Se antes queríamos degustar pratos preparados por chefs com dólmãs, hoje – e cada vez mais – nos interessamos por cozinhas repletas de profissionais vestidos com estilo e menos formalidade. Apesar de aparentemente simples, as camisetas de malha traduzem em cores e estampas a identidade do lugar. Com isso, além de serem uniformes práticos, tornam-se desejadas por clientes que querem vestir a camisa do seu bar ou restaurante favorito.
Se já enxergamos esse fenômeno em tantos endereços, isso se deve, em parte, ao trabalho realizado há alguns anos pela dupla de chefs Gabriella Guimarães e Guilherme Furtado, à frente do Okinaki e do Parallel, ambos no Lourdes, Região Centro-Sul de BH.
Desde 2021, quando o bar asiático Okinaki foi aberto, eles investem em camisetas. “A verdade é que gostamos muito da marca e logo pensamos em estampar camisetas com ela”, diz Guilherme. As peças são desenvolvidas em conjunto com a equipe de marketing, responsável por fazer os desenhos (com exceção de um dragão chinês, que é assinado pelo artista de BH Shiron The Iron).
Bar tem até "lojinha"
O espaço físico dedicado exclusivamente à “lojinha”, no entanto, só surgiu em 2023 – antes, era uma seção do cardápio. Hoje, os clientes encontram seis modelos de camisetas (R$ 82), disponíveis em preto, branco e off-white, nos tamanhos P ao GG).
O dragão chinês se une a outras estampas do Okinaki, de Guilherme Furtado, pensadas para serem colecionáveis
Sempre que há um evento especial, como a Batalha de Baos (quando chefs são convidados a criar dois sanduíches asiáticos, que competem com outras duas receitas dos anfitriões), são desenhadas novas estampas. “A gente vai tentando criar camisetas novas porque elas vão se tornando itens colecionáveis”, ressalta Guilherme, que conta que a produção está sendo ampliada para vestir crianças.
Além de camisetas dos eventos e do clássico uniforme, o chef diz sempre se preocupar com o desenvolvimento de modelos exclusivos para os clientes. “Percebo que, se você cria uma marca forte no vestuário, isso pode se tornar uma parte importante da receita da casa”, afirma, tomando como exemplo o Hard Rock Café, que se tornou emblemático na venda de souvenirs.
A coleção vem crescendo e conta com diferentes modelos de blusas, do Okinaki e das casas “irmãs”, Parallel e Vértice (bar que abrirá as portas em breve), além de boné (R$ 60) e ecobag (R$ 32).
Porca que voa
Simples, unissex e prático, o combo de camisas, ecobags e bonés também foi a aposta do bar A Porca Voadora, na Serra, Região Centro-Sul de BH. Quando abriu, em 2023, os sócios viram a necessidade de criar um uniforme e, daí, também veio a ideia de fazer camisetas (R$ 100), vendidas em preto e branco, nos tamanhos P, M e G) para os clientes.
“Sempre tivemos uma logomarca divertida com essa porca muito grande e um balão bem menor que ela, mas que, mesmo assim, a faz voar”, destaca a chef Bruna Rezende, mencionando o desenho criado por Séfora Sutil.
Colecionadora de camisetas, Bruna Rezende, do bar A Porca Voadora, diz que elas simbolizam amizades e parcerias
A porca que voa é a única estampa disponível em camisetas e, diferentemente da maior parte das casas, está disposto na parte frontal da peça. O boné (R$ 85) carrega o nome do bar e a ecobag – que está fora de estoque, mas deve reaparecer em breve – tem a frase “Dai de beber a quem tem sede”. “Já temos esse dizer em um quadrinho aqui e acho que tem tudo a ver comigo e com a Porca”, comenta Bruna.
Troca-troca
A chef do A Porca Voadora e tantos outros responsáveis por estabelecimentos gastronômicos na cidade já adotaram o costume de usar camisetas, não só de suas respectivas casas, mas de operações de amigos. “Faço coleção de todas as camisetas dos bares dos meus amigos ou das que simplesmente acho bonitas. Além de divulgar nossas marcas, queremos simbolizar amizades e parcerias”, enfatiza Bruna.
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Daniel Tassi, chef do Bar Padrin, no Carmo, Região Centro-Sul de BH, compartilha a mesma ideia. “Sempre uso as camisetas de bares amigos, trabalho com elas. É interessante porque tem gente que senta no balcão e me pergunta sobre o lugar quando vê a peça, e eu logo indico.”
As camisetas do seu bar foram lançadas recentemente, após um reposicionamento de marca, que resultou em uma nova identidade visual, desenvolvida pelo escritório de design Estúdio Sarau. “Eles nos deram essa ideia de personificar o ‘padrin’, dar uma cara para ele”, explica. A antiga logo eram apenas “mãos de bênçãos”.
