Vinhos naturais ganham espaço em bares de BH e levantam debates sobre setor
Cada vez mais populares, rótulos naturais trazem à tona pautas de saúde, sabor e até legislação
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Naturais, orgânicos, biodinâmicos, de baixa intervenção…Você provavelmente já leu algum desses adjetivos em uma carta de vinhos. Talvez, inclusive, já tenha passado por uma casa especializada em algum – ou alguns – deles. O fato é que essas bebidas estão cada vez mais populares, apesar de ainda serem pouco compreendidas ou sofrerem preconceito.
Lis Cereja é sommelière, formada em nutrição e gastronomia, escritora, professora e, sobretudo, defensora dos vinhos naturais. A história dela com esses rótulos começou em meados de 2004.
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“Quando descobri que o vinho, assim como quase tudo em alimentação, era só um produto industrial alimentício, comecei a buscar alternativas. Numa dessas, comecei a entrar em grupos de agricultura orgânica e biodinâmica e descobri o movimento dos vinhos naturais, que era inspirado num movimento anterior da década de 1980 [na França]”, conta.
Em 2008, Lis foi pioneira ao abrir seu restaurante, a Enoteca Saint VinSaint, que trabalhava com insumos 100% orgânicos e artesanais. A partir de 2010, o estabelecimento passou a contar com uma carta de vinhos 100% naturais, orgânicos e biodinâmicos, priorizando os produzidos no Brasil.
Alguns anos depois, em 2013, a sommelière marcou mais uma vez a cena dos vinhos naturais, quando criou a Feira Naturebas, primeira dedicada a esses rótulos no Brasil. Hoje, o evento anual conta com 180 a 200 expositores e recebe mais de três mil visitantes, sendo considerada a maior feira de vinhos naturais da América Latina.
Pouco incentivo
É impossível negar que os vinhos naturais estão em alta. Restaurantes conhecidos e estrelados, por exemplo, estão apostando cada vez mais nessas bebidas. O aumento da visibilidade resulta na valorização desse mercado, ao mesmo tempo em que traz preocupações para Lis.
“Hoje, um dos desafios é a concorrência desigual entre uma casa que só serve vinho natural e uma casa que serve alguns rótulos entre tantos outros convencionais. Muitas vezes, o consumidor acaba não entendendo as reais diferenças e vence o melhor marketing, a garrafa mais bonita.”
Outro ponto que a especialista destaca é a falta de incentivo no Brasil, o que acabou, inclusive, contribuindo para o fechamento da Enoteca Saint VinSaint, em 2025.
“Outros desafios são o fato de ainda não termos uma lei de vinhos artesanais no Brasil [que dirá uma específica para os vinhos naturais]; o fato de sermos um país que ainda coloca pequenos produtores artesanais na ilegalidade; de lidarmos com um público ainda muito preconceituoso em relação aos vinhos; e de sermos o país que mais aplica agrotóxicos no mundo...”
Falta legislação
Muito do olhar negativo em relação aos vinhos naturais está atrelado à ausência de uma legislação brasileira que defina, pelo menos, o que eles são. O que boa parte dos produtores faz é seguir o que dizem as regras francesas – desde 2020, essa categoria é formalmente reconhecida na França, onde recebe a denominação “Vin Méthode Nature” – ou se associar para delimitar padrões a serem respeitados.
No país europeu, para entrar nessa classificação, os produtores precisam seguir critérios como ter vinhedos certificados como orgânicos, uvas colhidas manualmente, usa leveduras autóctones (microrganismos selvagens responsáveis pela fermentação espontânea) e quantidade máxima de 30mg/l de sulfitos. Essa regulamentação foi um verdadeiro avanço no posicionamento dos vinhos naturais franceses no mercado.
O tal do sulfito
O sulfito (SO2) é gerado naturalmente no processo de fermentação da uva, portanto está presente tanto em rótulos convencionais quanto naturais, só que em quantidades diferentes. Segundo Lis Cereja, até 40mg/l de sulfito costumam ser aceitáveis em vinhos naturais, mas, para um grupo de produtores mais radical, que não admite a adição de SO2, esse limite seria perto de 20mg/l. Já em relação aos industrializados, esse número gira em torno de 150mg/l.
Cada vez mais, a substância, que tem propriedades antioxidante, bactericida e conservante, ganha protagonismo em debates sobre vinhos, já que muitos acreditam que, em grandes quantidades, seja prejudicial à saúde. A especialista, por exemplo, relaciona o consumo a crises de enxaqueca que pessoas relatam ao tomar vinhos ou mesmo a problemas respiratórios (como a piora nos sintomas de asma).
