
Mercado Central: guia virtual propõe novo jeito de passear pelos corredores
Plataforma conduz visitantes por cinco caminhos que contam as histórias dos comerciantes e destacam a riqueza gastronômica de Minas Gerais
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Siga noPerder-se nos corredores do Mercado Central de Belo Horizonte é quase um rito de passagem para quem visita o coração pulsante da cidade. Mas, se a graça do passeio está nas descobertas inesperadas, há quem prefere encontrar o queijo perfeito, a cachaça dos sonhos ou aquele doce de leite inesquecível sem errar o caminho.
Pensando nisso, foi lançado o Guia Virtual do centro de compras, uma ferramenta prática e inovadora que organiza o charme do lugar em cinco rotas gastronômicas divididas por temas: Bebidas, Comidas, Doces, Ingredientes e Panelas e Queijos. A partir desse mapa, vamos contar as histórias de seis lojas que representam os caminhos, revelando uma riqueza de sabores e tradição.
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Brinde com destilados
Uísque, gim, rum, vodca, cachaça e licor. Tudo em uma só loja. Há quatro anos no mercado, essa é a missão da distribuidora Ambix, que integra o caminho das Bebidas. “Ela foi aberta como uma loja conceito da Destilaria Lamas, de Matozinhos, na Região Central do estado, marca referência na produção de bebidas destiladas. A Lamas é, inclusive, recomendada pelo crítico Jim Murray, autor da 'Whiskey Bible', a bíblia do uísque, como fabricante de alta qualidade”, conta a sócia, Adriane Couto Cysne.

Adriane Cysne, da Ambix, surpreende os visitantes com uísques premiados internacionalmente
A Ambix se apresenta como única loja física representante em BH da destilaria mineira, que já está presente na Coreia, França e Rússia. Como qualquer outro ponto do mercado, a distribuidora costuma enfrentar o desafio de ser encontrada em meio ao emaranhado de caminhos.“O guia foi uma grata surpresa para nós. Às vezes tem cliente que fala: 'nossa, custei a achar' ou 'como faz para chegar?'. Tem quem conte que os lojistas são clientes que se perderam e nunca mais conseguiram sair. A ideia é sensacional, porque vai ajudar muitas pessoas, principalmente os turistas”, comemora Adriane, ao relatar casos de clientes que não conseguiram encontrar a Ambix pelos corredores.
Ao ser avistada, a distribuidora enche os olhos de apreciadores e curiosos pela variedade de bebidas. Além dos produtos da Lamas, o espaço incorporou bebidas próprias.“As pessoas costumam associar o Mercado Central à cachaça, mas o uísque tem sido uma ótima surpresa de compras dos visitantes. Aqui os clientes não só conhecem as bebidas, mas têm uma experiência com elas, já que os barris instalados nas paredes permitem que eles degustem, enquanto conhecem a história de cada rótulo”, afirma Cysne.
Os carros-chefes da Ambix são os uísques, as cachaças e os licores. Como exemplos, ela cita o licor Gran Arthurium, feito com doce de leite Viçosa; o uísque Rarus, que é finalizado em um barril de rum e foi o escolhido pelo Consulado Britânico para ser servido na festa de coroação do Rei Charles na embaixada do Brasil; e as cachaças bi destiladas, ou seja, que passaram pelo processo de destilação duas vezes. “Há, em média, 40 rótulos no total”, contabiliza.
Como parte da produção local, a sócia diz que também vale a pena experimentar os uísques Amburana, a versão com café e o lançamento Areté, um single malt com 40% de álcool.
Amendoim e rapadura
Se, durante um passeio pelo Mercado Central, você sentir um cheirinho irresistível de rapadura, amendoim e tradição, pode ter certeza: está perto do Ponto do Pé de Moleque. A loja, que se encontra no caminho dos Doces, completou cinco anos em outubro e apresenta aos mineiros o autêntico pé de moleque de Piranguinho, no Sul do estado, conhecida como a capital mundial do doce.

