"Dentro da baleia" é metade suspense, metade drama
Além do desafio de sobrevivência, longa em cartaz concentra sua história na conflituosa relação entre um filho (Austin Abrams) e seu pai (Josh Brolin) severo
compartilhe
Na música “Mestre Jonas”, de Sá, Rodrix & Guarabyra, inspirada em uma parábola bíblica, o personagem-título, que foi engolido por uma baleia, diz que quer morar dentro dela até o fim da vida. Jay Gardiner, protagonista do longa “Dentro da baleia”, que acaba de entrar em cartaz, não.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
A luta do jovem de 17 anos, interpretado por Austin Abrams, para não sucumbir nas entranhas de um cetáceo é o fio condutor do filme dirigido por Brian Duffield, inspirado no livro “Whalefall” (2023), de Daniel Kraus, que é coautor do roteiro.
A história acompanha Jay, que, por viver às turras com o pai, Mitt (Josh Brolin), um mergulhador da costa da Califórnia que é uma lenda no lugarejo onde vive, deixa a família para estudar em Iowa. Velho e doente, Mitt, logo na primeira cena, tira a própria vida se jogando no oceano, que chama de sua casa.
Jay retorna e, para se reconectar com a mãe e duas irmãs mais velhas e para provar que é capaz de pôr em prática tudo o que o pai lhe ensinou – de maneira doutrinária e rude – vai em busca de seus restos mortais.
Durante o mergulho, o jovem acaba engolido vivo por um cachalote de 25 metros e 60 toneladas, que, na verdade, estava na captura de uma lula gigante, que também vai parar no estômago do bicho. Enquanto luta contra o tempo para tentar sair de dentro da baleia, porque restam 40 minutos de oxigênio no tanque que leva às costas, Jay recorda a relação com o pai, as brigas, as mágoas, os ensinamentos e os conselhos. Esses dois planos – entre o drama e o suspense – se alternam ao longo do filme.
Certamente serviram de inspiração para Daniel Kraus não só a parábola de Jonas e a baleia, mas também histórias infantis como a de Pinóquio e do Soldadinho de Chumbo, que são igualmente engolidos por criaturas aquáticas.
VÍDEO VIRAL
Curiosamente, um fato ocorrido em fevereiro do ano passado trouxe o enredo para mais perto de um acontecimento plausível: um jovem chileno remava em um caiaque quando foi abocanhado por uma baleia-jubarte, que, no entanto, imediatamente o “cuspiu”. O vídeo com a cena tornou-se viral.
A despeito disso, para uma melhor fruição de “Dentro da baleia”, é preciso ter clareza de que se trata de uma ficção, um suspense que faz bom uso dos códigos do gênero, e não de um documentário do National Geographic.
Há exageros e improbabilidades? Sim, aos montes, por isso é preciso se deixar embarcar na fantasia para que, ao final da projeção, o entretenimento tenha sido satisfatório. A situação agoniante de Jay causa tensão e desespero, e sua jornada de redenção na relação com o pai não deixa de ser tocante.
O interior do cachalote é, por um lado, um ambiente de autoanálise forçada e, por outro, um desafio extremo de sobrevivência. Sob este último prisma, “Dentro da baleia” estabelece pontos de contato com pelo menos outros dois filmes de gêneros afins: “Tubarão” (1975), de Steven Spielberg, e “Abismo do medo” (2005), de Neil Marshall.
A relação com o primeiro está, naturalmente, no enfrentamento de uma ameaça que vem do fundo do mar e que coloca o protagonista em uma situação limite.De “Abismo do medo”, cuja história acompanha um grupo de amigas que resolve explorar uma caverna e fica preso nela, na companhia de estranhas criaturas, o paralelo está na forma hábil como ambos exploram a sensação de claustrofobia.
Outros ingredientes de filmes do gênero também estão presentes em “Dentro da baleia”, como os sustos, a escuridão e a exploração da repulsa, porque Jay tem que se haver com mais coisas além dos processos digestivos do cachalote.
Para escrever “Whalefall” de maneira que a história pudesse ser minimamente verossímil, Daniel Kraus se municiou de pesquisas e conversas com biólogos marinhos especializados em cetáceos, de forma que o livro tivesse alguma baliza científica.
Mas tanto na literatura quanto no cinema, o compromisso com a realidade pode estar em suspensão parcial ou total, de forma que o que vale mesmo no longa de Brian Duffield é a trama bem costurada e a apreensão que ele, como um filme de suspense, pode e deve causar.
HUMANOS E CACHALOTES
Não existe nenhum registro confirmado de algum humano que tenha sido engolido por um cachalote. Anatomicamente, contudo, isso é possível, segundo a National Geographic Brasil, já que esta é a única espécie com uma garganta grande o suficiente para passar um corpo – diferentemente de outras baleias, como a jubarte ou a azul, que têm gargantas muito estreitas, do tamanho de um punho ou, no máximo, de uma bola de basquete. O esôfago do cachalote também pode se expandir o suficiente para comportar um ser humano. A possibilidade disso acontecer, no entanto, é muito remota, já que esse tipo de cetáceo vive em mar aberto e caça em grandes profundidades, geralmente mil metros abaixo da superfície.
Siga nosso canal no WhatsApp e receba notícias relevantes para o seu dia
“DENTRO DA BALEIA”
(Estados Unidos, 2026, 1h46). Direção: Brian Duffield. Com Austin Abrams, Josh Brolin e Elizabeth Shue. Em cartaz em salas das redes Cineart, Cinemark e Cinépolis.