Afinal, que vinhos são esses?
- Orgânicos: representam a categoria mais abrangente, que reúne vinhos produzidos a partir de uvas que são cultivadas sem aditivos químicos, utilizando defensivos agrícolas naturais. É importante destacar que, para obter uma certificação de orgânico, há um alto custo envolvido, por isso, muitos produtores podem produzir vinhos orgânicos sem necessariamente contarem com o selo de comprovação.
- Biodinâmicos: além de serem necessariamente orgânicos, são baseados na antroposofia de Rudolf Steiner. Essa filosofia busca o equilíbrio de todo o ambiente e segue o calendário lunar para poda, colheita e plantio. Os vinhos biodinâmicos contam com “remédios homeopáticos” para as vinhas ou o solo, feitos com plantas medicinais e frequentemente órgãos animais. O preparado chifre-esterco, por exemplo, consiste em “rechear” chifre de vaca com o esterco e enterrá-lo no solo.
- Naturais: apesar de não haver uma definição oficial no mundo, é usual defini-los como aqueles produzidos com pouca intervenção humana. Além disso, seguem cultivo orgânico ou biodinâmico e não contam com a adição de insumos enológicos.
- Baixa intervenção: consiste em rótulos que usam aditivos enológicos na vinificação em quantidade muito inferior aos convencionais. Isso demonstra que, em relação ao cultivo, vinhos de baixa ou mínima intervenção podem ser biodinâmicos, orgânicos ou mesmo convencionais.
Vitrine badalada
Um dos mais badalados pontos turísticos de Belo Horizonte, o Mercado Novo, no Centro, atende consumidores de gostos e necessidades distintas com mais de mil lojas. Os que buscam vinhos são direcionados ao Gira Vinho, bar que preza por rótulos naturais, de baixa intervenção ou orgânicos – eles representam cerca de 70% da carta.
A casa conta com uma seleção de vinhos que muda mensalmente. Isso está diretamente ligado ao fato de priorizarem bebidas mais naturais e de pequenos produtores. “A cada mês, troco de 10 a 20 vinhos, pensando no clima do momento e até na disponibilidade do produtor, se ele está precisando vender. Tem também uma função social da carta”, conta o chef, sommelier e dono Mateus Batista.
O Gira Vinho não serve comidas – apenas vinhos e água –, mas, caso o cliente queira fazer uma harmonização, pode pedir sugestões de pratos de outros bares e restaurantes do mercado. Aliás, Mateus costuma sugerir o Ladeira, restaurante do qual é sócio. Para ele, a combinação do tutu de feijão-branco com barriga de porco braseada, farofa crocante e roti (R$ 58,90) com um vinho laranja é certeira. Uma sugestão da carta atual é o Lazy Winemaker Laranja (R$ 160), vinho laranja natural produzido no Chile.
O proprietário da casa também produz rótulos próprios com vinícolas parceiras no Rio Grande do Sul. Na carta deste mês, os clientes encontram o Gira Cabernet Franc, feito com uvas de manejo orgânico, práticas biodinâmicas e vinificação natural (R$ 120).
Às quartas-feiras, o Gira Vinho promove degustações de vinhos biodinâmicos e naturais para até 12 pessoas. “Nesse momento, temos a oportunidade de falar do movimento, de apresentar esse mundo para mais gente”. O valor da experiência, que deve ser agendada, é de R$ 90 por pessoa.
Em drinques
No mesmo andar do Gira Vinho, fica o Gira Drinks. Lá, eles trabalham com alguns coquetéis, como clericot e aperol, que usam vinhos naturais do Rio Grande do Sul. Mateus destaca o coquetel Guimarães Rosé (R$ 36), que leva gim, limão capeta, xarope de flor de sabugueiro, morangos e espumante rosé natural.
A casa é dela
Quem também trabalha com vinhos naturais é a sommelière Ana Borges, do bar A Casa da Uva, no Bairro Cruzeiro, Região Centro-Sul de BH. Lá, ela conta com um serviço de cozinha, além da carta de vinhos que garante espaço especial para os rótulos naturais.
Quando fala deles, aliás, Ana gosta de destacar um trabalho que fez em 2020, mas que, por conta da pandemia, não foi para frente. “Fizemos uma carta exclusiva de vinhos orgânicos, naturais, biodinâmicos e de pequenos produtores para o Alma Chef em 2020. Ela durou apenas 17 dias”, lamenta.