Os doces vendidos na Ponto do Pé de Moleque, de Márcia Prado, são feitos com rapadura
A origem da famosa mistura de açúcar e amendoim remonta ao Brasil colonial. A ex-bancária Márcia Prado conta que as mulheres, antigamente, faziam o doce nas fazendas. “Elas o colocavam nas janelas para secar e os meninos vinham, pegavam escondido e elas diziam: ‘pede moleque, não roube!’. O nome acabou ficando”, lembra.
Em 2017, Márcia trocou os números pelos doces mineiros e hoje faz parte da gestão da loja. “Saí para descansar e, pouco depois, uma amiga me chamou para montar a loja no mercado. Nosso foco é o pé de moleque feito com rapadura, nas versões com amendoim inteiro e moído”, sublinha. Na sequência, os campeões de venda são o doce de leite, as compotas de frutas e a goiabada.
Prato cheio
Na década de 1950, Maria e José Lino instalaram uma barraca simples no mercado. Ela trabalhava com queijos e doces e ele vendia bananas para o Exército. Tudo ia bem, até que em 1972 as obras no mercado faliram o comércio do casal. “Mamãe, então, alugou o espaço para uma pessoa e montou um bar com restaurante na loja. Dois anos depois, o contrato venceu e ela recuperou o local, que, em 1974, se tornou definitivamente um restaurante”, conta o filho e chef da casa, Ilmar Antônio de Jesus.

Porconóbis de Sabugosa: prato do restaurante Casa Cheia com costelinha, ora-pro-nóbis e milho
A cozinha, no entanto, só foi batizada em 1978, quando Dona Maria assumiu 100% o controle do negócio. “Ela não sabia que nome iria dar, até que um vizinho, o Zezé sugeriu: Dona Maria, o restaurante já fica cheio, dá o nome de Casa Cheia.” Assim nascia o Bar e Restaurante Casa Cheia, que faz parte do caminho das Comidas. “Mamãe era muito devota de Nossa Senhora de Fátima, que é a padroeira do mercado, e de Nossa Senhora Aparecida. Depois desse dia, o restaurante nunca mais ficou vazio, sempre lotado. Foi um nome abençoado por Deus”, acredita o filho.
Posteriormente, em 1987, a mãe quis vender o restaurante. De prontidão, Ilmar, que era engenheiro na época e estava cursando pós-graduação em estrutura, deixou o curso e saiu da empresa para impedir o feito.
“Entrei e não deixei vendê-lo. Pedi licença do antigo trabalho e nunca mais saí do restaurante”, relata. O filho continuou seguindo o tempero da matriarca, descendente de italianos, e o amor pela culinária. “Me tornei um chef curioso com ingredientes, gosto de cozinhar com ervas e viajo o mundo em função da gastronomia”, alega.
Hoje os pratos mais vendidos no Casa Cheia são o “Mexidoido Chapado” (mexidão com iscas de alcatra, lombo, linguiça caseira, bacon, legumes ao azeite, arroz, ovo frito de codorna e ervas aromáticas); o “Mineirinho Valente” (canjiquinha com queijo, lombo defumado, costela desossada ao vinho, linguiça caseira e espinafre); o “Porconóbis de Sabugosa” (saborosa costelinha de porco com ora-pro-nóbis e sabugo de milho) e, claro, o imponente feijão-tropeiro.
Queijos variados
Quem não adoraria levar de lembrança um queijo mineiro para degustar acompanhado de um cafezinho? Percorrendo o caminho dos Queijos, você chega à Laticínios Irmãos Costa, onde opção é o que não falta. “A loja foi fundada em 1960 pelo meu pai Expedito Camilo da Costa e meu tio José Gonçalo Costa, por isso o nome irmãos Costa. Desde o começo, a loja é focada na venda de produtos lácteos, especialmente queijos”, menciona Robson Costa.

