais
Carpaccio
Carpaccio
Em 1950, no famoso Harry's Bar, em Veneza, o proprietário Giuseppe Cipriani criou o prato de lâminas finas de carne crua para a condessa Amalia Nani Mocenigo, cujos médicos haviam proibido o consumo de carne cozida. Como a cidade sediava uma grande exposição das obras de Vittore Carpaccio (1465–1525), famoso pintor veneziano do Renascimento, conhecido pelo uso vibrante de tons vermelhos e amarelos, Cipriani achou a semelhança cromática entre a carne e as criações do artista perfeita e batizou o prato.
Crêpe Suzette
Crêpe Suzette
Sobre a origem do crêpe Suzette, há duas versões. A mais charmosa envolve uma jovem francesa chamada Suzette, que acompanhava o então Príncipe de Gales, futuro Rei Eduardo VII do Reino Unido. Em 1895, no Café de Paris em Monte Carlo, o jovem garçom Henri Charpentier estava preparando crepes para o príncipe. Por acidente, o licor de laranja derramou perto do fogo e o prato pegou fogo (flambou). O garçom provou secretamente, achou delicioso e serviu. O príncipe adorou e sugeriu que o prato levasse o nome da bela jovem que estava à mesa com ele: Suzette.
Bacalhau Gomes de Sá
Bacalhau Gomes de Sá
José Luís Gomes de Sá Júnior (1851–1926) foi um comerciante de bacalhau português. Filho de um negociante abastado no Porto, Gomes de Sá sofreu reveses financeiros e foi trabalhar no Restaurante Lisbonense. Lá, criou a receita: lascas de bacalhau amaciadas em leite, cozidas com batatas, cebola, azeite, alho e decoradas com ovos cozidos e azeitonas pretas. Ele vendeu a receita ao seu amigo, o chef João do Porto, com o aviso: “Se alterar alguma coisa, já não fica capaz”.
Molho Alfredo
Molho Alfredo
A história do molho Alfredo reflete o gesto de amor de um marido. Em 1908, a esposa de Alfredo di Lelio, restaurateur romano, Ines, estava grávida e sofria com fortes enjoos, sem conseguir reter quase nenhum alimento. Preocupado, Alfredo preparou uma massa simples (fettuccine), mas caprichou na quantidade de manteiga e queijo parmesão fresco para torná-la calórica e apetitosa. Ela adorou. O prato entrou no menu do seu restaurante em Roma e virou febre mundial quando os astros de Hollywood Mary Pickford e Douglas Fairbanks experimentaram a receita, na década de 1920.
Leia Mais
Salada Caesar
Salada Caesar
Falar sobre a salada Caesar é conhecer a história de um improviso em meio à Lei Seca. Cesare (Caesar) Cardini (1896–1956), chef italiano radicado no México, operava um restaurante em Tijuana, colado à fronteira com os EUA – refúgio para os americanos que fugiam da Lei Seca nos anos 1920. No feriado de 4 de julho de 1924, o restaurante ficou lotado e o estoque de comida quase zerou. Para não deixar os clientes famintos, Caesar pegou o que restava (alface-romana, alho, croutons, queijo parmesão, azeite de oliva e ovos) e montou a salada dramaticamente ao lado da mesa dos clientes. Foi um sucesso instantâneo.
Bechamel
Bechamel
Louis de Béchameil, Marquês de Nointel (1630–1703), um rico financista e mestre-sala do Rei Luís XIV da França, era um homem de finanças que comprou seu título de nobreza e o cargo na corte. O molho branco básico (uma evolução de receitas italianas trazidas por Catarina de Médici) foi aperfeiçoado pelo chef da corte de Luís XIV, que resolveu batizá-lo em homenagem ao marquês para bajulá-lo. Na época, um nobre rival chegou a comentar, com dor de cotovelo: “Esse Béchameil tem mesmo sorte! Já servia peito de frango com molho branco vinte anos antes dele nascer e nunca tive a honra de dar meu nome à menor das molheiras!”
Fitzgerald
Fitzgerald
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
Diferente dos outros, este drinque não nasceu na época do escritor. Ele foi criado nos anos 1990 pelo lendário bartender Dale DeGroff, no Rainbow Room, em Nova York. Trata-se de um twist do clássico Gin Sour (gim, suco de limão, xarope de açúcar e algumas gotas de Angostura). DeGroff batizou o coquetel em homenagem ao escritor F. Scott Fitzgerald (1896–1940), autor de O Grande Gatsby, que era um ávido bebedor de gim.