O futuro, porém, guardava para ela um bar para chamar de seu, onde poderia explorar ainda mais esse universo que tanto a encanta. “Produtos de indústrias gigantes nunca me interessaram. Nos primeiros dois anos do bar [aberto em 2022], nem vendia Coca-Cola”, diz, esclarecendo que hoje já trabalha com o refrigerante e com vinhos convencionais, por questão de “sobrevivência”, apesar de serem minoria.
Carne de porco
O menu de comidas do A Casa da Uva é variado e, assim como Mateus, Ana chama a atenção para harmonizações com carnes suínas. “Os vinhos naturais costumam ter acidez mais elevada e isso vai muito bem com carnes mais gordurosas, como o nosso torresmo de rolo.”
O prato em questão tem como acompanhamento chutney de manga e cebola (R$ 49,70). Outro preparo que a sommelière sugere é a barriga de porco curada na casa com molho de vinho tinto (R$ 39,30).
Quase lá…
Ana e sua família estão agora à frente de uma produção de vinhos. Em 2021, eles tentaram fazer um vinhedo biodinâmico, mas, durante dois anos, tiveram uma grande perda de plantas, sobretudo por conta de doenças advindas da umidade. Hoje, trabalham com um manejo sustentável, que Ana diz estar entre o orgânico e o tradicional (com uso bastante inferior de defensivos que os convencionais).
O vinhedo está na segunda colheita e em fase de formalização para a venda. A plantação do projeto familiar, denominado Vinha Verso, fica em Moeda (MG).
Mais novidades
José Inácio César Garcia, sommelier e sócio da distribuidora e importadora La Gruta e vendedor de vinhos de baixa intervenção, naturais, orgânicos, biodinâmicos e convencionais desde 2020, também tem novidades. Provavelmente entre março e abril, ele vai abrir no Bairro Belvedere, Região Centro-Sul de BH, uma loja de vinhos convencionais e naturais, focada em rótulos brasileiros e sul-americanos.
A Parreiral Vinhos, como vai se chamar, não é definida como um bar, mas vai trabalhar com taças para que os clientes possam experimentar os produtos antes de investir na garrafa. Entre os produtores, ele destaca o Cão Perdigueiro, com vinhos de baixa intervenção artesanal do Rio Grande do Sul, e o SuperUco, responsável por vinhos orgânicos no Valle do Uco, em Mendoza, na Argentina. Além disso, serão servidas tábuas de embutidos de um pequeno produtor de Formiga (MG).
Terra de pioneirismos
Na gastronomia, assim como no universo dos vinhos, São Paulo se mostra uma cidade muito pioneira. Assim como Lis Cereja fez por mais de duas décadas na Enoteca Saint VinSaint, há profissionais que lutam pelos rótulos especiais, sobretudo naturais.
Fundado por Gabriela Monteleone e Ariel Kogan em 2020, o projeto Tão Longe, Tão Perto sempre foi focado em aproximar consumidores e produtores de rótulos artesanais, incluindo os de baixa intervenção. Durante a pandemia, funcionava com caixas de degustação de vinhos e reuniões on-line – que possibilitaram a conexão de pessoas de diversas regiões do Brasil e do mundo.
Desde 2023, o projeto conta com a Casa Tão Longe, Tão Perto, que começou como um espaço físico para apresentar aos clientes os vinhos de torneira e o portfólio de produtores, virou um bar de vinhos, inclusive com opções de comidinhas. A primeira a ser inaugurada foi a da Barra Funda, na capital paulista. No ano seguinte, em 2024, foram abertas as unidades do Rio de Janeiro e do Porto, ao Norte de Portugal. Este ano, chegou a BH.
Se o TLTP (sigla que abrevia o nome do empreendimento) começou como um projeto, hoje é uma holding. Além de contar com quatro unidades do bar de vinhos, atua na distribuição de vinhos na torneira e conta com uma distribuidora, por meio da qual posicionam estrategicamente produtores brasileiros no mercado.
Na torneira
Um dos grandes diferenciais da Casa Tão Longe, Tão Perto é o vinho na torneira, que permite a venda de rótulos em diferentes volumes – seja em taças de 150ml, garrafas de 500ml ou 1 litro.
O modelo também é mais sustentável. Segundo Gabriela, a cada barril usado, são “poupadas” cerca de 24 garrafas. “A distribuição dos vinhos na torneira veio como uma solução para o mercado de restaurantes e bares, que tinha sempre a ‘dor’ de abrir uma garrafa para servir taças e muito acabar sendo desperdiçado, ou mesmo da qualidade da bebida não ser muito boa”, completa a sommelière e fundadora do negócio.