Queijo é o produto mais vendido por Zelita e Robson Costa na Laticínios Irmãos Costa
Naquele tempo, recém-chegado do interior, José começou a trabalhar em algumas lojas do mercado e se interessou em montar o próprio negócio. “Em seguida, meu pai veio ajudá-lo e, dois anos depois, o meu avô. Eles ficaram juntos até meu pai se casar e, a partir disso, permaneceu ele e a esposa Zelita Gonçalves Costa”, esclarece o filho, que assumiu a loja ao lado da mãe, em 2013. Zelita (ou Zelinha) é hoje a comerciante mulher mais antiga do mercado.
Dentre os mais de 800 produtos, os queijos são os mais vendidos. A preferência dos clientes é pelo Canastra de leite cru, o do Serro, parmesão, provolone e a muçarela. “Ainda temos o requeijão do Norte de Minas com raspa de tacho, o requeijão cremoso, manteiga e queijos finos como brie, gorgonzola e grana padano”, detalha Robson.
Alquimia de sabores
Se o seu objetivo for encontrar ingredientes capazes de transformar qualquer prato, a Banca Santo Antônio é o lugar certo para você. Moradora antiga do Mercado Central, a loja foi instalada em 1947, mas foi em 1987, sob posse de João Igino, que o negócio alavancou.“Meu pai era muito visionário. Começou no mercado e logo depois foi trabalhar na marca tradicional de molhos e temperos Pirata. Quando ele comprou a banca, continuou nesse segmento, mas começou a ir além”, recorda o filho e hoje dono, Rafael Igino.

À frente da Banca Santo Antônio, Rafael Igino desenvolveu uma linha de temperos para comida mineira
A loja começou a ganhar fama e se tornou ponto de encontro de viajantes e cozinheiros. “Muitos chefs de cozinha passavam na loja e contavam histórias. Eles iam para países diferentes, voltavam à loja e diziam: ‘João você tem que trazer isso ou aquilo’, e meu pai corria atrás. Assim, ele começou a adquirir uma enorme gama de temperos e especiarias”, relembra, com orgulho, Rafael. Junto com a irmã, ele assumiu os negócios em 2014, após o falecimento do patriarca.
Hoje, a Banca Santo Antônio, uma das paradas do caminho dos Ingredientes e Panelas, vai além da venda de produtos. É um verdadeiro laboratório de especiarias. Rafael explica que realiza um trabalho de alquimia, ou seja, um estudo sobre as características, o preparo, a interação dos alimentos e os usos dos ingredientes na cozinha.
“Recentemente, desenvolvi uma linha em homenagem à gastronomia mineira, chamei-a de mineiridade. São temperos prontos para pratos típicos da nossa culinária como feijão-tropeiro, galinhada, joelho e pé de porco, costelão e vaca atolada, paella mineira – o famoso arroz carreteiro – e frango assado”, ressalta.
Igino acrescenta que a loja também oferece opções mais consagradas. São elas: chimichurri; lemon pepper, muito utilizado em pratos de frutos do mar e saladas; colorau; canela; cúrcuma e o “tempero do bigode”, uma mistura universal para qualquer prato, criado há mais de 20 anos pelo pai.
Com 78 anos “temperando” a vida de quem passa por lá, Rafael diz que tem observado uma nova tendência nesse universo: os caldos prontos, como os de galinha e carne, têm perdido espaço. “A população têm eliminado o glutamato monossódico do cardápio e optado por uma alimentação mais saudável. As pessoas estão dando preferência a produtos naturais”, analisa.
Isso, segundo ele, não é apenas uma inclinação na Banca Santo Antônio, mas um compromisso com a qualidade. Entre aromas e sabores, a loja continua a inspirar escolhas mais conscientes, mostrando que se alimentar bem é, acima de tudo, um ato de cuidado.
Gostinho mineiro
O que começou como ponto de venda de legumes hoje é parada obrigatória no caminho dos Doces para quem procura por guloseimas. Doces típicos, balas e biscoitos são os produtos disputados pelos turistas que visitam a Comercial Enedir Biscoiteria.
“A loja começou com meu pai, Enedir Santana, com a venda de verduras e legumes. Mas, em 1980, ele mudou o ramo e passou a vender biscoitos”, relembra o filho Marcelo Dimir Santana. Foi nesta década que o herdeiro passou a trabalhar no mercado, ainda criança, com 10 anos de idade.