Além das blusas, Daniel Tassi, do Bar Padrin, pensa em produzir itens como chaveiros, isqueiros, moletom, ecobags e copos
Por enquanto, o Padrin vende duas estampas diferentes, disponíveis nos tamanhos M, G e GG e nas cores preta e off-white (sendo que a estampa da logo principal só aparece na versão em off-white). Cada camiseta é vendida a R$ 150. O futuro, entretanto, pode – e deve – trazer novidades para a casa. “Já estou pensando em produzir camisetas com outras estampas e também itens como chaveiros, isqueiros, moletom, ecobags e até copinhos”, revela o chef.
Modelo retrô
Quem visita o Vizú Pizza Bar, na Savassi, encontra uma equipe de funcionários com um uniforme diferente. As camisetas com pegada retrô foram idealizadas pela fundadora do bar, Mafê Manna.
“Desde que começamos a pensar no uniforme, focamos em um tecido mais leve, que suportasse bem o suor e que secasse rápido. Essa estética retrô veio para dar a impressão de que a gente tivesse adquirido as peças em um brechó.” Também foi nessa época que nasceu a ideia de vender o produto como um souvenir para clientes.
Escritos no uniforme do Vizú, de Mafê Manna, se relacionam com a proposta da casa: fazer pizza e criar memórias
Os dizeres estampados (“Making pizza” e “Living memories”, do inglês “Fazendo pizza” e “Vivendo memórias”) vieram de uma campanha para comemorar os oito anos da pizzaria em Juiz de Fora (a primeira unidade do Vizú). “É um conceito que faz sentido com o que entregamos. Para além de fazer pizza, criamos boas memórias.” A fonte usada também remete a outros tempos.
Mafê chama a atenção para o desejo de projetos futuros, inclusive para dialogar cada vez mais com artistas e designers diferentes. Hoje, entretanto, a casa trabalha exclusivamente com esse modelo de camisa na cor preta com gola branca, disponível nos tamanhos P, M e G. Ela custa R$ 180.
Tartaruga fujona
Quando Pedro Cunha e Nicolás Bollini decidiram abrir o Fuga, bar inaugurado em 2025 no Cruzeiro, Região Centro-Sul de BH, já tinham o desejo de vender as camisetas que seriam os uniformes. “Quando o negócio é legal e quando tem gente que acredita nele, faz com que as pessoas furem bolhas e o levem para outros locais”, conta Pedro, chef da casa, destacando o papel das camisetas nesse processo de ampliação do alcance da marca.
A dupla aposta em dois modelos diferentes, e ambos contam com a simpática tartaruga, que é símbolo da casa. “Pesquisamos qual era o bicho que mais fugia no mundo e descobrimos que era a tartaruga. Por isso, o símbolo do Fuga é uma tartaruga que foge”, explica.
Nicolás Bollini veste a camiseta do seu bar, Fuga, que tem como símbolo uma tartaruga que bebe vermute
O responsável por dar vida a esse personagem é o designer e ilustrador Adriano Rampazzo, que investiu em um casco estampado e em uma bebida estilo Campari ou vermute (a interpretação fica a cargo de cada um) sendo bebida pela tartaruga com – sim – um canudinho!
Os dois modelos são vendidos em off-white, nos tamanhos P ao GG e custam R$ 135 cada.
Gravuras em nanquim
À frente do restaurante Casa Riuga e do Riú Bar (que inaugura hoje, em evento para convidados), a dupla de chefs formada por Carolina Elias e Pedro Stussi também aposta no uniforme dentro e fora dos empreendimentos. “Essa ideia surgiu quando começamos a perceber que um restaurante não precisa ficar necessariamente só na comida e bebida. Quando você cria um restaurante, acaba desenvolvendo uma marca”, pontua Pedro.
Ao mesmo tempo, eles observavam uma crescente de casas (especialmente em São Paulo) que investem mais e mais em uniformes diferenciados (não por acaso, por lá esse movimento de vendê-los não é mais novidade).
Para conseguirem chegar a um uniforme que fosse condizente com os restaurantes, os chefs procuraram o Estúdio Sarau (foi daí, inclusive, que Daniel Tassi, do Bar Padrin, conheceu o escritório de design).
“Eles deram a cara que o Riuga tem hoje com toda uma identidade visual composta por uma série de gravuras em nanquim [que envolvem itens como saca-rolhas, taças, coquetéis, um peixe, talheres, etc]”, enfatiza Pedro.
Para Pedro Stussi, a malha leva conforto e impulsiona um 'marketing orgânico' dos seus negócios, Casa Riuga e Riú
O chef, assim como seus colegas, destaca o valor simbólico da camiseta. “Acaba sendo um símbolo de camaradagem. Falo que, assim como em um jogo de futebol, quando tem a troca de camisas no fim, existem camisetas comemorativas de um evento, onde as duas partes podem trocar”, diz.
Pedro também destaca o aspecto do conforto que o produto traz para os funcionários e o fato de impulsionar um “marketing orgânico”, em que os clientes pagam para, mesmo que de forma indireta, divulgar o restaurante – o que leva a crer que a admiração pela casa é grande. As camisetas do Casa Riuga (dois modelos) e do Riú Bar (um modelo) são vendidas a R$ 90 e disponíveis nas cores preto e branco.