Chegada a BH
A Casa Tão Longe, Tão Perto de BH fica no Bairro Carlos Prates, Região Noroeste da cidade. Para viabilizar o projeto da nova unidade, Gabriela e Ariel contaram com a participação do chef Henrique Gilberto (além de outros sócios), que também está à frente do restaurante Cozinha Tupis, do bar Juramento 202 e da pizzaria Forno da Saudade. Essa, aliás, fica bem em frente ao novo bar de vinhos. Essa proximidade geográfica permite que os clientes busquem pizzas para acompanhar os vinhos.
Para os que quiserem permanecer na Casa Tão Longe, Tão Perto, há opções de tábuas de queijo e charcutaria (a partir de R$ 109); terrines, a exemplo da de foie e jabuticaba (R$ 79), e porções de itens como azeitonas e castanhas (a partir de R$ 19).
Entre os vinhos servidos no bar, há cinco opções de tintos; duas de brancos; seis de laranjas; e uma de rosé. O estabelecimento serve ainda vermutes – branco, rosé ou tinto. Assim como ocorre com as bebidas, no cardápio assinado por Henrique Gilberto, os itens como queijos e charcutarias têm seus produtores destacados.
Paraíso natural
Com uma enorme carta com mais de 500 rótulos naturais e de baixa intervenção, o Plou Vinhos, localizado na Vila Madalena, em São Paulo, é um verdadeiro refúgio para os amantes desse setor e para os curiosos. O negócio foi fundado em 2023 por Analu Torres, sommelière que, até 2019, esteve à frente do Jardim dos Vinhos Vivos, projeto que contava com aulas, viagens, loja e, posteriormente, tornou-se um bar.
Quem visita o bar experimenta o atendimento maravilhoso de Analu e de sua equipe, com profissionais como Kelen Gini, sommelière e grande conhecedora do universo dos vinhos naturais. No balcão, clientes encontram uma vasta seleção diárias de garrafas para consumo em taças (que partem de R$ 35). A sugestão é conversar – e muito – com Kelen e Analu, que conduzem experiências maravilhosas com vinhos singulares.
Boa parte da carta de vinhos do Plou é formada por rótulos franceses. Analu é professora de francês (inclusive dá aulas com foco em vinhos, afinal, trabalha com eles desde 2005) e já estudou e viveu no país.
Pratos com vinhos
O cardápio do bar, tão especial quanto a carta, é assinado pelo chef Samuel Rocha e conta com itens como o sanduíche de copa lombo braseado com aioli de anchovas, salada de ervas e picles de cebola (R$ 39). As bocadas de anchova do Mar Cantábrico com pão de fermentação natural, ricota e purê de limão (R$ 52) também fazem sucesso por lá.
Analu conta que ela e Samuel sentam e debatem o cardápio, pensando na combinação de pratos com vinhos. Apesar disso, ela diz não acreditar 100% em harmonizações. “Acho que a harmonização é mais rara do que se vende no mercado. Ela acontece para mim de fato muito raramente.”
Anote a receita: Guimarães Rosé do Gira Drinks
Ingredientes:
- 30ml de gim;
- 20ml de suco de limão capeta;
- 20ml de xarope de flor de sabugueiro;
- 50ml de morangos batidos;
- 150ml de espumante rosé (eles utilizam um rótulo natural).
Modo de fazer:
- Em uma taça com gelo, coloque todos os ingredientes, exceto o espumante.
- Misture bem com uma colher bailarina e finalize adicionando o espumante.
Serviço
Gira (@gira.vinho)
Avenida Olegário Maciel, 742, Centro (Mercado Novo)
Terça e quarta, das 18h às 22h; quinta, das 18h às 23h; sexta, das 18h à 0h; sábado, das 12h à 0h; domingo, das 12h às 18h
A Casa da Uva (@acasadauva)
Rua Pium-Í, 397, Cruzeiro
(31) 98221-0679
De quarta a sexta, das 17h às 23h; sábado, das 12h às 23h; domingo, das 12h às 18h
Casa Tão Longe, Tão Perto (@casatltpbh)
Rua Peçanha, 533, Carlos Prates
Segunda, quarta, quinta, sexta e sábado, das 17h à 0h; domingo, das 16h às 23h30
Plou Vinhos (plou.vinhos)
Rua Original, 141, Sumarezinho, São Paulo
(11) 91211-1794
Terça e quinta, das 15h às 23h; sexta, das 15h à 0h; sábado, das 16h à 0h; somingo, das 16h às 23h
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*Estagiária sob supervisão da subeditora Celina Aquino