Doces, geleias, balas e biscoitos são disputados por turistas na Biscoiteria, fundada pelo pai de Marcelo Santana
Os anos se passaram e, em 2014, foi feita a primeira reforma na loja para adequar aos padrões atuais: fachada vermelha, prateleiras recheadas e pacotes de biscoitos que quase chegam a invadir os corredores. “Acrescentamos doces clássicos e algumas garrafas de cachaça para atender o público turístico que passou a ser mais frequente no mercado”, alega Marcelo.
Como carrega no próprio nome, o carro-chefe são os biscoitos. A loja possui um “cardápio” com cerca de 80 tipos diferentes. “Há uma variedade desde o tradicional de polvilho ao ‘casadinho’ nas versões goiabada, geleia de jabuticaba e Nutella. Além dos sabores amendoim crocante, abacaxi com coco, laranja com damasco, milho e as famosas rosquinhas de leite e nata”, ressalta.
Para somar àquele gostinho mineiro, também foi incrementado o famoso doce de leite. Segundo ele, o mais procurado é o tradicional, mas, se preferir algo novo sem perder a identidade, as variações com coco, café e raspas de limão prometem agradar.
Parada obrigatória
Parceria da Belotur com o Sebrae Minas, o Guia Virtual do Mercado Central faz parte do projeto “Territórios e Redes Criativas”, criado em 2019 com intuito de lançar um novo olhar sobre algumas regiões de BH, mostrando aos moradores e visitantes o potencial dessas localidades. O lançamento da plataforma, em novembro do ano passado, coincidiu com a celebração dos cinco anos do título de Cidade Criativa da Gastronomia, concedido à capital mineira pela Unesco. A proposta, segundo a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), é valorizar os principais ativos da atração turística.

Todos os 400 lojistas do centro de compras estão listados no guia por categoria
“A intenção de estruturar e sugerir caminhos não é estabelecer um modelo rígido, uma vez que a experiência no mercado é caracterizada pela espontaneidade. A ideia, na verdade, é permitir que os visitantes se percam e descubram o local de maneira orgânica”, informou o órgão municipal, por meio da Belotur. Para isso, a ferramenta oferece uma variedade de informações e permite que o usuário escolha a forma de interação que mais lhe agrada, seja por vídeo, áudio, texto ou foto.
Todos os 400 lojistas do centro de compras estão listados no guia por categoria, com localização, contato e redes sociais. Desse total, 30 compõem as cinco rotas que oferecem experiências diferentes para conhecer e se aprofundar na gastronomia de BH e de Minas Gerais.“Os critérios adotados para a seleção final dos cinco caminhos e dos estabelecimentos que os integram foram: produtos mais vendidos (queijo, cachaça, café, doces), extensão e tempo (trabalhar com conteúdos com tempo médio de 20 minutos) e conexão entre as rotas e os pontos que ajudem a percorrer toda a extensão do mercado”, descreve a Belotur.
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Participaram do processo os gestores do Mercado Central e representantes do Sebrae Minas e Belotur, com o apoio e curadoria da jornalista especializada em gastronomia Celina Aquino. “Nossa plataforma está em constante evolução, com atualizações. Nosso objetivo é proporcionar aos visitantes uma experiência imersiva, permitindo uma viagem por meio dos sabores e histórias que o local tem a oferecer”, conclui a PBH.
Veja a lista completa das lojas do Guia Virtual
Bebidas
Adega Gerais
Ambix
Café Gourmet Clube
Dünn Cervejaria
Estação Engenho
O'Gin
Tradicional Limonada
Comidas
Bar da Lora
Café Dois Irmãos
Casa Cheia
Comercial Sabiá
Du Pain
Jaja Frutas
Jorge Americano
Ponto da Empada
Rei do Torresmo
Doces
Biscoiteria
Empório do Queijo
Ponto do Pé de Moleque
Tupiguá
Ingredientes e Panelas
Banca Santo Antônio
Loja do Nem
Ponto das Farinhas
Só Pimenta
Queijos
Laticínios Irmãos Costa
Loja do Itamar
Ponto do Queijo
Queijaria Catequese
Roça Capital
Ronaldo Queijos e Cachaças
Como acessar
O Guia Virtual está disponível no Portal Belo Horizonte e pode ser acessado por computador, tablet ou celular
Serviço
Mercado Central de Belo Horizonte (@mercadocentralbh)
Avenida Augusto de Lima, 744 – Centro
(31) 3274-9434
*Estagiária sob supervisão da subeditora Celina Aquino