Roupa como souvenir
Os uniformes da Albertina Pães Artesanais, no Lourdes, Região Centro-Sul de BH, sempre foram camisetas de malha colorida. No último ano, no entanto, Renata Rocha, padeira e proprietária da casa, decidiu investir em estampas que traduzissem a essência da Albertina. “Li uma matéria que mostrava uniformes criativos em São Paulo e, nela, apareceu o contato da designer Luma Lage.”
Renata, então, procurou Luma, que é de BH, e ela criou três temas diferentes para estampar camisetas da padaria.
“Tento entender o gosto, a proposta e o público de cada lugar. É legal chegar em algo que traduza bem o espírito de cada estabelecimento e, que, como consequência, ainda gere desejo dos clientes. Às vezes, o intuito não é nem vender as camisetas, mas pessoas que já gostam muito das casas passam a querer usá-las também e se tornam ‘propagandas ambulantes’”, resume a designer, que trabalha com marcas de gastronomia desde 2019.
A Albertina tem hoje uma estampa de croissant com cafezinho (disponível no preto); uma de cannelé, doce francês xodó de Renata, feito com, entre outros ingredientes, rum e baunilha (por enquanto, disponível no branco); e outra de vinho e baguete nas mãos de uma padeira (à venda no off-white). Cada uma custa R$ 110 e as opções de tamanho são do P ao GG.
A estampa de croissant e café faz sucesso entre os clientes da Albertina Pães Especiais que querem uma lembrança da visita à capital mineira
A padeira teve todo o cuidado na escolha do fornecedor. Além de desejar uma matéria-prima de qualidade, ela procurava uma modelagem mais ampla e mais curta – e que fosse, assim como em todas as outras casas, unissex.
Com ampla presença digital e, consequentemente, admirada em todo o país, a Albertina vem se tornando uma espécie de ponto turístico em BH. “Vendemos bem mais camisetas para pessoas de fora, creio que porque nos acompanham pela internet”, explica Renata, que diz, ainda, perceber como muitos levam os itens como uma lembrança da visita à capital mineira. Além disso, quando alguém, literalmente, veste a camisa do seu negócio, deve haver, não só admiração, mas orgulho, identificação e pertencimento.
Segundo Renata, as camisetas como uniformes fazem parte de uma renovação do mercado gastronômico. “Acho que há mais consciência em relação ao insumo, aos funcionários. Vejo coisas como a visão de uma cozinha opressora, uniformizada com dólmãs, muito militarizada, sendo desconstruídas”, destaca, dizendo que o trabalho na cozinha pode, sim, ser mais leve.
Da dólmã à malha
A escolha de chefs de bares e restaurantes de usar camisetas de malha em vez de dólmãs diz muito sobre o atual momento da gastronomia. O tradicional uniforme tem herança militar. Assim como no exército, a hierarquia na cozinha era delimitada por diferenças na roupa e na altura do chapéu.
O uso de camisetas, que são iguais para toda a equipe e até mesmo para os clientes, escancara uma nova realidade. O público busca mais descontração no prato e no serviço. Isso também abre espaço para uma relação mais próxima com os chefs e com os estabelecimentos.
Serviço
Okinaki
- Avenida Álvares Cabral, 1303, Lourdes
- De terça a sexta, das 18h às 23h;
- Sábado, das 12h30 às 23h;
- Domingo, das 12h30 às 16h30.
- @okinakibh
Parallel
- Rua Santa Catarina, 1155, Lourdes
- De terça a sexta, das 18h às 23h;
- Sábado, das 12h30 às 23h;
- Domingo, das 12h30 às 16h30.
- @parallel.bh
A Porca Voadora
- Rua do Ouro, 1709, Serra
- (31) 98380-5775
- Quarta, das 18h às 23h30;
- Quinta, das 12h às 16h e das 18h às 23h30;
- Sexta e sábado, das 12h às 23h30;
- Domingo, das 12h às 17h.
- @aporcavoadorabar
Bar Padrin
- Rua Campanha, 11, Carmo
- De quarta a sexta, das 18h à 0h;
- Sábado, das 16h à 0h.
- @barpadrin
Vizú Pizza Bar
- Avenida Getúlio Vargas, 1445, Funcionários
- (31) 98335-2567
- De terça a quinta, das 18h à 0h;
- Sexta, das 18h à 1h;
- Sábado, das 17h à 1h.
- @vizupizzabar
Fuga
- Rua Outono, 486, Cruzeiro
- De quarta sábado, das 18h à 0h
- @fuga.bh
Casa Riuga
- Rua Cláudio Manoel, 1124, Savassi
- De terça a sexta, das 19h às 23h;
- Sábado, das 12h30 às 16h e das 19h às 23h.
- @casa.riuga
Albertina Pães Especiais
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- Rua Fernandes Tourinho, 1010, Lourdes
- (31) 99793-8990
- De quarta a sexta, das 10h às 18h30;
- Sábado, das 9h30 às 14h.
- @albertina_paes
*Estagiária sob supervisão da subeditora Celina Aquino
