ARTES VISUAIS

Em "Diários", Marco Tulio Resende expõe pensamentos em forma de desenho

Artista expõe aproximadamente 150 desenhos que são elaborações de acontecimentos cotidianos, em mostra na Lemos de Sá Galeria, que abre neste sábado (17/10)

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Durante mais de cinco décadas, o artista mineiro Marco Tulio Resende teve o desenho como uma prática cotidiana de observação, reflexão e experimentação. Ao longo desse tempo, ele acumulou registros de ideias, imagens, estudos, projetos e inquietações que acompanharam diferentes momentos de sua vida e de sua produção artística.

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Esse acervo é o cerne da exposição “Diários”, que será aberta neste sábado (17/10), na Lemos de Sá Galeria, e que também apresenta trabalhos inéditos.


Com curadoria de Alexandre Madalena, a mostra propõe, ao apresentar uma seleção de desenhos produzidos durante 50 anos, uma reflexão sobre o próprio ato de desenhar e sua capacidade de atravessar diferentes linguagens artísticas.

Resende frisa que desenha compulsivamente, como quem escreve um diário, o que explica o nome com que a exposição foi batizada. Ele diz que encadernou toda essa produção, o que gerou 100 livros que são apresentados na mostra.


O artista observa que não se trata, contudo, de uma mera retrospectiva, já que criou obras recentes que dialogam com esse acervo. Além dos desenhos, recortes e pinturas também integram o conjunto em exposição, totalizando aproximadamente 150 trabalhos.

No que diz respeito à produção pregressa, Resende destaca que não há uma ordem ou cronologia. “Murilo Mendes falava que um artista pinta um quadro como um poeta faz um poema, ou seja, tem coisas que vão e voltam com roupagens diferentes”, diz.


Ele explica que, em função dessa dinâmica, não é possível sequer identificar, no conjunto de obras, os diferentes períodos de sua produção. “É uma trajetória e, como tal, tem princípio, meio e fim, mas, como disse, as coisas vão e voltam, então não há como estabelecer o momento exato da criação”, comenta.


O artista pontua que, naturalmente, surgem “lugares novos” nesse ir e vir, com algumas mudanças perceptíveis. “Há 30 anos eu fazia um tipo de coisa, hoje faço outro, mas há um atravessamento”, diz.


PRETO E BRANCO

Resende observa que a predominância do preto e branco constitui uma escolha expressiva da exposição. Segundo o artista, ao privilegiar os contrastes entre luz e sombra, presença e vazio, superfície e matéria, ele direciona a atenção para os elementos fundamentais da composição, ressaltando a estrutura e a potência do desenho.


Esses elementos é que possibilitam que a linha se transmute em forma, ganhe volume, textura e materialidade, estabelecendo relações com a pintura, a escultura e outras possibilidades de expressão, conforme observa.


“Tem certas coisas que nascem para ser desenho e ponto final, mas outras me pedem para ser transformadas em escultura, pintura ou gravura. O próprio trabalho é que dá essas dicas. Agora, tudo sempre nasce de um desenho”, afirma.


Ele ressalta, ainda, que todo o seu trabalho se relaciona com a memória, provém dela, de forma que, mesmo a produção recente guarda um lastro de cinco décadas, de objetos em geral acumulados ao longo desse tempo que deram origem aos desenhos.


MUSEU DO ABANDONO

“Tenho, no meu ateliê, uma estante de 10 metros onde guardo tudo o que se pode imaginar, que chamo de 'museu do abandono', com coisas que achei na rua, coisas de gente que morreu, descartes em geral; tem objetos interessantíssimos”, conta.


“A partir dessa coleção é que nasce o desenho, que depois pode seguir para todos esses caminhos – a pintura, a escultura, a gravura, ou seja, tudo é fruto da memória”, diz.


Sobre as obras inéditas, todas deste ano, Alexandre Madalena chama a atenção para a coerência da seleção. “Pensamos em trazer para a exposição alguns símbolos da poética de Marco Tulio. As mãos, a cabeça, a escada, os arcos, as facas e cortantes, as asas e alados, entre outros signos, foram transformados em objetos de parede, madeiras recortadas e aplicadas sobre o chassi para virar quadro”, diz.


“Diários” é inaugurada em um momento simbólico para a Lemos de Sá, que celebra 35 anos de trajetória em 2026. A relação entre a galeria e Marco Tulio Resende atravessa parte significativa dessa história.


O artista recorda que a galeria praticamente nasceu dentro de seu ateliê. “Beatriz não tinha onde estocar seus trabalhos. Meu espaço de criação, no São Pedro, que hoje é gigantesco, já era grande há 35 anos e tinha um quarto sobrando. Ela levava as gravuras dela para lá, para vender, então a galeria começou a tomar forma no meu ateliê e no da Thais Helt, que também abrigava as obras que Beatriz colecionava”, conta.


Sobre a proximidade da galeria com o trabalho de Marco Tulio Resende, Beatriz Lemos de Sá diz que “acompanhar sua criação é também acompanhar as transformações de seu trabalho e perceber aquilo que permanece: a importância do desenho, da pesquisa e da liberdade de experimentar. 'Diários' reúne uma parte muito significativa dessa trajetória".


“DIÁRIOS”
Abertura da individual de Marco Tulio Resende, neste sábado (17/10), das 11h às 15h, na Lemos de Sá Galeria (Rua Germano Chati, 255, Mangabeiras). Visitação a partir de 19/10, de segunda a sexta, das 10h às 18h, e aos sábados, das 10h às 14h. Até 13 de fevereiro de 2027. Entrada gratuita.

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